Chico Pereira, um Cangaceiro Diferente por: Romero Cardoso


Francisco Pereira Dantas compôs um tipo diferente de cangaceiro na turbulenta década de vinte do século passado, ombreando com figuras exponenciais do banditismo rural sertanejo que imortalizaram época e marcaram indelevelmente as crônicas de violência de um passado não muito distante que singularizou-se pela extraordinária efetivação do cangaço, principalmente no semi-árido nordestino.

Chico Pereira

Filho de proeminente figura de localidade paraibana chamada Nazarezinho, na época distrito do município de Sousa, Chico Pereira ingressou no cangaço devido aos desdobramentos posteriores ao assassinato do genitor, de nome João Pereira, Coronel da guarda nacional. Alvo das disputas políticas sousenses, o Coronel João Pereira faleceu na famosa fazenda Jacu, depois de batalha em seu barracão, quando da construução do açude de São Gonçalo. Conforme o neto Francisco Pereira Nóbrega, morreu clamando " Vingança Não!", título do mais conhecido livro de autoria do ex-sacerdote católico.

A justiça tendenciosa foi a principal responsável pelo fomento das lutas cangaceiras travadas por Chico Pereira, pois libertou o único homem que havia escapado do atentado contra o Coronel João Pereira, aprisionado pessoalmente pelo destemido paraibano. O situacionista era elevado aos degraus máximos do prestígio na sociedade sertaneja agropastoril sob a égide da reppúblicas velhas e dos seus valores.
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Nazarezinho em Destaque

Agressão a um comerciante de nome Chico Lopes, amigo de Chico Pereira, nas ruas de Sousa, enfatizou o mais mirabolante lance de sucesso absoluto do cangaço sob o domínio de Lampião. Contactado pelo revoltado sertanejo, Virgulino Ferreira não hesitou em enviar parte do bando a Nazarezinho, onde este se juntou aos cabras de confiança da família ultrajada pelo poder político. O chefe supremo do banditismo rural sertanejo recuperava-se de ferimento no tornozelo em Princesa, sob a proteção de Marcolino Pereira Diniz. Entre outros elementos, compunham o bando sinistro, enviado por Lampião com o objetivo de atacar Sousa, estavam os irmãos Ferreira - Antônio e Levino - bem como Sabino Gório.

Na madrugada do dia 27 de julho de 1924, Sousa foi invadida, o magistrado desmoralizado e Chico Pereira, não tendo outra saída, acompanhou os cangaceiros em direção a Princesa. As notícias deixaram Lampião perplexo e apreesnivo, pois raciocou sobre o recrudescimento das perseguições, o que não demorou a acontecer. No ano seguinte, Levino Ferreira foi morto em combate, na localidade Tenório, município de Flores do Pajeú (PE), alvejado pela discarga de arma empunhada por volante de nome Belarmino Morais, do contingente comandado pelo Cabo José Guedes, da polícia paraibana.

Diferente dos demais cangaceiros, Chico Pereira não usava chapéu quebrado na testa, nem gibão ou outra indumentária exclusiva ou tradicional ao ciclo épico do qual fez parte. Provavelmente seu figurino bandoleiro inspirou-se em revistas norte-americanas que vez por outra chegavam aos sertões. Tom Mix talvez tenha sido o personagem no qual buscou referência, pois de acordo com o Jornal do Recife de 22 de novembro de 1927, citado por Frederico Pernambucano de Mello, Chico Pereira não usava cabacinha d'água, chapéu de couro, preferindo um traje assim a herói do Far West, envergando chapéu de massa , de abas largas, lenço vermelho ao pescoço, pesadas cartucheiras, calças culote, polainas e clássico punhal nortista traspassado à cinta.

Casado por procuração na igreja matriz de Pombal (PB), com moça da localidade de nome Jardelina Nóbrega, Chico Pereira deixou três filhos, um frade, de nome Dagmar (Frei Albano), um ex-padre e filósofo, de nome Francisco Pereira Nóbrega e um engenheiro, chamado Raimundo, os últimos já falecidos.
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Igreja Matriz de Pombal-Paraíba
Antiga cadeia de Pombal

Notas interessantes sobre esse cangaceiro, encontramos na obra do historiador Frederico Pernambucano de Mello, intitulada Guerreiros do Sol, nas quais há ênfase à conversa que o bandoleiro teve com o escritor cearense Moreira Campos, em Lavras da Mangabeira. Chico Pereira afirmou que não tinha mais sossego no mundo, pois em todo canto queriam pegá-lo devido dever oitenta honras de moça.

 
Governador Juvenal Lamartine ao centro, em noite solene do governo

Aprisionado em Cajazeiras, quando de dilegência efetivada pelo tenente Manuel Arruda de Assis, Chico Pereira provavelmente caiu em uma armação. Levado a Pombal, depois sua transferência foi requisitada para Acari (RN), onde havia suposto processo contra ele, em razão de assalto à residência de respeitado sertanejo conhecido por Quincó da Ramada, havendo indícios de que sua excução fôra planejada pelo governo potiguar, provavelmente em represália radical contra atitude donjuanesca efetivada por Chico Pereira, protagonizada por sobrinha de Juvenal Lamartine, seduzida em Serra Negra do Norte.

