A Traição de Izaias Arruda Por:José Cícero

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Pesquisador José Cícero, anfitrião na Fazenda Ipueiras, de Zé Cardoso e Izaias Arruda, durante o Cariri Cangaço 2010.

A história do cangaço nordestino nem sempre foi possível a construção duradoura de amizades consideradas sólidas. Amigo era quase sempre um artigo que tinha vida efêmera. Não eram amigos apenas cúmplices. Um evidente jogo de interesse que transcorria ao sabor dos acontecimentos. Era um eterno andar sob areia movediça. A lógica dos fatos nos apontava isso. Na vida do cangaço, tantos foram os exemplos desta assertiva. Mas um em particular roubou a cena, de sorte que continua até hoje mexendo com a imaginação e opiniões de pesquisadores, analistas e historiadores da saga lampiônica após o retorno de Mossoró.

A começar pela forma como terminou a relação de amizade que(supostamente) existiu entre o rei do cangaço e o Cel. Izaias Arruda – um dos maiores coiteiros que Lampião mantinha a peso de ouro nestas bandas dos sertões do Caririenses. Sim. Nada era de graça quando o que estava em jogo eram os negócios lucrativos do cangaço, guiado no mais das vezes pela teoria macabra do roubo e da pilhagem. O que de fato, corrobora esta lida criminosa como uma opção clara de meio de vida. Um expediente praticado não mais pelos degredados da sorte, mas, sobretudo pelos potentados, políticos e arrogantes coronéis.

Izaias Arruda

Tanto que em Aurora, Lampião se sentia como que em casa. Com um ingrediente a mais: aqui ele se sentia seguro e em plena mordomia, em face dos verdadeiros banquetes que lhe eram oferecidos pelos poderosos do lugar e das redondezas. E não se diga que era apenas da parte do famoso coronel. Isso não. As regalias assim como os presentes dispensados aos bandoleiros iam muito além dos préstimos oferecidos pelo temível e famoso Izaias Arruda(ex-delegado de Aurora e prefeito pelas balas, de Missão Velha).

Nas terras aurorenses, Lampião parecia muito mais querido que odiado. Não se sabe se por temor ou pura admiração dos seus feitos cantados e decantados pelo Nordeste adentro. O certo é que em Aurora e circunvizinhança Virgulino promoveu seguidores muito mais que desafetos. Ao passo que verdadeiros bandos nasceram e atuaram anos a fio por estas ribanceiras seguindo a risca os preceitos do renomado cangaceiro. Inclusive de jagunços terríveis e sanguinolentos. Profissionais do crime, organizados como verdadeiras milícias particulares a serviço dos velhos coronéis do latifúndio.

Grupo de Jagunços de Izaias Arruda, em foto de 1926 na Ingazeira

Basta dizer que do subgrupo de Massilon Leite muitos eram naturais d’Aurora principalmente da região do riacho das Antas, tais como: Zé de Lúcio( o Três Pancadas), José de Roque e Zé Côco, só para citar alguns. Além de Asa Branca, natural da Ipueiras, um dos mais jovens a ingressar no bando de Lampião. Sua pontaria impressionou sobremaneira o rei do cangaço. Um outro grupo muito mais presente tivera a participação de outros bandoleiros autóctones, uns profissionais outros sazonais de Missão Velha, Aurora e lugares adjacentes que vez por outra, resolviam fazer bico. Tal grupo pertencia ao coronel Izaías sob o comando direto do seu braço direito e confiável Zé Gonçalves.
Mesmo com sua reconhecida personalidade de homem desconfiado, como era sua praxe, Lampião nunca esperaria uma traição que viesse dos seus amigos das Auroras. Enganara-se redondamente. O tempo não tardaria a lhe provar o contrário em três grandes momentos distintos da sua empreitada nas paragens salgadianas. Tudo envolvido em conjunto na estratégia traçada na fazenda Ipueiras com vista a invasão de Mossoró, o ataque da volante sofrido no sítio Ribeiro( riacho do Bordão de Velhos dia 2 de julho) e por fim, o suculento banquete(envenenado) a cargo do vaqueiro Miguel Saraiva( da serra do Diamante e Coxá) oferecido na casa grande da fazenda-vivenda pertencente a José Cardoso, parente do famoso coronel Izaiais Arruda que terminaria com um cerco policial e o ato incendiário ao bando. Neste episodio marcante ocorrido em 7 de julho de 1927 próximo do meio-dia, cumpre destacar que em cima da hora, Lampião a 500 metros da residência, decidiu que o almoço fosse servido não mais na casa grande, mas ali mesmo, no baixio sob as sombras das Oiticicas e Joazeiros. Uma decisão providencial e salvadora.

