Dadá, a princesa do cangaço Por: Ana Lucia

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Ana Lúcia, Lili e Wescley Rodrigues

Neste ano de 2011, em que as mulheres ocupam uma posição de destaque na esfera política, econômica e social, como também mulheres ativamente envolvidas na arte, na música, na cultura, nas ciências e em vários outros setores, não podemos esquecer o centenário de nascimento da Rainha do Cangaço; Maria Gomes de Oliveira; a Maria Bonita. Mulher corajosa, a frente do seu tempo, determinou a enfrentar uma vida nômade, bandoleira, tornando-se a primeira mulher a entrar no mundo do cangaço.

A entrada da mulher no cangaço foi uma necessidade de afeto, de carinho e principalmente apoio e companheirismo diante de tantos atos criminosos praticados por seus companheiros neste sertão nordestino em que a própria sociedade como também por motivos diversos, contribuíram para que esses indivíduos se transformassem em cangaceiros ávidos por mudanças.

Diante desse exposto e recapitulando um pouco de sua história, destacamos a figura de uma outra mulher extraordinária, valente, guerreira... e amável: Sérgia Ribeiro da Silva, a Dadá, mulher de Cristino Gomes da Silva Cleto, o Corisco. Dadá, a Princesa do Cangaço, também chamada por Suçuarana justamente por sua valentia, tinha habilidades tanto no bordado e na costura como no manuseio de armas que, com muita precisão no atirar, foi à única mulher no cangaço a participar de forma ativa nas lutas e combates.


Dadá e Corisco em foto de 1936

Dadá era diferente. Foi uma mulher forte, destemida, que seguiu seu companheiro quebrando também paradigmas sociais de sua época. Nascida em Belém do São Francisco, Pernambuco, casou-se oficialmente com Corisco tendo com ele sete filhos, dos quais apenas três sobreviveram. Sobre sua convivência com as outras mulheres e os cangaceiros dentro do bando, ela afirmou em depoimento ao médico Estácio de Lima:

“ [...] Era uma convivência maravilhosa,
todo mundo tinha seu marido, uma amor danado,
uma costurava, outra ajeitava um vestidinho, uma coisa.
Uma vida bacana. Com Lampião, ali,
ninguém dava um nome, ninguém se enxeria com coisa
nenhuma. Agora, se ela saísse linha, o chumbo comia,
matavam, como aconteceu com Cristina de Português e Lidia.Os cangaceiros eram muitos amorosos, tinham tanto carinho, eram capazes até de se esquecer das armas.”

Nesse relato, Dadá nos revela que, mesmo possuindo características marcantes como crueldade e hostilidade, por exemplo, os cangaceiros ao mesmo tempo mostravam-se capazes de demonstrar atos de doçura e amor por suas mulheres. Dadá lembra-se ainda que “quando não tinha tiro, tinha alegria, era tudo bom”. Em 1938 o cangaço se extinguiu com a morte de Lampião e de forma definitiva em 1940 com a morte de Corisco, que teimava em continuar para vingar a morte dos seus companheiros.

Entretanto, cabe aqui ressaltar a bravura de Dadá, esta mulher que após uma vida cheia de sofrimentos, alegrias, amor e lutas, morreu pobre na periferia de Salvador em Fevereiro de 1994 aos 78 anos, portanto, são exatos dezessete anos que Dadá não está mais entre nós. Aposentou-se como costureira, casando-se pela segunda vez com um pintor de paredes e uma vida dedicada a família com simplicidade e humildade acima de tudo e por tudo que ela significou para a história, foi uma guerreira notável e admirada por todos que a conheciam.Dadá ainda foi homenageada por sua luta e representatividade feminina em Salvador por sua personalidade forte e grandiosa como mulher, mãe e pessoa dotada de espírito solidário.
Dadá em foto dos anos 70  

Homenagem justa, mas não podemos esquecer a importância desta figura feminina para a história social do Brasil que, no século XX, naquela época, eram tratadas para serem submissas aos maridos, sem valor, sem direitos e muito menos eram proibidas de subverterem contra qualquer injustiça tendo que se comportar de acordo com os padrões que regiam as convenções sociais, mas em pleno sertão rural nordestino, determinadas mulheres corajosas como Dadá, por exemplo, teve o denodo de enfrentar situações diversas e adversas por amor, cumplicidade e companheirismo participando ativamente do cangaço enquanto movimento popular, tornando-se um símbolo feminino contra a resistência política e social vigente.  

São dezessete anos sem a nossa querida Dadá. Querida sim, pelos seus feitos, pela pessoa humana que foi, pela sua história de amor e dedicação que sobrepujou diante de todos por suas qualidades.

Ana Lucia Granja de Souza
Historiadora e pesquisadora
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6 comentários:

José Mendes Pereira disse...

Parabéns a Ana Lúcia pelo seu excelente trabalho sobre o cangaço, e principalmente a homenagem que faz a suçuarana Dadá.

José mendes Pereira - Mossoró-RN.

Anônimo disse...

Materia oportuna quando estamos entrando no mes internacional das mulheres.

Lidia Rabelo

Anônimo disse...

Aninha,

Lendo o seu texto sobre Dadá eu fiquei deveras feliz e emocionado.
Feliz por termos pelos caminhos do sertão jovens mulheres, verdadeiras
e lindas meninas-moças como você, Juliana e outras beldades de alma
sertaneja, resgatando a história de nossa gente cabocla, numa
demonstração que a mulher brasileira, desde os tempos antigos, pasando
pela Era Lampião e chegando nos dias de hoje, sempre foi o divisor
sagrado e divino da paz e do ódio, do amor e da violência.

Emocionado por poder perceber a altíssima capacidade e inteligência
que você carrega em sua vida. Lendo a sua postagem eu estava vendo no
meu mundo de sonhos uma Aninha que parecia ser a Maria Bonita que era
o símbolo do amor, e também uma Aninha que parecia se a Dadá
guerreira, heróica e obstinada.

Parabéns, minha vaqueirinha da história.

Jesus lhe abençoe.

Alcino Alves Costa
O Caipira de Poço Redondo

prof. Aninha disse...

Meus amigos, muito obrigada pelas palavras de incentivo, pois são elas que fazem com que a gente cresça a cada dia em busca do conhecimento e desejo de saber mais da nossa história sertaneja, bjus a todos. Aninha.

Rubervânio Rubinho Lima disse...

Um belíssimo texto e uma escrita centrada, que faz-nos percorrer certinho pelos trilhos da descoberta e da satisfação, com a leitura.
Parabéns, Flor Pernambucana.
São mulheres como você que nos fazer perceber o quanto deus é perfeito.

Continue escrevendo e laçando a história, para que sejamos cada vez mais sacudidos pela surpresa e fascinio da leitura.

Um beijinho do matutinho de Paulo Afonso, assuazórdi...

E não esqueça... quero ver seu livro...

Anônimo disse...

Era um bando de bandido e vcs vem me dizer que eram heróis???? Tenham santa paciencia