O polêmico episódio de Angico Parte II - Por: Juliana Ischiara

Juliana Ischiara e Alcino Alves Costa

Voltando ao fim do cangaço, me reportarei aos fatos que antecederam o grande dia. Consta em toda literatura cangaceira, que Osman Loureiro, interventor de Alagoas, teria dado ordens expressas ao Comandante Lucena para que este resolvesse de vez com o problemático cangaço e este por, sua vez, intimou o Ten. Bezerra para executar a operação. Consta ainda que a ordem de Lucena a Bezerra foi mais um ultimato, dado a desconfiança de Lucena em relação a Bezerra. Em sendo assim, com comando geral, também, sabendo da ligação de Bezerra com Lampião, podemos dizer que a covardia de Bezerra foi um fator importante para morte de Lampião, posto que o rei do cangaço tinha confiança na relação existente entre ambos?

Quanto a esta pergunta, recorro novamente à literatura cangaceira para entendê-la. Ao que se sabe, Lampião estava sabendo de toda a movimentação e ou caçada promovida por Zé Rufino, que tornara-se um de seus piores algozes, tanto que ficar perto do comando de João Bezerra lhe parecia mais seguro. A confiança em Bezerra não era descabida, pois muitos relatos apontam para a prevaricação do tenente comandante em relação à perseguição ao bando cangaceiro.

Se não houve prevaricação por parte do Tenente João Bezerra, como justificar suas próprias palavras quando, em seu livro, ele disse que o coiteiro Pedro de Candido, quando pressionado por ele, chegou a “desdenhar de sua pressão, tendo ainda respondido com ironia”. Bem, vemos em vários depoimentos, inclusive gravados pelo pesquisador Aderbal Nogueira, que na grande maioria, os sertanejos temiam mais as agressões da volante que a cangaceira. Seria Pedro de Candido um sertanejo que não conhecia o medo, não temendo nem mesmo uma força policial que lhe interrogava em plena madrugada? Ou Pedro confiara no fato de saber que, diante dele, estava também um homem que tinha uma relação estreita com Lampião?

Volante do Tenente Bezerra por ocasião do Angico
 
Voltando mais um pouco no tempo, vamos encontrar um depoimento dado pelo próprio Bezerra ao jornalista Melchiades da Rocha. Ele disse: “digo-lhe que, tendo notícia, por parte de um amigo da caatinga, intitulado “coiteiro”, de que Lampião e diversos cabras se achavam na fazenda Angico, para ali me dirigi, (...)”( pg.28). Seria este amigo e também coiteiro de Lampião, Pedro de Candido? Bem, neste momento, Bezerra estava sendo pressionado pelo Estado, na figura do Comandante Lucena, chegando a hora de tomar uma importante decisão: continuar amigo e fiel a Lampião ou traí-lo e garantir sua própria cabeça.

Finalmente, chegando às margens do Rio São Francisco, na madrugada de quinta-feira, 28 de julho de 1938, deu-se início ao capítulo mais questionado do cangaço. Segundo Bezerra, “cheguei às 5hs da manhã. Chegado que fui, nas proximidades do local onde se achava refugiado o terrível bando, ouvi grande rumor lá de dentro da grota, certifiquei-me que, de fato, era de mais de 50 o grupo de bandidos que ali se encontravam. Ouvi Lampião ralhar com um cabra em voz alta.” Pelo visto, só os cangaceiros encontravam-se surdos, pois se era possível ouvir o que eles conversavam, como explicar o fato de os cangaceiros não perceberem nem ouvirem quase 50 homens se aproximando, sendo que estes estavam embriagados e ainda pararam próximo ao coito para receber ordens do comando? Se Bezerra ouviu a voz de Lampião ralhando com um de seus comandados, porque não seguiu em direção à voz, já que sua ida ali tinha como objetivo acabar com o cangaço? Por que Bezerra foi para outra direção e ainda ordenou que o primeiro tiro deveria ser seu?

Bezerra disse, ainda em seu depoimento a Melchiades da Rocha, que “a resistência dos cangaceiros foi de 15 a 20 minutos, mas não adiantou, porque os colhemos quase de surpresa” (pg.29). “Quase” é um detalhe muito importante, pois “quase de surpresa” deixa uma margem de dúvida bastante relevante. O que significa este quase? Será que a famosa parada perto do coito foi de certa forma uma última chance dada ao amigo cangaceiro? Já se podia ouvir o que diziam os cangaceiros que estavam no coito. Bezerra pode, muito bem, ter deduzido que o mesmo ocorreria em relação aos cangaceiros, ou seja, eles ouviriam a aproximação da polícia e teriam mais chances de sobreviver ao ataque. Isso justificaria os motivos pelos quais Bezerra não foi logo em direção ao coito de Lampião e sim, tomou a direção mais distante. Por fim, Bezerra teria atirado em si mesmo para escapar de possíveis suspeitas acerca de sua relação com Lampião? Seria no mínimo uma cartada final para acabar com qualquer sombra de dúvida por parte de seu comandante.

