A Saga de Quintino Feitosa Por:Heitor Feitosa Macedo

Quintino Feitosa (Foto:http://historiadejuazeiro.blogspot.com.br)

Quintino Feitosa era natural da Paraíba, talvez pertencente algum dos velhos troncos que se dispersaram pelo Nordeste, e terminou indo residir no Juazeiro do Norte/CE, no início do século XX, quando a pequena urbe encontrava-se em violento estado de ebulição, fervilhando de hordas cangaceiras. Oriundo do Teixeira, na Paraíba, Quintino morou algum tempo na região do Pajeú de Flores, em Pernambuco, e, depois, foi residir no Juazeiro, onde participou ativamente dos combates contra as tropas de Franco Rabelo, na chamada Sedição do Juazeiro, em 1914.

A participação de Quintino na Guerra de Sedição do Juazeiro lhe conferiu grande notoriedade, em particular, por ter comandado a trincheira das Malvas (perto das residências de Floro Bartolomeu e do Padre Cícero), na qual repeliu heroicamente o avanço de uma das tropas rabelistas, comandada por Lourenço Ladislau, durante o segundo ataque feito ao Juazeiro. Na ocasião, Quintino Feitosa, chefiando apenas 30 homens, defendeu sua trincheira, além de impedir a detonação do canhão trazido pelas tropas inimigas.[56] Tal peça de artilharia era fundamental para o ataque, porém, dois dias depois de chegar ao Juazeiro, já havia sido apreendida e guardada no quintal do Padre Cícero.
Jagunços à serviço de Floro Bartolomeu

Esta sua atuação deu-lhe grande reputação, conforme se depreende das palavras do escritor Aldenor Benevides, arrematando que Quintino Feitosa era: “talvez o homem mais valente que já pisou no solo juazeirense”.Mas  esta fama veio acompanhada de maus olhares, contaminados pela inveja de dois cruéis cangaceiros, os irmãos Francisco (Senhorsinho) e José Pinheiro, conforme registrou Amália Xavier:

Os dois irmãos, Senhorzinho e Zé Pinheiro, tornaram-se inimigos de Quintino que, após a revolução, ficou conhecido e honrado com o título de um dos mais valentes, se não o mais destemido combatente da época. Os 2 não aceitaram a opinião pública pois julgavam-se com direito às maiores glórias. Começaram as tricas e rixas, os insultos e as ameaças, até que chegaram às hostilidades.
        
Enxergando as virtudes de Quintino, Floro Bartolomeu resolveu nomeá-lo para o cargo de delegado de Juazeiro do Norte, o que só atiçou mais ainda a sanha dos opositores, em outras palavras, a sua nomeação foi “como que uma pedra atirada em caixa de marimbondo”. Disseminava-se pelo Juazeiro a história de que Quintino era um homem intrépido e capaz de, sozinho, enfrentar muitos outros, pois desde jovem era, na sua terra natal, acostumado a enfrentar perigos, sendo muito arrojado e impulsivo, possuindo uma “natureza ardente, mas, só em último recurso, utilizava a sua tão propalada bravura”.



Floro Bartolomeu

Certa feita, um dos homens do delegado Quintino, João Batista, matou Nezinho, ligado à família dos Pedros. Depois do crime, o assassino buscou a casa de seu conterrâneo, Quintino, o qual se fez solidário ao amigo, não o levando para o xadrez, pois sabia que ao chegar à delegacia João Batista seria linchado.

Os opositores do homicida, insatisfeitos com a situação, dirigiram-se armados à casa de Quintino, a fim de realizar a referida prisão. Um pouco antes de isso acontecer, aproveitando-se do clamor dos bandidos, os irmãos Pinheiro já haviam se dirigido até as Malvas, para a casa de Quintino, com o suposto propósito de negociar a rendição de João Batista.

Conta-se que quando um desses irmãos alcançou às portas da casa de Quintino, este se dirigiu a Francisco Pinheiro (Senhorzinho) dizendo que não queria brigar, e o mandou ir embora, pois que ele com aquela disposição, ali sozinho, era porque, ou estava bêbado ou louco e que ele, Quintino, não queria brigar nem com um e nem com outro; que fosse então chamar o irmão e os companheiros”. De pronto, Senhorzinho respondeu esta bravata com os seguintes termos: “eu nasci foi só”, vindo a disparar o primeiro tiro.

Defendeu-se Quintino com uma bala certeira que varou o peito do seu agressor, e, impassível, continuou no mesmo lugar à espera do irmão do morto. Assim, quando este chegou, Quintino confirmou-lhe ser o autor da morte de Senhorzinho e ainda disse a José Pinheiro que era seu dever, como irmão, fazer vingança.

Padre Cícero

Tomando conhecimento do ocorrido, o Padre Cícero se dirigiu ao lugar da contenda, chegando a tempo de evitar mais mortes, ordenando que todos voltassem para suas casas, “ameaçando com o cajado os mais atrevidos que não obedeceram prontamente”. No momento, Zé Pinheiro, louco de ódio, chorando desesperadamente, já se encontrava na companhia de alguns homens para fazer vingança, no entanto, tiveram que adiar os seus planos.

Como se não bastasse, outro evento veio piorar a situação. No dia nove de novembro de 1914, Zé Pinheiro foi até o Banco Tesouro da Família para retirar certo numerário. Em frente a este banco estava a Coletoria Estadual, onde se encontravam três homens para fazer a segurança do estabelecimento, pois o coletor, por ser cunhado de Quintino, temia alguma represália.

