Noite de Articulações e Visitas Marcam o Primeiro dia de Planejamento para o Cariri Cangaço Serra Talhada 2022

Luiz Ferraz Filho e Manoel Severo

A caravana Caravana Cariri Cangaço chegou no final da tarde da terça-feira, 14 de dezembro de 2021 à cidade pernambucana de Serra Talhada; uma das sedes do evento neste ano de 2022. Na própria noite uma agenda intensa de articulações deu inicio ao conjunto de planejamentos para a construção do aguardado Cariri Cangaço 2022.

"A partir de hoje já iniciaremos as tratativas referentes ao planejamento deste grande evento. Sem dúvidas é uma grande honra para o Cariri Cangaço chegar a Serra Talhada. Hoje mesmo já teremos a primeira reunião com o Presidente da Comissão Organizadora, pesquisador Luiz Ferraz Filho, quando definiremos pontos primordiais como por exemplo a data do evento, a quantidade de dias e as linhas principais de sua realização, como temas, programação e visitas técnicas, além de toda a infraestrutura necessária, como sugestão de hospedagens, alimentação e a questão logística", reforça Manoel Severo, curador do Cariri Cangaço.

Caravana Cariri Cangaço visita Serra Talhada: Luís Farias, Erivaldo Oliveira, 
Richard Pereira, Zenon e Joaquim Pereira, Otávio Cardoso
Marco Zero de Serra Talhada

Luiz Ferraz Filho, Presidente da Comissão Organizadora confirma:"Ja começamos a trabalhar muito antes da chegada de Manoel Severo e da Caravana Cariri Cangaço, estamos dedicados a um planejamento responsável que preze acima de tudo um evento que seja maravilhoso para todos que nos visitam como também para nossos munícipes, hoje mesmo já começamos a definir com o Severo e os Conselheiros do Cariri Cangaço, presentes; a data, esboço de programação, os parceiros, infraestrutura, equipe de trabalho, enfim."

Por volta de 19h30 a Comissão Organizadora reuniu vários pesquisadores e colaboradores que faziam parte da comitiva para uma visita à Praça Sérgio Magalhães, centro da cidade de Serra Talhada, como também a vários prédios que compõem o patrimônio arquitetônico e histórico da cidade. 

Luiz Ferraz, Zenon Pereira, Junior Almeida, Moustafa Veras, Richard Pereira, Valdir Nogueira, Otavio Cardoso e Professor Alberto
Casa de Luiz de Lorena
Igrejinha do Rosário, construída em 1790

A Caravana Cariri Cangaço seguiu por um conjunto de visitas pelo casario histórico e pelos principais patrimônios arquitetônicos de Serra Talhada, segue-se a visita a um dos cinco prédios mais antigos de Serra Talhada e uma das igrejas mais antigas de Pernambuco; a igreja matriz de Nossa Senhora do Rosário dos Pretos; ainda guardando os  aspectos originais do final do século XVIII, foi construída por mão de obra escrava no ano de 1790; é conhecida como Igrejinha do Rosário e fica na praça onde esta localizado o Marco Zero de Serra Talhada. 

"Teremos a oportunidade durante o Cariri Cangaço de visitar a grandeza e a riqueza deste espetacular patrimônio histórico e arquitetônico de Serra Talhada, recheado de tradição e a força de sua história, hoje passamos pela a igreja Matriz, a igrejinha de Nossa Senhora do Rosário dos Pretos, a Casa de Cultura, o  Museu do Cangaço, as casas de Teophanes Torres, Cornélio Soares, Luiz de Lorena, a sede do telegrafo, os locais das casas que pertenceram aos principais personagens das tradicionais famílias Pereira e Carvalho, enfim; será um Cariri Cangaço inesquecível" reforça Manoel Severo.

Casa onde morou Teophanes Torres
Homenagem a Cornélio Soares
sede dos correios e telégrafos

O Cariri Cangaço Serra Talhada 2022 acontecerá entre os dias 11 e 14 de novembro, com abertura solene na noite da sexta-feira, dia 11 e nos dias seguintes; 12, 13 e 14 uma dinâmica e preciosa agenda de visitas a seus  principais cenários históricos. "Nossa atenção estará voltada para proporcionar a todos os que nos visitam a oportunidade de conhecer esses cenários históricos que se confundem com a própria historiografia do cangaço e do sertão; estaremos visitando os locais de nascimento de Sinhô Pereira e Luiz Padre, toda a região da Ingazeira, onde nasceu Lampião, as fazendas Passagem das Pedras, Pedreira, São Miguel, enfim, sem falar nas emblemáticas propriedades dos clãs, Pereira e Carvalho. Teremos ainda um momento muito especial em Calumbi, cenário do combate da Serra Grande, com o amigo Louro Teles", reforça Luiz Ferraz. 

Helga Diniz, Clênio Novaes, Ana Gleide, Manoel Severo, Betinho Numeriano 
e Ingrid Rebouças
Professor Alberto, Mosutafa Veras, Joaquim Pereira e Otavio Cardoso
Louro Teles, Betinho Numeriano, Manoel Severo e Clênio Novaes
Amélia Araujo, Ingrid Rebouças e Ana Gleide
Valdir Nogueira, Luiz Ferraz Filho e Professor Alberto

Em seguida a caravana seguiu para o Shopping Serra Talhada para mais um momento de discussão e apresentação das muitas possibilidades que o Cariri Cangaço Serra Talhada com certeza proporcionará a seus convidados, ali, novamente reuniu colaboradores que estarão ao lado da Comissão Organizadora construindo o grande evento marcado para os dias 11 a 14 de novembro de 2022.

Luiz Ferraz, Betinho Numeriano, Manoel Severo, Pinheiro e Louro Teles
Keila e Louro Teles
Manoel Severo e Pinheiro, da Fazenda São Miguel
Ingrid Rebouças, Helga Diniz e Valdir Nogueira
Betinho Numeriano, Ana Gleide e Amélia Araújo

CARIRI CANGAÇO SERRA TALHADA 2022
11 a 14 de Novembro de 2022
Serra Talhada - Calumbi
PERNAMBUCO-BRASIL

Redação Cariri Cangaço
Serra Talhada-PE
14 de Dezembro de 2021

Os Maiores Massacres do Cangaço chegam aos Grandes Encontros Cariri Cangaço OPINIÃO

Os Maiores Massacres do Cangaço são retratados neste Grandes Encontros Cariri Cangaço OPINIÃO; num debate eletrizante, Manoel Severo, curador do Cariri Cangaço, recebe os pesquisadores; Tenente Coronel Raimundo Marins, Cristiano Ferraz e Moustafa Veras para um "raio X" sobre o massacre de Corisco na Fazenda Patos, em Alagoas e Lampião em Queimadas na Bahia e na Fazenda Tapera da família Gilo em Pernambuco. O que esses episódios possuem em comum ? qual a relação entre eles? Como tudo aconteceu? Você não pode perder mais este eletrizante programa Cariri Cangaço Grandes Encontros OPINIÃO, gravado AO VIVO nesta quarta; 22 de dezembro de 2021; no Canal do Cariri Cangaço no You Tube.