Chico Pereira notabilizou-se nas hostes do cangaço por incorporar um tipo deiferente de bandoleiro, cujas feições arianas marcaram indelevelmente o imaginário sertanejo quando do apogeu do banditismo rural sertanejo, arrancando suspiros de senhoras e donzelas de recônditos lugares espalhados pelo semi-árido dos estados da Paraíba, do Ceará e do Rio Grande do Norte.
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José Romero Araújo Cardoso
Geógrafo (UFPB). Professor-adjunto do Departamento de Geografia da UERN. Especialista em Geografia e Gestão Territorial (UFPB) e em Organização de Arquivos (UFPB). Mestre em Desenvolvimento e Meio Ambiente (PRODEMA/UERN).
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4 comentários:

Lima Verde disse...

Como o autor pontua; até hoje permanece a questão sobre as verdadeiras condições da morte do Cangaceiro Chico Pereira, inclusive tão bem retratada no livro de seu filho padre.

Realmente Chico Pereira tinha um biotipo completamente diverso dos cangaceiros, jagunços e cabras da época. Um homem diferenciado e talvez vítima não de sua vida cangaceira, mas de sua índole de conquistador, como mesmo fala o autor, professor Romero.

abraços a todos,

Fernando

CARIRI CANGAÇO disse...

Pois é caro Fernando, como diz nosso grande amigo Alcino Alves Costa, de Poço Redondo: Mentiras e Mistérios!!!!

Abração,
Manoel Severo - Cariri Cangaço.

Anônimo disse...

concordo contigo... e ainda digo muito mais... mais tarde claro...

José Mendes Pereira disse...

Diz Ivanildo Alves Silveira, que Chico Pereira foi um dos homens mais destemidos do sertão paraibano, que fez justiça com as próprias mãos. Quando foi julgado pela morte do assassino do seu pai, foi absolvido em júri popular, lá na Paraíba. Mas para sua infelizmente, foi acusado pelas autoridades de um crime que não cometeu, no Rio Grande do Norte. Apesar de sempre cair em falha contra as autoridades, e geralmente apadrinhado pelo governador da Paraíba, mesmo assim, infelizmente foi trazido para o nosso Estado, e aqui foi entregue à justiça para ser julgado. No período em que Chico Pereira foi morto, já havia completado vinte e oito anos de idade. Dona Maria Egilda, sua mãe, não teve pelo menos o desprazer de enterrar o seu filho, tendo recebido orientação do advogado da família, Doutor João Café Filho, fazendo grande alerta aos familiares, que não fossem pisar em terras do Estado do Rio Grande do Norte para ser apanhado como vingança por parte das autoridades que chacinaram Chico Pereira. Diz ainda o Doutor Ivanildo Silveira, que a tragédia continuou com o assassinato inesperado do irmão de Chico Pereira, o Aproniano. E a morte do outro irmão, Abdon, que estudava medicina no Rio de Janeiro, e faleceu de tuberculose. Conversas entre os dentes, diziam que os mandantes da morte do coronel João Pereira, o pai de Chico Pereira, eram pessoas importantes da sociedade de Sousa. Um deles, um senhor que era destacado cidadão de nome Otávio Mariz. Dos quatro filhos do coronel João Pereira, o único que sobreviveu e viveu muito, foi o Abdias, que veio a falecer no dia 28 de julho de 2004, com cento e três anos de idade. Como diz o escritor Alcindo Alves da Costa: “Minhas inquietações”. 1 - Se analisarmos cuidadosamente é provável e óbvio que Café Filho não participou da tragédia de Chico Pereira, mas com certeza, muito antes deste dia, ele já sabia da trama, e tinha razão de não ficar contrário às autoridades policiais. 2 - Se Café Filho achava que o seu cliente poderia ser morto naquele dia, como tomou conhecimento, se ele não era detetive, psicólogo ou outra coisa parecida? 3- Se ele iria no seu carro atrás da escolta para acompanhar o seu cliente, por que lhe causaria medo? 4 - Qual o motivo da Dona Maria Egilda, a mãe de Chico Pereira, ser alvo dos militares, se ela tivesse ido apanhar o cadáver do seu filho, já que o verdadeiro marginal era ele, e não ela? Desculpa-me Café Filho, mas o senhor conhecia bem o malabarismo dos policiais. No meu entender, o senhor estava envolvido nessa trama. Essa é que é a verdade. E sendo o senhor advogado, saiu-se muito bem obrigado.
José Mendes Pereira – Mossoró-RN.
Fontes de pesquisas: Ivanildo Silveira, Romero Cardoso e Wolney Liberato.