Dessa forma, Zé Pinheiro, ao sair do banco, quase recebeu um tiro disparado por um desses defensores da Coletoria, que assim agira por conta própria, talvez, em razão de uma provável inimizade. Não demorou, e no mesmo dia voltou Zé Pinheiro com os seus cabras, atirando contra o prédio da Coletoria, que foi invadido e depredado.


Casa de Quintino Feitosa em Malvas

Depois disso, aproveitaram o ensejo e marcharam para as Malvas, lugar em que residia Quintino. Este, no interior de sua casa, foi atacado por mais de cem homens armados, recebendo disparos que vinham de três direções. Quintino respondeu à ofensiva, sendo auxiliado por apenas 12 homens entrincheirados no seio da sua residência.

Durante o combate, por duas vezes faltou munição para Quintino e seus homens, momento em que um cabra seu, de nome Amaro, um rapazinho de 18 anos, oriundo do Riacho do Navio (Zona do Pajeú), pulou uma das janelas e, em seguida, rolou no chão enquanto atirava, habilidade que causava admiração até mesmo aos seus inimigos. Então, voltou o rapaz para o interior da casa trazendo as balas.

A cabroeira de Quintino, a maioria da Região de Flores, no Pajeú, despendia grande esforço por combaterem se movimentando constantemente pelo interior da residência. A esposa de Quintino, sentada no chão, municiava as armas dos homens, enquanto sua afilhada, Filomena (Filó), também atirava contra os sitiantes.

Já com quase 24 horas de intenso tiroteio, um primo de Quintino, Pedro Domingos, residente no Sítio Carás, chamou-lhe a atenção para o perigo que se aproximava naqueles últimos instantes. Porém, Quintino estava decidido a morrer brigando e, se fosse preciso, de punhal, por isso liberou aqueles que desejassem fugir. Pouco tempo depois, Quintino tombou ferido, sendo arrastado para a dispensa por Filó, a qual, munida de um rifle, postergou o embate “com muito mais ardor e disposição como jamais pensava fazer”.Assim, agonizante, Quintino ordenou que sua mulher e os demais fossem embora.


Heitor Feitosa Macedo

Quando Zé Pinheiro invadiu a casa, Quintino já estava morto, mas, mesmo assim, o cruel cangaceiro ainda disparou sua arma contra o cadáver, que “era temido, mesmo depois de morto”. Em seguida, o corpo de Quintino foi arrastado por uma das pernas até a frente da casa, e apunhalado por Zé Pinheiro, a ponto de ficar irreconhecível. Este, não satisfeito, decepou o lábio superior do defunto usando uma faca de dois palmos de lâmina, jogando o pedaço extirpado dentro de um bornal, junto com as balas.

O crânio de Quintino foi esmigalhado com as coronhas dos rifles, de forma que o corpo só pode ser reconhecido através do dedo da mão direita, que era torto por um “panarício”. Para completar, Zé Pinheiro, reproduzindo uma cena antropofágica, bebia nos bares usando o pedaço do lábio de Quintino como tira gosto, submerso num copo de cachaça.

O triste espetáculo, regado a sangue e carne, era seguido de gargalhadas sinistras de Zé Pinheiro, que se aproveitou da ausência de Floro Bartolomeu e do Padre Cícero para promover tão lamentável ação. Porém, meses depois, em Alagoas, o truculento cangaceiro também foi assassinado, por gente do seu próprio grupo, sofrendo o seu cadáver o mesmo vilipêndio que havia feito ao de Quintino.  

Heitor Feitosa, advogado
Fonte: http://estoriasehistoria-heitor.blogspot.com.br/

2 comentários:

Francisco Neri Filho disse...

Há uma versão da história de Quintino Feitosa um tanto diferente, contada no livro de Francisco Fernandes do Nascimento, jornalista juazeirense que militou na imprensa do Rio de Janeiro, livro esse que tem como título:MILAGRE NA TERRA VIOLENTA e, como subtítulo: Padre Cícero, o Santo Rebelde, impresso na Gráfica Record Editôra - Av. Rio Branco 131/11º andar ZC-21, Rio de Janeiro-Guanabara, em 1968, prefaciado por Edmar Morel, outro jornalista juazeirense de renome, autor de livro polêmico, intitulado PADRE CÍCERO, o Santo do Juazeiro, lançado em 1966 e impresso na EDITORA CIVILIZAÇÃO BRASILEIRA. Na versão de Francisco Fernandes, Padre Cícero teria se deslocado até uma bodega onde Zé Pinheiro com a cabroeira tomava cachaça com o pedaço do lábio superior de Quintino e parte do bigode no fundo do copo, quando fora surpreendido pelo Padre Cícero, que, ao chegar, disse pra o chefe: eu te desconjuro. - Meu padim não pode desconjurar ninguém, porque é excomungado. Nesse instante, os cabras de Zé Pinheiro baixaram a cabeça em desaprovação à resposta dada ao Patriarca. O reverendo, então, foi ao balcão onde estava o copo e retirou de dentro dele o pedaço do bigode de Quintino e foi deixar junto ao corpo, que estava sendo valado na casa de meu pai, FRANCISCO NERI DA COSTA MORATO,cunhado de Quintino, primeiro coletor e ex-interventor municipal de Juazeiro do Norte. Porém, antes disso, o padre teria dito pra Zé Pinheiro que ele anoitecesse e não amanhecesse. Zé Pinheiro foi embora, e, algum tempo depois, teria sido encontrado morto,trucidado...

Geraldo Moreira disse...

Tenho escrito que confere com o relato do Dr. Francisco Neri Filho, menos a frase "Meu Padim não pode desconjurar ninguém, porque é excomungado." Apenas Dr. Floro sabia do fato, nem mesmo o Padre Cícero tinha ciência.