Serra Talhada Recebe a Primeira Visita do Cariri Cangaço para 2022

Depois de quase dois anos separados fisicamente em função da pandemia do novo corona vírus, a imensa familia Cariri Cangaço de todo o Brasil prepara-se para se encontrar. Serra Talhada será o cenário da primeira reunião de trabalho para a consolidação da Agenda Cariri Cangaço 2022.

Para Manoel Severo, Curador do Cariri Cangaço; "observando todas as recomendações das autoridades sanitárias e governamentais, e zelando pela segurança e saúde de nossos queridos amigos, o Cariri Cangaço tem a grande honra de aportar nesta terça, dia 14 de dezembro de 2021, em uma das cidades mais emblemáticas e tradicionais do querido estado de Pernambuco, a acolhedora Serra Talhada; berço dos dois principais protagonista da saga do cangaço; Sebastião Pereira - Sinhô Pereira e Virgulino Ferreira da Silva - Lampião. Chegamos a Serra Talhada com no mínimo dez anos de atraso, mas chegamos, e isso nos enche de satisfação, alegria e entusiasmo, para essas primeiras reuniões de trabalho, visitas e articulações, para a construção do grande Cariri Cangaço 2022, sob a batuta de Luiz Ferraz Filho".

Para Luiz Ferra Filho; presidente da Comissão Organizadora do Cariri Cangaço Serra Talhada 2022, "a expectativa para recebermos o Cariri Cangaço é enorme, Vamos fazer um evento aqui em Serra Talhada com muita satisfação e entusiasmo. Nossa maior preocupação é recepcionar todos bem e surgir uma nova geração de jovens pesquisadores, escritores e historiadores do tema. Se o Cariri Cangaço de Serra Talhada der frutos com o surgimento de novos livros, novos lugares e maior engajamento de jovens já estaremos satisfeitos."

Sinhô Pereira, sentado e Luiz Padre
Virgulino Ferreira da Silva - Lampião

Serra Talhada, antiga Vila Bela, berço de dois dos principais protagonistas da saga do cangaço; Sinhô Pereira e Virgulino Ferreira da Silva-Lampião, se prepara para receber a agenda do Cariri Cangaço 2022.

Serra Talhada; antiga Vila Bela; fica a 415 km da capital pernambucana, Recife. A cidade é a segunda mais importante do Sertão de Pernambuco e o principal município da Mesorregião do sertão pernambucano, consolidada como cidade polo nas áreas da saúde, educação e comercio, se destaca também como um dos principais destinos turísticos das rotas históricas do cangaço.  A cidade teve seu início em meados do século XVIII, com a chegada do capitão-mor da esquadra portuguesa, Agostinho Nunes de Magalhães, que arrendou a sesmaria à Casa da Torre, às margens do Rio Pajeú e no sopé da Serra Talhada, instalou a fazenda de criar gado, que denominou Fazenda da Serra Talhada, numa alusão direta à serra que lhe emprestava o nome.

Serra Talhada em destaque no mapa do estado de Pernambuco

A posição privilegiada dos currais de Agostinho Nunes, nos caminhos que levavam ao Ceará, Paraíba e Bahia, logo passaram a ser ponto de encontro de vaqueiros e peões que transportavam seu gado para estes estados, e  assim, despretensiosamente começa a formar-se um ajuntamento de feirantes, negociando principalmente animais, dentre outros bens. Isto aconteceu por volta de 1789/1790, na mesma época em que era erigida uma capela para a fazenda sob bênçãos de Nossa Senhora da Penha. Nascia aí também a vocação mercantilista do município. A feira de Serra Talhada hoje tem aproximadamente 220 anos, sendo que desde a primeira vez que aconteceu (segunda-feira), continua até hoje sendo realizada neste mesmo dia da semana.

Com o comércio surgido pelo ajuntamento dos vaqueiros, peões e tropeiros, a fazenda começa a tomar ares de povoado e logo se transforma em Villa Bella, nome adotado quando de sua emancipação de Flores, até então cabeça de comarca, em 6 de Maio de 1851. A partir dessa data passa a ter um intendente, o Coronel da Guarda Nacional Manoel Pereira da Silva Comendador da Ordem da Rosa e de Cristo neto do fidalgo da Casa da Torre José Carlos Rodrigues e sua esposa Ana Joana Pereira da Cunha, fundadores das históricas Fazendas Sabonete, Carnaúba, patriarcas da poderosa Pereira.


Andrelino Pereira da Silva, Barão do Pajeú


Em 1893 é instalada a primeira Câmara Municipal de Serra Talhada e eleito seu primeiro prefeito, Andrelino Pereira da Silva, o Barão do Pajeú. Somente em 1939, por um decreto do então governador Agamenon Magalhães, Villa Bella recebe de volta seu nome de origem e passa a chamar-se Serra Talhada – “Terra de cabras Macho”.

Para o pesquisador e escritor de São José de Belmonte, Valdir Nogueira; conselheiro Cariri Cangaço; "o Cariri Cangaço chega em grande estilo a Serra Talhada. O cuidado com o qual estamos; sob a batuta de Luiz Ferraz Filho; juntamente com destacadas personalidades de Serra Talhada, e o Conselho do Cariri Cangaço construindo esse evento, unido à tradição e a força da cidade, berço das tradicionais famílias Pereira e Carvalho, além de Virgulino Ferreira nos dão a certeza de um evento que marcara época." 

Para o pesquisador e escritor Louro Teles, de Calumbi, conselheiro Cariri Cangaço, "chegamos a Serra Talhada para reverenciar não só a cidade, mas toda a força do Pajeú, que é enorme. O Conselho do Cariri Cangaço estará ao lado do organizadores do evento colaborando no que for possível, sem dúvidas teremos em Serra Talhada uma das maiores edições de nosso Cariri Cangaço.



A agenda de trabalho do Cariri Cangaço Serra Talhada 2022, inicia nesta terça-feira, dia 14 de dezembro de 2021, no final da tarde, quando Manoel Severo, curador do Cariri Cangaço, chega a Serra Talhada e se reúne com Luiz Ferraz Filho e personalidades de Serra Talhada e de outros municípios do Pajeú. Na quarta teremos uma agenda de intensa de visitas técnicas, institucionais e de articulação e a noite teremos a solenidade de Posse da Comissão Organizadora do Cariri Cangaço Serra Talhada.


AGENDA DE TRABALHO

Cariri Cangaço Serra Talhada 2022


Terça-feira (14/12/2021) 

18h -Chegada no Felipe Hotel

19:30h - Visita à Praça Sérgio Magalhães, centro da cidade de Serra Talhada 

20:00h - Encontro com Personalidades da pesquisa e estudo do cangaço no Shopping Serra Talhada 


Quarta-feira (15/12) 

Saída do Felipe Hotel

07:00h - Visita a cidade de Calumbi para encontro com Louro Teles e autoridades locais 

08:00h - Visita de Trabalho à Serra Grande 

09:00h - Visita de Trabalho ao Sítio Passagem das Pedras, Fazenda Pedreira, Fazenda São Miguel, Serra Vermelha, etc. 

