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Isaias Arruda e a Iluminação de Missão Velha Por Bosco André

Bosco André para a Laser Vídeo


Sem dúvidas um dos personagens mais marcantes do ciclo dos coronéis, de nosso Cariri foi Isaias Arruda, o aurorense que se tornou a "custa de bala", prefeito de Missão Velha. São muitos os episódios em que o coronel Izaias Arruda, mostra sua forte personalidade e poder. Dias passados trouxemos uma entrevista do amigo Zé Cícero, sobre a emboscada e posterior morte de Isaias na Estação da RVC em Aurora; para variar um pouco de sua propalada ligação com Virgulino, trazemos um pequenino trecho; de menos de 1 minuto; de uma outra entrevista,  concedida pelo confrade Bosco André ao companheiro Aderbal, onde nos é contado como foram colocados os postes de eletrificação de Missão Velha, ao final dos anos 20 do século passado.

Manoel Severo
Imagens de documentário da Laser Vídeo 
de Aderbal Nogueira

A Morte de Isaias, Por: Jose Cícero a Laser Vídeo



No mais novo trabalho da Laser Vídeo, do confrade Aderbal Nogueira; "O último apito"; que nos traz a história da derrocada da estrada de ferro no estado do Ceará, vamos encontrar verdadeiras preciosidades, entre essas temos o depoimento do pesquisador e poeta, Conselheiro Cariri Cangaço, José Cícero, sobre a emboscada pelos irmãos Paulino ao coronel Isaias Arruda, na Estação da RVC, em Aurora, no ano de 1928. Ali Isaias é surpreendido ao desembarcar do vagão e recebe balaços, apesar de socorrido por populares, viria a perder a vida dias depois. 


Já as fotografias nos trazem uma de nossas visitas a Aurora, quando ao lado de José Cícero e dos pesquisadores, Bosco André e Sousa Neto, tivemos a oportunidade de rever o cenário marcante da última cena da vida do polêmico e controverso coronel Isaias Arruda. Vale a pena conferir.

Manoel Severo

Izaias Arruda e o Incendio da Ponte Parte I Por:José Cícero

 Mesa de abertura do Cariri Cangaço em Aurora no ano de 2011

Há anos que esta história me intrigava. Algo que nunca saíra de vez da minha cabeça. Tanto que, depois de várias investidas em vão para saber o local exato onde o incêndio ocorreu – por sorte, alguns meses atrás terminei encontrando o que procurava, isto é – a ponte do Olho d’água localizada entre o povoado de Quimami (Missão Velha) e Ingazeiras (Aurora).
 
Quando já me dirigia para a ponte do Jenipapeiro nos rumos do riacho dos Porcos nas proximidades de Ingazeiras, distrito de Aurora tive a sorte de parar numa bucólica residência de um agricultor. Um senhor de aproximadamente 80 anos. Cordato e hospitaleiro. Após falar-lhe do que eu estava procurando, ele de súbito, disse saber de toda a história contada-lhe um dia pelo seu genitor já falecido. E mais, que eu estava errado quanto a localização. A tal ponte não era a do jenipapeiro e sim, uma outra situada um pouco mais a frente a uma légua e meia dali. A ponte do incêndio ficava na localidade rural de Olho d’água. Aquela dica para mim foi muito mais que uma surpresa agradável. Foi um lenitivo. E assim, seguimos(eu e a minha equipe). De moto, ficou mais fácil vencermos as léguas tiranas das estradas empoeiradas. Chegamos finalmente ao local procurado. A ponte era magnífica. Exaustos mas recompensados por mais uma constatação histórica.
 
No ano passado, havia ido a Missão Velha e tendo inclusive conversado com o pesquisador Bosco Andréa acerca deste fato. Tudo estava, ainda como agora um tanto quanto nebuloso. Um mistério. De lá fui até a ponte/pontilhão das Emboscadas. Por sinal uma bela obra de arquitetura. Confiante de que havia sido ali o ambiente onde tudo ocorreu. Só em seguida é que fiquei sabendo que também não era lá. De novo estava eu desolado. E agora, diante do local exato pude constatar que se trata mesmo de uma bela ponte metálica de engenharia arrojada para os padrões da época. Logo que chegamos pude notar que bem ao lado, havia um canteiro de obras com vistas à construção da ferrovia denominada Transnordestina - obra do governo federal ainda da era Lula. Uma nova ponte estaria sendo projetada. E que será construída paralela a esta da Reffesa. Torço para que, com a suposta desativação da antiga linha, que pelo menos a histórica ponte onde todo o fato ocorreu venha a ser preservada. Posto ser ela, um patrimônio arquitetônico e histórico não somente de Aurora e Missão Velha, mas de todo o Cariri.