 Volante perseguidora de Lampião no Sítio Ribeiro d'Aurora em 1927

Esta mudança obrigou o major Moisés de Figueiredo com seus quase 80 homens ajudado pelos jagunços do coronel a precipitar o plano de ataque. Empiquetados que estavam em redor da residência. Puseram fogo na manga... Lampião com sua perspicácia saíra quase incólume de mais esta. Não totalmente ileso, mas salvara a sua vida e dos seus próprios apaniguados. Teve pouquíssimas baixas. Uma saída possível do cerco da Ipueiras onde tombaram o cangaceiro Xexéu e Catita após quase quatro horas de fogo cruzados. A chuva de bala não foi nada, comparada ao incêndio do canavial e do algodoal seco que fez daquele ambiente, um verdadeiro inferno de chamas. Por sorte a direção do vento soprou o fogo para o lado dos comandados do major. E Lampião com seu bando escaparam aos gritos de despautérios pela parede do açude velho.

Foi o preço mínimo que pagara para não sofrer uma derrota ainda mais completa e humilhante. A fome, a sede, o cansaço, a falta de munição e o verdadeiro desmantelamento das suas armas de fogo. Tudo isso somado redundou no enfraquecimento e quase fim do bando lampiônico naquele momento singular da histórica marcha de Lampião depois do malogro de Massoró. Seu know-how de homem estrategista ajudara a escapar de todas as armadilhas e confrontos, contra as volantes dos governos de três estados. Porém aquela refrega o abatera sensivelmente, somada a desproporção do número de combatentes que fora obrigado a enfrentar anteriormente. Chegando em alguns momentos na razão de 40 por 1 em seu desfavor.
Lampião não estava preparado para a derrota. Neste sentido tanto Mossoró quanto Aurora comprometeram para sempre a antes sólida confiança no homem forte de corpo fechado, assim como os inquebrantáveis princípios da velha ousadia dos que fizeram do cangaço uma opção para toda a vida.

José Cícero
Pesquisador - Aurora
Fonte:http://blogdaaurorajc.blogspot.com
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11 comentários:

José Mendes Pereira disse...

Escritor José Cícero:

Este é mais um dos seus maravilhosos trabalhos.

Que sorte hein de Lampião!
E que covardia destes homens que se diziam ser amigo do bandoleiro.
Lógico que Lampião não era merecedor de elogios e recepções, mas muitas vezes vingava o que aprontavam para ele.

José Mendes Pereira – Mossoró-RN.

Anônimo disse...

MUITO BOM MEU CARO ZÉ CICERO, O SEU TRABALHO SOBRE A TRAIÇÃO DO CEL. IZAIAS À LAMPIÃO. PARABÉNS, DO CONFRADE, CONTERRÂNEO E ADMIRADOR: BOSCO ANDRÉ.

Ulisses Germano disse...

E vero, nobre Severo, você que ajuda a costurar a colcha de retalhos do cangaço brasileiro, deixo em versos o começo de um cordel-fictítcio em construção...Abraço Ulisses Germano

Lampião, Dadá e Corisco
Sairam pra passear
Dadá com seu jeito arisco
Mandou Lampião se calar:
-Não traia Maria Bonita
Pois o seu laço de fita
Pode um dia lhe enforcar!

Ulisses Germano disse...

Ulisses Germano

Nobre Severo,é vero, você que ajuda a construir a colcha de retalhos da história do cangaço brasileiro deixo aqui, em versos, um cordel em construção


Lampião, Dadá e Corisco
Saíram pra passear
Dadá com seu jeito arisco
Mandou Lampião se calar:
-Não traia Maria Bonita
Pois o seu laço de fita
Pode um dia lhe enforcar!

Anônimo disse...

SENSACIONAL PROFESSOR JOSÉ CICERO, AGORA GOSTARIA DE SABER O QUE REALMENTE HAVIA ENTRE O IZAIAS ARRUDA E O MAJOR MOISES, O QUE HAVIA POR BAIXO DOS PANOS, SERIA O CASO DE ALCIN O COSTA PROVOCAR: MISTERIOS E MISTERIOS DAS IPUEIRAS DE IZAIAS ARRUDA....

MOISES E IZAIAS??????O QUE HAVIA POR TRAS DO CERCO E DE TEREM MANDADO AS TROPAS DAS PB, PE E RN EMBORA??????

SDS

DIVINA COMEDIA

CARIRI CANGAÇO disse...

Amigo Ulisses o que dizer diante de tanto talento ? Valeu amigo.

Caros; Zé Mendes e Bosco André, esse Zé Cícero não é fácil, sempre preciso e trazendo informações fantasticas.

Senhor ou senhora: Divina Comédia. gostei da provocação, agora deixo nas mãos dos especialistas: Zé Cícero, Bosco André, Honório, enfim...