12:00h - Entrevista em Radio e TV Local

14:00h - Visita ao Museu do Cangaço e Casa da Cultura. 

15:00h - Visita às localidades da Fazenda Carnaúba, Passagem do Meio, Bom Nome, Pitombeira, Belém e o distrito de Bernardo Vieira. 

19:30h - Encontro com escritores e pesquisadores locais e também autoridades representativas do município de Serra Talhada.

Apresentação do Cariri Cangaço

Posse da Comissão Organizadora do Cariri Cangaço Serra Talhada 2022


Edição: Redação Cariri Cangaço

Imagem: Serra Talhada Views /  

Informações Históricas: Wikipédia

NOTA DE PESAR : Morre Jânio Soares

João de Sousa Lima, Jânio Soares e Manoel Severo

NOTA DE PESAR
É com imenso pesar que o Conselho Alcino Alves Costa, do Cariri Cangaço, em nome de seu Conselheiro João de Sousa Lima, comunica o falecimento na madrugada desta segunda, dia 13 de dezembro de 2021,  de Jânio Soares, Secretário de Cultura e Esportes de Paulo Afonso, aos 62 anos após um infarto. Janinho era um grande entusiasta do Cariri Cangaço e deixa um legado de seriedade e espirito público.

A Bala que Quase Matou Manoel Neto Por: Antônio Correa Sobrinho

Manuel Neto

Não vejo, dentre os que mais corajosa e afanosamente combateram o cangaceiro Lampião, quem tenha sobrepujado Manuel Neto, o militar pernambucano da família Ferraz, de Nazaré dos Picos, também conhecido por Mané Neto, este que, só por causa do destino, que não permitiu, deixou de dar cabo de Lampião e nem por ele foi abatido.

Da mesma forma que não vejo, no grupo destes destemidos comandantes militares, caçadores vorazes e contumazes de cangaceiros, quem mais se expôs ao perigo, arriscou-se mais e, agora quem se arrisca sou eu, feriu-se mais nas medonhas refregas com o chefe Lampião e seus comparsas, do que este mesmíssimo Manuel Ferraz Neto.

Manuel Neto que, nos dias do cangaço, tanto se arriscou e, segundo alguns, pouco caso fez de sua própria integridade física durante os tiroteios, vivenciou o mais grave dos seus ferimentos, o qual quase o levou à morte, ironicamente bem longe dos campos de batalha nas caatingas, que se deu nos dias iniciais do mês de junho de 1945, quando, dentro da cadeia da cidade de Sertânia (antiga Alagoa de Baixo), município onde exercia o cargo de delegado regional, leva um tiro na barriga, conforme leio no jornal “O Diário de Pernambuco”, de 09 deste mês e ano.

Segundo a notícia, o destemido Manuel Neto prendera pessoalmente e levara à prisão um conhecido e perigoso ladrão de animais (nome não revelado), quando, num breve descuido da parte deste militar, o ladrão sacou de um revólver e, à queima-roupa, desferiu um tiro certeiro no abdome do capitão, prostrando-o. E que, diante da gravidade do ferimento, ele foi conduzido para o município de Pesqueira, em cujo hospital foi operado, onde se encontra em estado grave de saúde, mas apresentando melhoras, conclusão do informe. Recuperou-se, com certeza, o mais afamado dos caçadores de Lampião, temido e respeitado por este cangaceiro.

Antônio Correa Sobrinho, Sergipe

As Táticas de Guerra dos Cangaceiros com Christina da Matta Machado, hoje nos Grandes Encontros Cariri Cangaço

HOJE , ao vivo , 19h30 em nosso canal no You Tube

Este programa dos Grandes Encontros Cariri Cangaço; traz um pouco da vida e obra da pesquisadora e escritora paulista, Christina da Matta Machado, uma das mais importantes precursoras, entre as mulheres, do universo da pesquisa e de estudo do fenômeno cangaço.

A intelectual de Maria Christina Russi da Matta Machado, aluna de doutorado da Universidade de São Paulo é autora do polêmico "As táticas de guerra dos cangaceiros" do ano de 1969. O livro retrata o universo de pesquisa da autora, quando viajou por todo o nordeste para entender o contexto, as causas e repercussões do fenômeno cangaço. A obra teve grande repercussão na época e se mantem ate hoje como uma referência de época para os apaixonados pela temática.





Para este bate papo , Manoel Severo, curador do Cariri Cangaço, recebe o jornalista, pesquisador e escritor, Humberto Mesquita e o pesquisador e escritor, professor Manoel dos Santos Neto. Até lá ! Venha conosco . Canal do YouTube do Cariri Cangaço!

Combate da Serra Grande, 95 anos depois Por:Valdir Nogueira

"O tenente Arlindo Rocha, anteontem chamado ao Recife, pelo senhor chefe de polícia, é atualmente o comandante das forças pernambucanas no sertão. Vimo-lo ontem a noite na Chefatura, conferenciando demoradamente com o Dr. Eurico de Souza Leão. As indicações que prestava, no mapa todo assinalado da Repartição Central da Polícia, e o justo renome que usufrui aquele oficial em todo sertão nordestino, levaram-nos a procurá-lo no intuito de conseguirmos um testemunho seguro da situação do cangaceirismo, afora o prazer natural de ouvir um homem que, anos a fio, dia e noite, tem batido cerrados e caatingas numa luta de vida ou morte contra os mais ferozes bandoleiros. O tenente Arlindo Rocha é um homem moreno, alto e magro, muito tímido e que não fala nunca; tem que ser provocado para responder então. Na face esquerda ostenta um gilvaz profundo: uma bala de rifle em pleno rosto, às duas e meia da tarde, no dia 26 de novembro de 1926, no combate de Serra Grande.

- Onde foi esse combate? Perguntamos logo com nossa curiosidade despertada!

- Serra Grande fica perto de Custódia. Comandava as forças o bravo tenente Hygino José Bellarmino. Foi o início da campanha do atual governo estando no poder o saudoso Dr. Júlio de Mello contra Lampião. Este tinha, ao tempo, sob seu comando 125 homens. Estavam todos entrincheirados no alto da serra. A brigada começou às 8 e meia da manhã e terminou as 6 horas da tarde. Nós tínhamos duas metralhadoras, que Antônio Ferreira, irmão de Lampião, procurou cercar três vezes pela retaguarda. E gritava: - Hoje tomo uma costureira dessas.

- E tomou?