 
A Pesquisa de campo

Vasculhamos todo o matagal em seu entorno, assim como o leito do rio, quando pude, para minha alegria descobrir algumas peças antigas de ferro retorcido que estavam enterradas na lama, assim como cobertas pelo mato(ver foto). Tudo o que aquele senhor nos informou estava ali diante dos nossos olhos. Era a história viva e pulsante de um tempo ido, como que desafiando o olhar dos contemporâneos. O rio estava belo, mesmo que rasgado e maltratado pelas máquinas que estavam a construir a nova ferrovia. Vi muita destruição em boa parte do percurso. Uma verdadeira agressão ao rico e ao bioma da nossa caatinga como um todo. Tudo em nome de um progresso devorador que parece puder tudo. Até mesmo devastar e destruir os nossos ecossistemas e a nossa própria história.
 
Era gozado a forma como os operários da Transnordestina nos olhavam. Talvez, por não compreender o nosso propósito de pesquisa. Ficavam curiosos. Vendo-me com a minha equipe a fotografar tudo, a esquadrilhar o ambiente em suas minúcias; como a procurar algo no vazio. Descobrimos peças de metais enterradas na areia do rio. Checamos restos de antigos dormentes. Buscando assim qualquer vestígio possível daquele remoto acontecimento, passado a mais de 80 anos. Era possível ver os sinais de fogo nos pilares da velha ponte. Tudo ali parecia está realmente carregado de antigas memórias.
 
Eu olhava para aquela ponte e imaginava o velho coronel Izaías Arruda e Zé Gonçalves com todo o seu bando de jagunço em suas infindáveis estripulias. Lampião e seus comandados... Além dos grandes potentados e outras autoridades que um dia passaram por ali. Por fim, saber que por sobre aquela ponte do Salgado passou boa parte do antigo progresso do Cariri foi para mim uma sensação das mais indescritíveis. Um misto de saudade, alegria e curiosidade.

Continua...

José Cícero
http://blogdaaurorajc.blogspot.com/

Nos Porões de Izaias Arruda Por:Bosco André

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Meu caro amigo Severo e companheiros de Cariri Cangaço, há uns tres meses recebemos aqui em Missão Velha a equipe de filmagem da mini-série "Sedição de Juazeiro". na oportunidade passamos alguns dias acompanhando a competente equipe que tem entre seus produtores o grande pesquisador e documentarista do cangaço Aderbal Nogueira.

Entre uma gravação e outra acabamos fazendo uma nova visita a Casa de Izaías Arruda, bem no centro de Missão Velha. naquela ocasião Aderbal com a competência que lhe é peculiar realizou o registro histórico de um dos lugares mais inusitados da edificação: Os famosos porões da casa de Izaias. Certamente todos os amigos se deleitaram com a matéria que Aderbal enviou para este mesmo blog do Cariri Cangaço, quem desejar ver novamente é só procurar no índice lateral e conferir.

Grupo de Izaias Arruda, o segundo à esquerda Zé Gonçalves

Pois bem, após a maravilhosa postagem de Aderbal , aqui em Missão Velha já começaram a aparecer  histórias e personagens que passaram ou fizeram parte da história dos famosos porões de Izaias. Hoje trago um episódio verídico e que por questões éticas não poderia declinar nomes. Mas vamos aos fatos.

Pelos idos de 1940 quando ainda existiam e eram respeitadas as chamadas "mangas de solta de gado" em cima da Serra do Araripe, que eram respeitadas desde remotas datas, ainda em épocas do cel. Franscisco Mascarenhas de Quental; época em que quem tinha alguma propriedade ao sopé da serra, era o detentor supremo de suas frentes até o limite de seu município. Então um determinado senhor de terras, abastardo , rico e poderoso, cercou as frentes dos sitios Bodó, Varzinha e Santa Rosa, então propriedades do senhor José Gonçalves de Lucena, outrora lugar tenente de Izaias Arruda; que de imediato preparou a desforra.