Abraços,

Manoel Severo

ENGENHEIRO GMARLON disse...

Muito boa a provocação, o que se sabe é que o Moises praticamente "expulsou" as volantes do PE, Pb e RN a troco de que???? O que estava relamente acontecendo???

saudações senhores cangaceiros!!!

MARLON

Helio disse...

Severo permita meter minha colher neste angú. É sabido que houve alguma tramóia ali por parte do Major Moisés e o Cel Izaias Arruda; vamos às perguntas que desejo que o amigo Zé Cícero ou Bosco André possam nos auxiliar:

1. Como justificar abrir mão do apoio de volantes tarimbadas como as de Pernambuco e Paraíba naquele momento da fuga quando Lampião estava praticamente aniquilado? Seria para ficar com louros sozinhos?

2. O que teve de interferência do governo do Ceará para que Izaias mudasse de lado?

3. Houve mesmo o cerco? o cerco foi real ou armação?

4. Quem avisou a Lampião que o alimento estava envenenenado, foi realmente Zé Gonçalves, homem de confiança de Izaias? O que estava por tras?

5. Se Zé Gonçalves avisou Lampião, como ele ficou diante do chefe, Izaias Arruda?

Perguntas que não querem calar, como diz o Alcino Alves Costa, de Poço Redondo: Mentiras e Mistérios.

Abraços e perdão pelo longo comentário.

Professor Mario Helio.

NETO disse...

Muito bom o trabalho, agora gostaria de saber o porquê da traição de Isais a Lampião ? O que o Isais iria ganhar com isso? Que havia por tras do cerco e de terem mandado as tropas das PB, PE, E RN embora???

CARIRI CANGAÇO disse...

Grande Mario Helio, espero que tuas perguntas possam ser respondidas e peço aos amigos que foram citados, principalmente o Zé Cícero, o estimado amigo Bosco André e o grande pesquisador Honório de Medeiros, que se dedicaram a fundo no assunto, parabens pelas indagações.

Certa vez o amigo Bosco me assegurou que foi Zé Gonçalves, que disse diretamente a ele, que havia sido o próprio que avisara Lampião do envenenamento.

É com vocês!!!! rsrsrsrsrs.

Amigo Marlon, seja bem vindo, estávamos sentindo sua falta. Grande Neto, acho que logo logo vamos responder suas perguntas.

Abração.

Manoel Severo

Anônimo disse...

CARO DR. SEVERO E DRA. DANIELE, QUERO DE MODO PENHORADO AGRADECER A VOCÊS, A AGRADÁVEL VISITA A MINHA CASA HOJE E PASSO A RESPONDER A PERGUNTA SOBRE A ATITUDE DE ZÉ GONÇALVES EM IR AVISAR A LAMPIÃO SOBRE O ENVENENAMENTO PERPETRADO PELO CEL. IZAIAS ARRUDA. SEGUNDO O PRÓPRIO ZÉ GONÇALVES, ME DISSE, QUE NÃO ADMITIA DESLEALDADE, POIS A POUCOS DIAS IZAIAS TINHA RECEBIDO TODA AQUELA DINHEIRAMA DE LAMPIÃO (SESSENTA CONTOS DE RÉIS, O MAJOR MOISÉS, DIZ QUE FOI TRINTA E CINCO CONTOS, MAIS FICO COM O TESTEMUNHO DE ZÉ GONÇALVES - A PRIMEIRA CIFRA) E ANTES DE COMPLETAR UM MÊS, JÁ ESTAVA AO LADO DOS SEUS DESAFETOS, ENTÃO DEIXOU ISSO CLARO AO PRÓPRIO IZAIAS ARRUDA E A PARTIR DALI ROMPEU COM O SEU ANTIGO CHEFE E EM RECOMPENSA DE LAMPIÃO, COMO JÁ FICOU DITO EM OUTRA OPORTUNIDADE, RECEBEU O SEU PRIMO LEGÍTIMO O CANGACEIRO FERRUGEM, QUE SE ENCONTRAVA DOENTE E QUE MORRERA ANOS DEPOIS EM PODER DE ZÉ GONÇALVES E A PARTIR DALI PASSOU A EXERCER A PROFISSÃO DE PEDREIRO. EMPREITOU COM O VIGÁRIO HORÁCIO TEIXEIRA E CONSTRUIU O CEMITÉRIO PAROQUIAL DE MISSÃO VELHA, AINDA HOJE EXISTENTE. QUANTO AO MAJOR MOISÉS FIGUEIREDO, EM TER DISPENSADO AS FORÇAS POLICIAIS A SUA DISPOSIÇÃO, DEIXO PARA AS CONSIDERAÇÕES DO COMPETENTE CONFRADE E CONTERRÂNEO PROFESSOR JOSÉ CICERO.