- Não. Parece que tomou foi uma bala, pois parece que morreu três dias depois do tiroteio. Os bandidos fugiram e desde então começou a debandada. O grupo fragmentou-se em quadrilhas que operavam em zonas diferentes. Ferido nessa luta, acrescentou o tenente Arlindo só escapei devido a meu irmão que me amparou. Os cangaceiros me alvejaram a poucos passos de distância, no momento em que eu chamava por Manoel Netto, ocupado em botar uma retaguarda.”
Esse é uma parte do depoimento que prestou o tenente Arlindo Rocha ao “Jornal Pequeno” (PE) e que foi publicado na edição de n.241 de 20/10/1928, p.1
De acordo com o inquérito procedido foram mortos os seguintes policiais da Força Pública durante o Combate da Serra Grande em 26 de novembro de 1926:Luiz Torres Barros, Severino Pereira da Silva, Pedro Aureliano da Silva, Targino Ferreira Primo, Octávio de Sá Araújo, João Terto, José dias dos Santos, Ângelo Inácio da Silva, José Arcôncio dos Santos e Antônio Braz de Lima.
Da mesma Força Pública, policiais que saíram feridos:Arlindo da Rocha, Sargento José Olinda de Siqueira Ramos, Manoel de Souza Netto (cabo), Vicente Ferreira da Silva, Eduardo Pinheiro de Souza, Cícero Aistides Pereira, José Francisco Bezerra, José Caetano de Souza, Antônio Basílio de Souza, João Antônio de Souza, Luiz José de Souza, Antônio Alves de Lima.


CANGACEIROS QUE PARTICIPARAM DO COMBATE:
Virgulino Ferreira da Silva (Lampião chefe do grupo), Antônio Ferreira da Silva (irmão de Lampião), Vicente Feliciano, Antônio José da Silva (Beija-Flor), Antônio Frazão (Pai Velho), Luiz Pedro, Hermínio Xavier da Silva (Chumbinho), José de Souza (Tenente), João Soares (Juriti), João Mariano (Andorinha), Joaquim Mariano, Manoel Mariano, Severino da Silva (Nevoeiro), Sabino Gomes, Isaias Vieira, Manoel Nogueira, Manoel Marcelino (Bom de Vera), Ignácio de Medeiros (Jurema), Felix Preto, Caetano da Silva (Moreno), João Donato (Gavião), Pedro Gomes, João Henrique, Antônio Rosa, José Lopes da Silva (Mormaço), João Cesário (Coqueiro), Manoel Antônio, Francisco Antônio, José Marinheiro, André Marinheiro, Antônio Marinheiro
Antônio Caboclo (Sabiá), José Benedicto, José Angélica, José Generosa, Josias Vieira (Gato), José Luiz (José Procópio), José Preto, Cipriano da Pedra, Antônio Coelho, José Pedro da Silva (Barba Dura), José dos Santos (Seu Chico), Jorge Salu (Maçarico), Raimundo da Silva (Aragão), Antônio Francisco, João José da Silva Nunes, Marcelino Antônio dos Santos (Cobra Verde), Antônio da Silva (Noite Braba), Antônio Mancinho (Curise), Marcelino Nunes da Cruz, Luiz Pedro do Retiro, José dos Santos (Três Pancadas), Nunes Magalhães (Pensamento), João de Brito, Euclides Bezerra (Criança), Manoel Vieira da Silva (Coça Bomba), Antônio Maneca
João Felix (Gasolina), Urbano Pinto, Antônio de Tal (Antônio Romeiro), Justo de Tal (Lua Branca), Genésio de Tal (Genésio Vaqueiro), Vicente de Tal (Vicente Preto), Antônio de Tal (Antônio Caboclo), Pedro de Tal (Pedro de Quelé), José de Tal (José Vaqueiro).
O Combate da Serra Grande travado no dia 26 de novembro de 1926, no município de Calumbi, bem próximo a Vila Bela deixou sua marca dolorosa gravada nos anais da guerra cangaceira, oportunidade em que as forças comandadas por nada menos que seis experientes comandantes, os temidos Gino, Mané Neto, Arlindo Rocha, Zé Olinda, Domingos e Euclides Flor foram espetacularmente derrotados pelo terrível cangaceiro Lampião. Para assinalar os 95 anos do ocorrido na última sexta-feira (26), um grupo de amigos liderados pelos historiadores Luiz Ferraz Filho (Serra Talhada) e Lourinaldo Teles (Louro Teles) de Calumbi, visitou o local do respectivo combate. Além destes dois historiadores o evento contou também com a participação dos pesquisadores Clênio Novaes (São José do Belmonte), Marrael Siqueira (Nazaré do Pico, em Floresta), Criscélio e Cristiano Carvalho (Tupanaci, em Mirandiba), Valdir Nogueira (São José do Belmonte), Wilton Santana (Jati-CE), Luiz Emanuel Nogueira (Nazaré do Pico, em Floresta), Amélia Araújo (Floresta), entre outros que colaboraram na visita. Uma cruz foi afixada para demarcar o local de sepultamento dos soldados mortos no triste combate, em seguida foi rezada uma oração em sufrágio de suas almas.
Valdir José Nogueira de Moura,
Pesquisador e Escritor
Conselheiro Cariri Cangaço, São José de Belmonte

Lançamento de "Raizes do Cangaço" de Humberto Mesquita, hoje em Fortaleza !


Acontece nesta quinta-feira, dia 02 de Dezembro de 2021, as 19h no Restaurante Caravelle, em Fortaleza, o lançamento do mais novo livro do pesquisador e escritor, jornalista Humberto Mesquita. O lançamento acontece seguido de bate-papo com o autor, mediado pelo curador do Cariri Cangaço, Manoel Severo, além de sessão de autógrafos por parte de Mesquita.

O Assassinato de Né Pereira Por: Valdir Nogueira


Após o assassinato do tio, Manoel Pereira da Silva Jacobina o Padre Pereira, Manoel Pereira da Silva (conhecido como Né Dadu, Né Pereira ou Né Sinhô), tomou pra si o intuito de realizar as vinganças contra à família Carvalho. Assim, formou um bando de cangaceiros que ocasionalmente atacavam as fazendas Umburana, Piranhas e Varzea do Ú, propriedades dos Carvalhos. Por ser protegido pelo seu padrinho, Coronel Antônio Andrelino Pereira, Né Pereira sofreu dura perseguição da polícia pernambucana que mandou para a região diversos oficias para apaziguar a famosa questão nordestina. Em 16 de outubro de 1916, na Fazenda Serrinha, em Serra Talhada (PE), Né Pereira foi assassinado enquanto dormia por um de seus cabras, de nome Zé Grande (Palmeira), que havia sido peitado pela família Carvalho. Movido por vingança, seu irmão mais novo, Sebastião Pereira e Silva (Sinhô Pereira), acompanhado do primo Luiz Padre, formaram um bando de cangaceiros que durante 05 anos (1917/1922) reinaram no cangaço nordestino até que foram embora do Nordeste.

Valdir Nogueira (do livro ENTRE REZAS E BACAMARTES)
Conselheiro Cariri Cangaço - São José de Belmonte-PE

Câmara Cascudo, o Homem , o Sertão, o Coronelismo e o Cangaço, nos Grandes Encontros Cariri Cangaço


Luís da Câmara Cascudo, um dos maiores maiores cientistas sociais do país; historiador, professor, jornalista, musicólogo, antropólogo, etnógrafo, folclorista, poeta, cronista e advogado;  responsável por disciplinar o conhecimento popular enquanto ciência, e sem dúvidas seu estudo do folclore e da cultura popular formam seu maior legado. Cascudo é o convidado especial dos Grandes Encontros Cariri Cangaço desta quarta-feira, dia 17 de novembro de 2021, AO VIVO, no canal do YouTube do Cariri Cangaço, pontualmente às 19h30.