Zé Gonçalves Lucena

Enviou um compadre de sua inteira confiança, sr. Zé Ruberto, até o município de Jardim e ali foram arregimentados cerca de 80 homens para a destruição da referida cerca e consequente queima da madeira da  mesma, assim foram compradas 3 caixas de machado para a empreita da desforra, que deveria acontecer altas horas da madrugada e ao amanhecer do dia tudo estava consumado.

Os próximos passos ao fim do episódio foi uma representação judicial do rico proprietário contra Zé Gonçalves Lucena e seus homens, e dentre esses os principais cabeças, entre eles, o meu "entrevistado", que acabou sendo usado como uma espécie de bode expiatório, na época, pasmem, com apenas 12 anos de idade, mas escolhido como isca para pegar os "peixes graúdos". Fato consumado  o garoto de 12 anos foi tocaiado em uma vereda que levada à sua casa pelo inspetor de quarteirão , Manoel Fidelis e mais 10 homens. O menino matreiro e vivido, apesar da tenra idade, ao ser conduzido a delegacia, disse que precisava pelo menos avisar a sua mãe. Assim foi feito, levado à presença da mãe no sítio Bodó, quando abriram a porta o menino foi impedido de entrar em casa, deu um salto para dentro e acabou derrubando o delegado, no que sua mãe trancou a porta e ameaçou aos homens do delegado para que entrassem para vir tirar o menino de sua casa.

Bosco André

Ato contínuo chega o pai do garoto, também homem de confiança de Zé Gonçalves e o inspetor e seus homens se retiram da propriedade. O resultado desse episódio todo foi que o referido garoto, meu "entrevistado" e seu pai precisaram passar mais de 15 dias escondidos da polícia e da justiça, adivinhem onde? Pois é, dentro dos famosos Porões de Izaias Arruda, na época já pertencentes a José Gonçalves. Abração a todos e em setembro todos vamos fazer uma nova visita aos Porões durante o Cariri Cangaço.

Bosco André
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A Traição de Izaias Arruda Por:José Cícero

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Pesquisador José Cícero, anfitrião na Fazenda Ipueiras, de Zé Cardoso e Izaias Arruda, durante o Cariri Cangaço 2010.

A história do cangaço nordestino nem sempre foi possível a construção duradoura de amizades consideradas sólidas. Amigo era quase sempre um artigo que tinha vida efêmera. Não eram amigos apenas cúmplices. Um evidente jogo de interesse que transcorria ao sabor dos acontecimentos. Era um eterno andar sob areia movediça. A lógica dos fatos nos apontava isso. Na vida do cangaço, tantos foram os exemplos desta assertiva. Mas um em particular roubou a cena, de sorte que continua até hoje mexendo com a imaginação e opiniões de pesquisadores, analistas e historiadores da saga lampiônica após o retorno de Mossoró.

A começar pela forma como terminou a relação de amizade que(supostamente) existiu entre o rei do cangaço e o Cel. Izaias Arruda – um dos maiores coiteiros que Lampião mantinha a peso de ouro nestas bandas dos sertões do Caririenses. Sim. Nada era de graça quando o que estava em jogo eram os negócios lucrativos do cangaço, guiado no mais das vezes pela teoria macabra do roubo e da pilhagem. O que de fato, corrobora esta lida criminosa como uma opção clara de meio de vida. Um expediente praticado não mais pelos degredados da sorte, mas, sobretudo pelos potentados, políticos e arrogantes coronéis.

Izaias Arruda

Tanto que em Aurora, Lampião se sentia como que em casa. Com um ingrediente a mais: aqui ele se sentia seguro e em plena mordomia, em face dos verdadeiros banquetes que lhe eram oferecidos pelos poderosos do lugar e das redondezas. E não se diga que era apenas da parte do famoso coronel. Isso não. As regalias assim como os presentes dispensados aos bandoleiros iam muito além dos préstimos oferecidos pelo temível e famoso Izaias Arruda(ex-delegado de Aurora e prefeito pelas balas, de Missão Velha).

Nas terras aurorenses, Lampião parecia muito mais querido que odiado. Não se sabe se por temor ou pura admiração dos seus feitos cantados e decantados pelo Nordeste adentro. O certo é que em Aurora e circunvizinhança Virgulino promoveu seguidores muito mais que desafetos. Ao passo que verdadeiros bandos nasceram e atuaram anos a fio por estas ribanceiras seguindo a risca os preceitos do renomado cangaceiro. Inclusive de jagunços terríveis e sanguinolentos. Profissionais do crime, organizados como verdadeiras milícias particulares a serviço dos velhos coronéis do latifúndio.