Kiko Monteiro, Wescley Rodrigues, Juliana Ischiara e Narciso Dias

A única certeza que temos, é que muita coisa se perdeu em razão do descrédito de uns, dos exageros de outros e das mentiras de muitos. Só nos resta continuar pesquisando, estudando e desvendando este imenso quebra-cabeça chamado cangaço que, tão sabiamente, mestre Alcino chama de Labirintos de Angico.

Juliana Ischiara

Referencias:
BASSETTI e MEGALE, José Sabino e Carlos César de Miranda. Lampião: sua morte passada a limpo. 1ª edição, Ed. Nova Consciência. 2011.
COSTA, Alcino Alves. Lampião Alem da Versão: mentiras e mistérios de angico. 3ª edição, Ed.Real. 2011.
ROCHA, Melchiades da. Bandoleiros das Catingas. 1ª edição. Ed Francisco Alves.1942

FERREIRA NETO, Cicinato. A Misteriosa vida de Lampião. 1ª edição. Ed. Premius. 2008
CHANDLER, Billy Jaynes. Lampião o rei dos Cangaceiros. 1ª edição. Ed Paz e Terra. 1980
DANTAS, Sergio Augusto de Souza. Lampião entre a espada e a lei. 1ª edição. Ed.Cartgraf, 2008.

4 comentários:

Anônimo disse...

Cara Juliana, quando vc fala que João Bezerra falava "Ouvi Lampião ralhar com um cabra em voz alta.” Outro fato a se comentar: quer dizer que João Bezerra conhecia muito bem a voz do Rei cego?

Netinho

Anônimo disse...

Amigo Netinho, todas as volantes travaram combates com Lampião, sabemos que tinham o habito de brigar gritando e se identificando, daí termos condições de concluir que possivelmente o Ten Bezerra pudesse identificar a voz do Lampião naquela madrugada.

saudações

Juvenal Nunes Freire
João Pessoa

NETO disse...

Cara Juliana.
Sou um iniciante no tema Cangaço. Atualmente estou pesquisando em livros e sites como estes à respeito do cangaço e em especial o de Lampião. Pelo pouco que conheço, Lampião foi um grande estratergista em suas atuações na caatinga e, possuia uma grande rede de coiteiros no nordeste. Como é que um homem que sobreviveu tanto tempo lutando com as volantes, iria deixar-se se pegar de surpres? Não conheço o local da morte de Lampião, Maria Bonita e os outros. Mas já assitir várias intrevistas de algumas pessoas que fazem parte da área militar, e ao visitar o local, sai de lá com muita dúvida à respeito da morte do rei do Cangaço naquele local. E estes questionamento que foram colocados no testo, é alguns de muitos deles. Acredito que os sobreviventes distorceram muitas informações para esconder algumas verdades do acontecimento. Será que ainda ha possibilidades de chegar aos verdadeiros fatos que ocorreram naquele dia?

Att,
Neto - Natal/RN

Juliana Ischiara disse...

Caro Netinho, como vês, tudo que se refere a angico está em volto em um grande mistério. Obrigada por sua observação.

Caro Juvenal, realmente as facções se identificavam por ocasião das pelejas, porém, não é o caso de Bezerra, posto que em combate não esteve com Lampião o suficiente para memorizar sua voz, mas não descarto esta possibilidade, embora ache-a difícil de tal fato ter ocorrido.

Caro Neto, como falei por ocasião do artigo, a resposta a sua primeira pergunta foi, excesso de confiança, posto que, um vez que Lampião mantinha negócios lucrativos com coiteiros e possivelmente com Bezerra, pois se Lampião tinha a perder, imagine seus comparsas. Quanto ao seu segundo questionamento, bem, muitos tinham medo de falar sobre o que de fato aconteceu, pois veja, se Lampião foi traído e morto, imagine os sobreviventes que não mais podiam contar com a proteção de seu lider, no caso, Lampião. Não sei se um dia chegaremos aos fatos verdadeiros, por isso, só nos restam congecturas racionais, sem os devaneios costumeiros.

Abraço

Juliana Ischiara