Para aprofundar o conhecimento deste maravilhoso universo de Câmara Cascudo, Manoel Severo, curador do Cariri Cangaço, recebe a Presidente do Ludovicus - Instituto Câmara Cascudo; Daliana Cascudo Roberti Leite e o Conselheiro Cariri Cangaço, membro do Instituto Histórico e Geográfico do Rio Grande do Norte, pesquisador e escritor, Honório de Medeiros. 



Luis da Câmara Cascudo

"Colecionador de Crepúsculos

Luís da Câmara Cascudo, construtor de monumentos culturais imorredouros, nasceu no dia 30 de dezembro – dedicado a São Sabino – de 1898, numa sexta-feira, às dezessete horas e trinta minutos – momento do Ângelus – na Rua Senador José Bonifácio, número 212, conhecida Rua das Virgens, no bairro da Ribeira, Cidade do Natal. Um canguleiro, pela divisão existente.

Seus pais, Francisco Justino de Oliveira Cascudo (27/11/1863 – 19/05/1935) e Ana Maria da Câmara Pimenta ou Donana (17/02/1871 – 09/03/1962) eram parentes próximos, ambos de Campo Grande, Rio Grande do Norte. Ele, militar de coragem comprovada, líder, habilidoso conversador, caridoso, honesto e respeitado comerciante no final da existência. Ela, religiosa, bondosa, dedicada dona de casa.

Luís tinha sido um sobrevivente das moléstias que acometeram seus irmãos. Maria Octávia e Antonio Haroldo faleceram em Caicó, onde o genitor era Delegado Militar. Já em Natal, Maria Severina, que trazia os olhos azuis paternos, morreu em 1903, com um ano e três meses. Todos sucumbiram da mesma enfermidade, crupe ou difteria. A parteira foi Bernardina Nery, falecida no Bairro das Rocas, onde morava, em 25 de agosto de 1922, com oitenta e dois anos. Trouxera ao mundo mais de oitocentas crianças. Ouvindo o choro alto do nascituro, o pai, Tenente do Batalhão de Segurança, perguntou aflito:- Homem ou Mulher? Respondeu “Mãe” Bernardina:- Ele veste calças.

Cascudo aos 17 anos

Cascudo sempre respeitou sua masculinidade. Apesar da ausência de preconceitos que o caracterizava jamais se fantasiou de menina nem mesmo usou saiote kilt em festa escocesa. O nome escolhido foi promessa materna, que desejava Luís de França. O pai vetou o “de França”, mantendo a ortografia. Luís permaneceu com a letra “esse”. Batizou-o Santo Padre João Maria, na Capela do Bom Jesus das Dores, na Ribeira, hoje Matriz, no dia 9 de maio de 1899. Seus Padrinhos foram o Desembargador Joaquim Ferreira Chaves, Governador do Estado, e sua esposa D. Alexandrina Barreto Ferreira Chaves, amigos da família.

O Padrinho estudara latim e respondeu naquele idioma as perguntas do sacerdote. O Padre João Maria, hoje canonizado pela sabedoria popular, com busto em bronze perpetuamente cercado de velas e ex-votos, abençoou-o com nome em latim: Ludovicus. Ao término da cerimônia religiosa, a madrinha entregou o batizando à sua mãe, que ficara na residência, como era o costume, dizendo as palavras tradicionais:- Comadre, aqui está seu filho, que levei pagão e trago cristão!...Até sua morte, Luís procurou manter a fé e merecer sua cristandade.

Cascudo não denominava realmente a família paterna, constituída dos Justino de Oliveira, Gondim, Ferreira de Melo, e Marques Leal. Antonio Justino de Oliveira (1829-1891), pai de Francisco, filho de Antonio Marques Leal (1801-1891), vindo do português do mesmo apelido, era chamado de “o velho Cascudo”, pela devoção ao partido Conservador, possuidor de tal alcunha. Somente Francisco Justino e o irmão Manuel (1864- 1909) juntaram Cascudo ao nome. Manuel faleceu em São Paulo, major da Polícia Militar, Comandante da Guarda Cívica, casado com a alemã Carlota Ester, sem descendência. Luis da Câmara Cascudo foi assim registrado para perpetuar a tradição nascida com o pai e o tio Manuel. Nos primeiros anos do Século XX unicamente Luís e o primo Simplício, filho da tia Maria Severa e de criação de Francisco Justino, eram Cascudo. Depois o nome foi adotado por alguns primos, tornando-se “popular” no Estado.

Colando grau em 1928

Cascudo não é o besouro, o coleóptero, nem muito menos o gestual de castigo. É um peixe de loca, acari, Precostomus loricariae. Cascudo é peixe, padrinho do rio Carioca, vindo do Acari-Oca, paradeiro dos Acaris. Luís da Câmara Cascudo, estudioso da heráldica, incluiu o peixe no seu ex-libris, acrescido da máxima latina: Dum Spiro Spero, que significa: enquanto respiro, espero. Dizia Jorge Amado que era a afirmação da esperança. Hoje o ex-libris acrescido do nome Ludovicus, é registrado pelo Instituto Câmara Cascudo, perpetuador do seu nome, obra, essência.

O primeiro banho do menino Luis foi com água morna, bem temperada com vinho do Porto. A “simpatia” era para ficar forte. Foi acrescentado um patacão de prata, do Império. Promessa de nunca faltar dinheiro. Conclui-se hoje que foram bem intencionados, mas sem garantias reais e palpáveis de concretização. Menino magro, enfermiço, pálido, cercado de dietas e restrições clínicas, assim se auto-descrevia meu pai. Mas os amigos mais próximos, Jaime Wanderley e “Babuá”, rejeitavam esses adjetivos. Afirmavam que os professores, especialmente Francisco Ivo Cavalcanti recordava criança vivaz, alegre, inteligente, buliçosa, inquieta. Mesmo proibido de correr, pular, pisar descalça na areia, subir em árvores, tudo pelo receio dos pais de ter Luis a destinação dos irmãos, aproveitava as oportunidades para desafiar a sorte. Obediente na aparência. Brincava no quarto cheio de brinquedos. Obrigavam-lhe o sedentarismo. Mas fugia, dando asas à sua imaginação sem limites, tomando banho frio, brincando na rua, pescando no rio Potengi. 

Aprendeu a ler sozinho aos seis anos, graças à revista Tico-Tico. Sua primeira professora foi Totônia Cerqueira, que lhe amarrou no braço uma fita azul, jurando seu aluno ter aprendido tudo que ensinara. Estudou no Externato Sagrado Coração de Jesus, no Colégio Diocesano Santo Antonio. Morando no Tirol, os pais resolveram pelo ensino a domicilio. Professores magistrais, depois tornados amigos diletos: Pedro Alexandrino, Francisco Ivo Cavalcanti, Ivo Filho. Lia muito, tudo que encontrava. Revistas, álbuns, gravuras, almanaques, novidades, estórias. A curiosidade ilimitada que possuía abria seus tentáculos para o mundo que o cercava. Em 1914 passou a freqüentar cursos, preparando-se para os exames no Atheneu Norte-Rio-Grandense. Lá, estudou Humanidades, e se “enturmou”. Queixava-se do isolamento infantil. Da ausência dos “melhores amigos”. De brincar sozinho, com soldadinhos vindos da Alemanha, estação com trens ingleses, casa de madeira, armada sobre rodas no quintal da residência na Campina da Ribeira. Jaime Adour da Câmara (1898-1964) era um dos íntimos. A casa, depois “Vila Cascudo”, vivia repleta de amigos e era o supra-sumo da Democracia posta em prática: hospedou com o mesmo carinho a Família Imperial e Fabião das Queimadas, cantador que fora escravo.