Grupo de Jagunços de Izaias Arruda, em foto de 1926 na Ingazeira

Basta dizer que do subgrupo de Massilon Leite muitos eram naturais d’Aurora principalmente da região do riacho das Antas, tais como: Zé de Lúcio( o Três Pancadas), José de Roque e Zé Côco, só para citar alguns. Além de Asa Branca, natural da Ipueiras, um dos mais jovens a ingressar no bando de Lampião. Sua pontaria impressionou sobremaneira o rei do cangaço. Um outro grupo muito mais presente tivera a participação de outros bandoleiros autóctones, uns profissionais outros sazonais de Missão Velha, Aurora e lugares adjacentes que vez por outra, resolviam fazer bico. Tal grupo pertencia ao coronel Izaías sob o comando direto do seu braço direito e confiável Zé Gonçalves.
Mesmo com sua reconhecida personalidade de homem desconfiado, como era sua praxe, Lampião nunca esperaria uma traição que viesse dos seus amigos das Auroras. Enganara-se redondamente. O tempo não tardaria a lhe provar o contrário em três grandes momentos distintos da sua empreitada nas paragens salgadianas. Tudo envolvido em conjunto na estratégia traçada na fazenda Ipueiras com vista a invasão de Mossoró, o ataque da volante sofrido no sítio Ribeiro( riacho do Bordão de Velhos dia 2 de julho) e por fim, o suculento banquete(envenenado) a cargo do vaqueiro Miguel Saraiva( da serra do Diamante e Coxá) oferecido na casa grande da fazenda-vivenda pertencente a José Cardoso, parente do famoso coronel Izaiais Arruda que terminaria com um cerco policial e o ato incendiário ao bando. Neste episodio marcante ocorrido em 7 de julho de 1927 próximo do meio-dia, cumpre destacar que em cima da hora, Lampião a 500 metros da residência, decidiu que o almoço fosse servido não mais na casa grande, mas ali mesmo, no baixio sob as sombras das Oiticicas e Joazeiros. Uma decisão providencial e salvadora.

 Volante perseguidora de Lampião no Sítio Ribeiro d'Aurora em 1927

Esta mudança obrigou o major Moisés de Figueiredo com seus quase 80 homens ajudado pelos jagunços do coronel a precipitar o plano de ataque. Empiquetados que estavam em redor da residência. Puseram fogo na manga... Lampião com sua perspicácia saíra quase incólume de mais esta. Não totalmente ileso, mas salvara a sua vida e dos seus próprios apaniguados. Teve pouquíssimas baixas. Uma saída possível do cerco da Ipueiras onde tombaram o cangaceiro Xexéu e Catita após quase quatro horas de fogo cruzados. A chuva de bala não foi nada, comparada ao incêndio do canavial e do algodoal seco que fez daquele ambiente, um verdadeiro inferno de chamas. Por sorte a direção do vento soprou o fogo para o lado dos comandados do major. E Lampião com seu bando escaparam aos gritos de despautérios pela parede do açude velho.

Foi o preço mínimo que pagara para não sofrer uma derrota ainda mais completa e humilhante. A fome, a sede, o cansaço, a falta de munição e o verdadeiro desmantelamento das suas armas de fogo. Tudo isso somado redundou no enfraquecimento e quase fim do bando lampiônico naquele momento singular da histórica marcha de Lampião depois do malogro de Massoró. Seu know-how de homem estrategista ajudara a escapar de todas as armadilhas e confrontos, contra as volantes dos governos de três estados. Porém aquela refrega o abatera sensivelmente, somada a desproporção do número de combatentes que fora obrigado a enfrentar anteriormente. Chegando em alguns momentos na razão de 40 por 1 em seu desfavor.
Lampião não estava preparado para a derrota. Neste sentido tanto Mossoró quanto Aurora comprometeram para sempre a antes sólida confiança no homem forte de corpo fechado, assim como os inquebrantáveis princípios da velha ousadia dos que fizeram do cangaço uma opção para toda a vida.

José Cícero
Pesquisador - Aurora
Fonte:http://blogdaaurorajc.blogspot.com
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