Câmara Cascudo por William

Sobre a “Vila Cascudo”, façamos algumas considerações importantes. Em fins de 1913, Francisco Cascudo, empresário, adquiriu ao arquiteto Herculano Ramos, por vinte mil réis, a “Vila Amélia”, no Ti rol, “região de chácaras e quintais”. A propriedade abrangia três quartas partes do quarteirão entre as avenidas Campos Sales e Rodrigues Alves, Rua Apodi ao fundo e à frente a Jundiaí, número 93. Paralelamente, a Avenida Rodrigues Alves, era quase toda de Cascudo, lembra Jaime Câmara (Revista Província 2, 1998). No ângulo com a Rua Apodi, presenteou ao Monsenhor José Alves Ferreira Landim, o terreno para a construção da Capela de Santa Terezinha do Menino Jesus, hoje Matriz, “onde nenhuma inscrição rememora a generosa dádiva” (Luis da C. Cascudo, O Tempo e Eu). O Coronel Cascudo murou-a de balaustres e instalou-se com a mobília adquirida do Senador Pedro Velho, jacarandá entalhado de dragões, descanso em rosáceas confeccionadas de veludo francês. Pérgula, do terraço ao portão na Rua Jundiaí. A sala de visitas era pintada a óleo com grinaldas e florões, pelo artista espanhol Rafael Foster que aqui residia. Mosaicos belgas em toda a extensão residencial, vindos do antigo proprietário. Tetos forrados em fundo de masseira. Lustres de cristal tcheco. No saguão, iluminado pelas janelas de rechias, abria-se a primitiva biblioteca de Herculano, depois com literatura selecionada por Henrique Castriciano e Pedro Alexandrino. No meio dos livros, Luís se sentia no Paraíso...

Árvores de frutos raros, que eram podadas por jardineiro italiano; cajueiros, mangueiras, jambeiros. Frondosos e plenos de frutas deliciosas. Caramanchões com jasmins do cabo, resedás e bogarís, de odor penetrante. Donana Cascudo conservava um jardim lindíssimo, que contornava a casa. Possuía enorme variedade de rosas, de cores diversas, e mais de duzentas dálias, de tamanhos e tons diferenciados. Profetizava o nome de quem seria sua nora, Dáhlia. Na Vila, seriam recebidas as maiores personalidades nacionais. Perto do largo portão da Rodrigues Alves, o estábulo das vacas holandesas, e a estribaria do Cavalo Cossaco.

Luís da Câmara Cascudo foi para a Vila ou Principado do Tirol adolescente, com quinze anos incompletos. Saiu de lá aos 34, bacharel, professor, pobre, casado e com um filho, sustentando mãe, pai, esposa e primogênito. F. Cascudo hipotecara todo aquele mundo por trinta réis, e não conseguiu saldar a dívida, executada. Não pediu nem solicitou auxilio de ninguém. Donana lhe entregou todas suas valiosas jóias, que depois assistia, sendo usadas pelas mulheres dos “amigos...”. Todos os empréstimos, feitos sem recibos pela credulidade do Cel. Cascudo não foram resgatados. A conhecida promessa da honra motivada por um fio de cabelo do bigode do devedor não funcionou... A falência do pai provocou uma imensa reviravolta na vida do filho, segundo suas próprias palavras: “A pobreza de meu pai, altiva e nobre, não me permitia abandoná-lo e viajar para o sul, vencer no Rio. Filho único devia retribuir em assistência quanto tivera em pecúnia e carinho. Fiquei, definitivamente e sem recalques, provinciano. Ia ser até a velhice, professor jagunço. Sem perder o aprumo senhorial, o olhar azul irresistível, as maneiras gentis e afáveis. Continuou uma das figuras mais prestigiosas e queridas da cidade.” (“O Tempo e Eu”, Luís da Câmara Cascudo).

Casa de Câmara Cascudo, hoje sede do Instituto

Sua verdadeira vocação era ser cientista. Foi cursar medicina na Bahia em 1918. Fez até o quarto ano. Sonhava possuir laboratório e desenvolver pesquisas. Naquele tempo não havia a especialidade. Era indispensável ter uma esmeralda no dedo. Mas com meu avô, Francisco Justino de Oliveira Cascudo já empobrecido, o filho não poderia ser mais um pesquisador na terapêutica tradicional, como desejava. Os móveis, os utensílios, tudo demandava muito dinheiro. Sem uma queixa, abandonou o curso no último ano e fixou-se na Cidade do Natal. Começou a ensinar nos Colégios e Cursos particulares.

Foi para a Faculdade de Direito do Recife, levando as economias pessoais, hospedado em pensões humildes e típicas. Em dezembro de 1928 formou-se em Ciências Jurídicas e Sociais. A pobreza do seu pai, altiva e nobre, não lhe permitia abandoná-lo e viajar para o sul, mesmo recebendo convites tentadores. Já era noivo. Filho único devia retribuir em assistência quanto tivera em pecúnia e carinho. Ficou, definitivamente e sem recalques, provinciano. Ia ser até a velhice, professor jagunço.

Professor do Atheneu Norte-Rio-Grandense em 1928, Américo de Oliveira Costa relembra as aulas que fascinavam alunos, com a classe repleta de intelectuais que vinham assisti-las, incrédulos pela verve e erudição demonstradas, contrastando com sua jovialidade. É válido registrar que até pouco tempo atrás, era conhecido como jornalista brilhante e filho de milionário. Agora era sustentáculo familiar. Ensinava História Geral e do Brasil em diversos cursos e ainda dava aulas particulares. Permanecia lendo e escrevendo sem descanso. Sem dúvida, um trabalhador. Foi ainda Professor da Escola Normal, dos Colégios D. Pedro II e Marista, e Nossa Senhora das Neves. Um guerreiro. Em 1950, o Governador José Augusto Varela nomeou-o Diretor do Museu e Arquivo. Antes fora advogado de funcionários da Great Western e Secretário do Tribunal de Justiça, com a penitência diária de lavrar atas. Junto com Valdemar de Almeida, fundou um Instituto de Ensino Musical. Dizia-se apaixonado pela Música, popular ou clássica. Lia as pautas com rapidez impressionante. Foi esta a base para a criação da Escola de Música.

Silvio Piza Pedrosa, grande amigo, companheiro na deslumbrante tarefa diária de buscar os mais belos crepúsculos da cidade, lembrou do seu nome para a recém fundada Faculdade de Direito do Natal em 1951. Mas antes ensinava Etnografia na Faculdade de Filosofia e Ética na Faculdade de Serviço Social. Foi, com Onofre Lopes e uma plêiade de abnegados, capitaneados pelo Governador Dinarte de Medeiros Mariz, um dos responsáveis pelo ingresso no nível de Universidade que seria Federal. Seu discurso na Cerimônia de Abertura da Universidade, em 1959, até hoje é citado pela perfeição textual. Em algumas Faculdades de Filosofia ou Jornalismo do Sul, exemplo de técnica, traduzido para vários idiomas.


Professor de Direito Internacional Público, na Faculdade de Direito de Natal, como atesta Américo de Oliveira Costa, “revolucionou a maneira de ensinar”. Seus alunos aprendiam o Direito autêntico, aquele que engloba todas as matérias do conhecimento. Era o Direito Filosófico, eterno. Mas também atual prático. Seus exemplos reuniam o cotidiano internacional. Discutia e explicava noticias diárias e ocorrências. Mas também se valia das raízes greco-romanas. Berilo Wanderley, saindo da classe, me confidenciou: “Estou emocionado, colega. Seu pai se serviu da aritmética elementar para nos fazer entender as leis que regem o direito aéreo e o marítimo. Caíram as fronteiras da nossa ignorância.” Sua vasta cultura conseguia emoldurar a legislação mundial e reuni-la na algibeira da nossa limitação. Foi o mais completo, o mais delicioso e imperdível Professor de Direito. Diógenes da Cunha Lima relata: “quem foi seu aluno sofre de uma eterna orfandade, uma lacuna jamais preenchida.” Nomeado Terceiro Consultor Geral do Estado, em 1959, pelo Governador Dinarte, recebeu salário digno, justiça que veio tarde, mas válida.

Filho único de Chefe Político, com o dom da palavra e carisma de líder, o mundo não aceitava seu desinteresse eleitoral. Amigo de Dinarte e Aluisio Alves, em entrevista, declarou que era impossível para ele dividir conterrâneos em cores ou gestos de dedos, quando a terra é uma unidade com a sua gente. “Meu país vive e pensa no nosso corpo”, repetia. Nacionalmente, foi muito convidado à Senadoria. “O difícil é escolher o estado. Sou principalmente brasileiro. Amo todo o seu território”, finalizava. Professor foi a sua destinação. Ainda na UFRN dirigiu o Instituto de Antropologia, hoje Museu Câmara Cascudo. Aposentou-se em 1966. Em 1967 recebeu o Título de “Professor Emérito” e, em 1977, o de Doutor Honoris Causa. Presença ativa em todas as frentes da atividade local, nacional e internacional. Ergueu a escada ascendente de sua obra pioneira e única, adquirindo conhecimentos graças a esforço isolado, pesquisa paciente e labor continuo que o tornaram sábio. Solitariamente, sem recursos pecuniários e em rincão nordestino, produziu um conjunto de obras de pesquisa, análise e interpretação da realidade brasileira em todos os ângulos, de elevado grau de criatividade e densidade cultural.

Estudiosos da sua biografia, documentando-a analiticamente, ressaltam que esse fenômeno das nossas letras provou que é possível escrever livros que revelam ampla erudição e pontos de vista absolutamente pessoais, numa cidade sem bibliotecas, vivendo sem nenhum privilegio de fortuna e de poder, trabalhando duramente para manter a família. Segundo Carlos Drummond de Andrade, “ele diz, tintim por tintim a alma do Brasil em suas heranças mágicas, suas manifestações rituais, seu comportamento em face do mistério e da realidade comezinha. Não é apenas o Homem-Dicionário que sabe tudo, é muito mais, e sua vasta bibliografia de estudos folclóricos e históricos marca uma bela existência de trabalho inserido na preocupação de “viver” o Brasil.”

Na sua obra, pois, há o historiador, o etnógrafo, o folclorista, o antropologista, o sociólogo, o ensaísta, o jornalista, o tradutor de diversos idiomas, o comentador, memorialista, o cronista. Até romancista de costumes animais, com nitidez cientifica.As “Actas Diurnas”, artigos escritos de 1939 a 1960 nos dois jornais locais, iniciaram a crônica histórica, estilo diferente de fixador, pintor de tipos humanos. Inventou conceito brasileiro para a literatura oral. Deu foros de ciência ao folclore, que difundiu e valorizou. Inovou fornecendo caráter enciclopédico à sua pesquisa. Sua atualização e modernidade são surpreendentes. O texto enxuto, claro, parece saído de um manual de redação. Descobertas e afirmações postas em dúvida anteriormente, pela ausência de técnicas, são reconhecidas como verdades, nos dias de hoje.


Até marqueteiro se revelou. Sua frase, “O melhor do Brasil é o Brasileiro”, deu origem à campanha de autoestima, detentora de diversos prêmios populares e da área. Dizia o IBOPE que nove entre dez brasileiros se identifica com a sentença. Foi, em termos comparativos, maior e por mais tempo no ar na televisão, dando seqüência à valorização de símbolos e cores pátrios, qual sirene chamativa de significados adormecidos.

No dia 30 de julho de 1986 ele deixou a terra, viajando para outra galáxia. Mas de maneira inédita, permanece entre nós.

Criou a Universidade Popular, com aulas públicas por dois anos. Fundador e idealizador, com grupo de escritores potiguares, da Academia Norte Rio Grandense de Letras em 1936; fundador, com o gaúcho Dante Laytano, da Academia Brasileira de Arte, Cultura e História, ativa em São Paulo; Homem do Século, em votação popular ocorrida em 2007, promovida pela Rede Globo de Televisão, no Rio Grande do Norte. Nove vezes inspirou e protagonizou Coleção de Selos dos Correios e Telégrafos; foi cédula de cinqüenta mil cruzeiros; cartões de telefone; bilhete da Loteria Federal, esgotado em uma semana. Sonhou e concretizou a Sociedade Brasileira de Folclore, em 1941, quando a cultura popular era ignorada e até estigmatizada pelos estudiosos brasileiros. Destacado como pensador sul-americano em religiosidade, teve painel gigante comemorativo na EXPO 98, em Lisboa, Portugal, sob a égide de Nossa Senhora Aparecida, Padroeira do Brasil. A Europa comentou favoravelmente sua frase sábia: O Brasileiro, na sua fé particular, traz para si o conforto da mãe de Jesus, retirando-a do coletivo. Assim, passamos a usar “Valei-me minha Nossa Senhora”!

Motivo de exposições nacionais, como, por exemplo, “Um Homem Chamado Brasil”, nos salões do BID, Rio de Janeiro; escolhido para titular colégios no Rio de Janeiro e no Rio Grande do Norte, pracinha, rua em Belo Horizonte, São Paulo e Natal, avenida, elevado em São Paulo, faculdades, creches, memorial, museu, agências bancárias, lojas de artesanato. Foi nome de Concurso Internacional em setenta e oito países, no PARLATINO, dirigido pelo Deputado Federal Nei Lopes de Souza, seu aluno na Faculdade de Direito da UFRN; Semana de Estudos pela sua obra na USP, SP; Núcleo de Estudos na UFRN, tendo a frente o Prof. Humberto Hermenegildo e equipe. Seus livros inspiraram peças teatrais brasileiras e espanholas, programas radiofônicos, séries televisivas, documentários em Portugal, Espanha, Brasil, México.

Por um sortilégio, está no meio de nós... Foi eleito “santo”, “São Cascudo - Padroeiro da Tradição”, com reza e santinho, no Simpósio Internacional dos Contadores de História, realizado no Rio de Janeiro, em agosto de 2007. Vivo e presente esteve nos quatro mil componentes das alas da Escola de Samba “Nenê de Vila Matilde”, em fevereiro de 2008, Grupo Um do carnaval paulista. No carro Abre-Alas, conferi, emocionada, o enredo alusivo ao seu trabalho ser cantado e dançado, com comentários generosos e gratificantes pelo Júri da TV Globo.

Na cidade de Olímpia, Estado de São Paulo, confesso que fui às lágrimas, na qualidade de Presidente de Honra do 44º Festival de Folclore em sua homenagem. Na oportunidade, mais de dois mil brincantes de todos os Estados Brasileiros faziam exatamente o que ele sempre desejou: vestidos com roupas típicas entoavam as melodias das suas terras. Iniciou-se em 2 de agosto de 2008 até o dia 8. Lá foi chancelado o Grande Colar Cultural Câmara Cascudo, pela Prefeitura de Olímpia, Festival Nacional do Folclore e Academia Brasileira de Arte, Cultura e História. Na capital, a Global Editora organizou exposição dos seus livros por ela editados, e a Academia Brasileira de Arte, Cultura e História – que tenho a honra de figurar no Conselho e como Sócia Comendadora - promoveu uma noite com presenças ilustres de todos os ramos do conhecimento do Estado de São Paulo. Inaugurado seu retrato, pintado pela Acadêmica Gigi, fato noticiado pela mídia com destaque, em 12 de agosto de 2008.

No dia 13, fui entrevistada na Televisão da Faculdade de Teologia Umbandista, e falei para alunos de diversas classes daquela entidade de estudos, respondendo sobre sua obra e importância na valorização da Umbanda no Brasil. Em Novembro de 2008, Luis da Câmara Cascudo foi consagrado como um dos inspiradores do Primeiro Congresso de Umbanda do Século XXI (o do século XX ele compareceu com Mário de Andrade) realizado na Faculdade de Teologia Umbandista, em São Paulo. Fui honrada como uma das Professoras de tão importante acontecimento.

Em 10 de dezembro de 2008 recebi a Medalha de Mérito Câmara Cascudo, instituída pela unanimidade dos Deputados e referendada pelo Presidente nos salões da Assembléia Legislativa do Rio Grande do Norte. Este ano, fui abençoada. A maior consagração como escritora e biógrafa. O título do meu livro, “O COLECIONADOR DE CREPÚSCULOS” (2004) narrando, com ótica filial e na qualidade de testemunha-confidente passagens vividas pelo eterno mestre, foi utilizado para titular, no Teatro SESI de São Paulo, Serviço Nacional da Indústria uma peça excepcional. O autor e Diretor Teatral Vladimir Capella reuniu vinte e quatro atores, com participação afetiva de Rolando Boldrin, que faz o Senhor Brasil, Câmara Cascudo. O autor destacou que o Brasil está contido na riqueza literária do homenageado, tributo justo à sua vida e obra. 

Deixo de enumerar seus mais de cento e cinqüenta livros, plaquetes, opúsculos, separatas e crônicas, descobertos constantemente no Brasil, em Portugal, Espanha e França, para não me alongar em demasia. Na síntese panorâmica da existência do meu pai, o coração bate forte, apontando figura feminina que ele denominava, na dedicatória dos seus livros, “animadora incomparável” ou “flor sem espinhos”. Dáhlia Freire Cascudo, de tradicional família macaibense, filha caçula do Juiz de Direito, depois Presidente do Tribunal de Justiça e Desembargador José Teotônio Freire e da fidalga Maria Leopoldina Viana, conhecida por Sinhá, virtuose no piano e apaixonada pela língua e civilização francesas. Luís a conheceu com dezesseis anos, aluna das Irmãs Dorotéias, tímida e encabulada. Criticado pela genitora, Donana Cascudo, por deixar de lado nomes famosos de apaixonadas mulheres e se interessar apenas por uma menina, respondeu ofertando à linda adolescente a boneca Elza, até hoje sob a guarda da nossa primogênita, Daliana. Foram 57 anos de casamento, harmonioso e feliz. Pergunto-me se a obra gigantesca de Luís da Câmara Cascudo, profunda e consistente, existiria em tal dimensão, sem a permanente doçura da companheira. Na plaquete comemorativa ao seu centenário, que será brevemente editada, na crônica intitulada “Planeta Saudade”, como filha observadora, mas ainda calcada na prática da Promotoria de Justiça e no exercício jornalístico, opinei. Escrevi que: “O segredo de Dáhlia foi à definição da escolha. Ela possuiu a lucidez de peneirar o real, reservar o importante, apagar o supérfluo. Fazia-se de desentendida quanto uma escapadela boêmia, valorizando a harmonia familiar, a segurança do lar, a simplicidade do cotidiano. O marido conservou ideário de liberdade, sem amarras, buscas, averiguações. Regressava para o carinho leal e aparente credulidade nos seus sonhos.”

Meu irmão, Fernando Luís, e eu, herdamos dos nossos pais a sabedoria de manter harmonia conjugal, base para a riqueza emocional que nossos filhos e netos ampliarão através dos seus descendentes. Na nossa paisagem intima, realizamos a mais autêntica imortalidade. Tal sanidade moral , de envelhecer amando, é o baú de tesouros que legamos. Que nossos herdeiros o mantenham, através dos tempos...

Termino transcrevendo o Santinho que foi distribuído no Rio de Janeiro, quando da sua eleição como São Cascudo - Patrono da Tradição:

“Primeiro os preparativos: acenda o fumo, deixe a conversa tomar rumo. A rede esticada, presa em duas palmeiras. O céu noturno cheio de estrelas. Agora, a oração:

Ajude-me, meu São Cascudo
Que tem coisas nesse mundo
Que só existem nas memórias
Do povo mágico das histórias.
Quero uma lição de geografia
Que um índio velho contaria
Para uma criança portuguesa
Se fartando com a sobremesa
De pé de moleque e brigadeiro
Junto com um peão de boiadeiro.
São Cascudo, me diga o que é
Que vem de noite num só pé,
E como me livro dessa assombração.
Meu Santo Padroeiro da Tradição.
Agora vou me deitar na rede,
Pois eu sei que o Santo entende,
Que amanhã é dia de festança
Vai ter música, aguardente e dança
Pro meu coração enamorado.
Valei-me meu São Cascudo!...”

Anna Maria Cascudo Barreto
Fonte:http://www.cascudo.org.br/biblioteca/vida/
Instituto Câmara Cascudo - Ludovicos