O Trucidamento de Jararaca em Mossoró Por: Romero Cardoso

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Trincheira da casa de Rodolfo Fernandes (Foto Museu da Resistência)

José Leite de Santana era pernambucano de Buíque, nascido no ano de 1901. Antes de entrar para o cangaço servia ao Exército Brasileiro, em Sergipe, quando desertou em razão de ter participado de insurreição militar contra o comando do quartel no qual servia na capital sergipana.No cangaço, devido sua fúria irascível, ganhou o apelido de Jararaca, mas não era tão perverso como os irmãos Ferreira, pois quando da marcha de lampião intuindo atacar Mossoró, protagonizou ato benevolente na localidade de Cantinho do Feijão, hoje município de Santa Helena (PB).

Ezequiel Ferreira, irmão mais novo de Virgulino Ferreira da Silva, destacava-se pela pontaria impecável, razão pela qual ganhou o apelido de Ponto-Fino.  Foi ele quem matou Raimundo Luiz, subdelegado e fundador da localidade. Depois do assassinato, Lampião arrastou punhal de setenta e cinco centímetros de lâmina para rasgar o ventre da viúva do desditado homem da lei. Queria saber como era a cara do filho de um “macaco” saído das entranhas. Jararaca intercedeu e evitou mais uma barbaridade que seria cometida naturalmente pelo “rei do cangaço”.

 Cadete Jararaca

No combate em Mossoró, as colunas comandadas por Sabino Gório e Jararaca tentavam tomar de assalto a residência do prefeito Rodolfo Fernandes, hoje sede da chefia executiva do município, conhecido como Palácio da Resistência. O valente prefeito havia mandado empiquetar os principais pontos de defesa com fardos de algodão, inclusive sua residência se encontrava totalmente arrodeada com o principal produto exportado por Mossoró naquela época, vindo de diversos lugares do nordeste semiárido.

Cangaceiro apelidado de Colchete conseguiu gasolina e encheu uma garrafa, fazendo um coquetel molotov para ser arremessado nos fardos de algodão em volta do Palácio de Rodolfo Fernandes. Na parte superior da residência do prefeito postava-se exímio atirador, de nome Manuel Duarte, que logo notou a intenção do famoso bandido do vale do Pajeú. 

O bravo defensor mossoroense esperou momento oportuno, quando Colchete ficou com a cabeça visível o suficiente para que o winchester calibre 44 do homem postado em cima da residência do prefeito detonasse projétil certeiro que esfacelou o crânio do cangaceiro de Lampião. Colchete estertorava devido o estrago causado pela bala da arma de Manuel Duarte, quando outro indômito integrante da trincheira do prefeito pulou a janela de punhal em riste para terminar o serviço, sangrando-o impiedosamente.  Imediatamente esse homem que não sabia o significado da palavra medo voltou ao seu posto para continuar o combate. 

 Manuel Duarte

Jararaca sabia, como todos os cangaceiros, que o código dos bandidos permitia que um companheiro quando era morto àquele que estivesse mais próximo tinha o “direito” de desarvorá-lo, ou seja, retirar armas, munição e tudo de valor que o defunto carregasse.    Corajosamente, Jararaca se expôs até demais, intuindo ficar com os pertences de Colchete. O mesmo Manuel Duarte que estourou a cabeça do cangaceiro que buscava transformar em churrasco os defensores da trincheira do prefeito escalou novamente seu winchester calibre 44 e pipocou Jararaca pelas costas. O cangaceiro caiu em forma de cruz sobre o companheiro morto. 

Passaram-se uns dez minutos para que Jararaca recobrasse a consciência devido ao impacto da bala calibre 44 detonado por Manuel Duarte. Este notou que o intrépido bandoleiro havia se mexido, fazendo menção de correr. Novo tiro deflagrado por Manuel Duarte varou a coxa de Jararaca, tornando sua situação periclitante ao máximo, ao extremo dos extremos. Jararaca conseguiu se arrastar por que Manuel Duarte se deparou com outro cangaceiro atrevido. Dessa vez era Sabino Gório. O tiro deflagrado, o qual buscava a cabeça do homem de confiança de Marcolino Pereira Diniz, arrancou o chapéu do cangaceiro, dando chance a Jararaca para sair da linha de tiro e se proteger.

O cangaceiro clamou por ajuda, chamando Sabino e Massilon, os quais não lhe deram ouvidos, pois a meta naquele instante era salvar a própria pele. O tiroteio no centro de Mossoró deixou os cangaceiros absolutamente desnorteados, tanto é que na fuga um “cabra” da confiança de Isaías Arruda, conhecido por Bronzeado, foi sair para as bandas do caminho de Upanema (RN), a leste, enquanto o bando tomava a direção de Limoeiro do Norte (CE), a oeste.
 
 
 Massilon Leite , Virgulino Lampião e Sabino Gório

Jararaca se arrastou penosamente até chegar aos trilhos da estrada de ferro, sendo preso no dia 14 de junho de 1927. Nesse ínterim, chegava em Mossoró uma volante paraibana, enviada pelo governador João Suassuna. Essa coluna militar era comandada pelo Sargento Clementino Quelé, o famoso “tamanduá vermelho”. O governador norte-riograndense depois presenteou João Suassuna com o punhal de Jararaca, como prova de gratidão pela atitude de enviar socorro à cidade que foi ameaçada pelos bandidos comandados por Lampião.  Mais tarde, Lampião e seus sequazes viriam o tamanho da besteira que tinham feito, pois uma coisa eles não sabiam que era a forma como os Lamartine de Faria levavam avante suas vinganças. A audácia dos cangaceiros em tentar atacar Mossoró não ia ficar por isso mesmo. Certa vez Vingt-un Rosado me disse que havia indagado a Juvenal Lamartine sobre o motivo por que tinha mandado matar todos os cangaceiros que haviam sido aprisionados e enviados para responder processo no Rio Grande do Norte. A resposta de Lamartine, segundo Vingt-un, foi curta e grossa: “Mandei matar, mandava de novo e só tenho pena dos que não pude mandar fechar para deixarem de serem cabras safados”. Essa resposta revelou como era o homem que foi responsável também pela morte do cangaceiro Francisco Pereira Dantas, talvez, tudo indica, devido sedução de uma sobrinha de Juvenal Lamartine em Serra Negra, a qual contava quando do defloramento a tenra idade de doze anos.

Romero Cardoso
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11 comentários:

Anônimo disse...

A primeira resistência a lampião não foi em mossôro, foi na vila de ipueira dos Xavier, em serrita-Pe. Já esta na hora de corrigir esse grande erro histórico. Em 03 de fevereiro de 1927, Lampião e seu bando foram expulsos da heroica vila de ipueira, pela família Xavier sob comando do grande Cel. Pedro Xavier. Não entendo porque a direção do cariri cangaço, não tenta resgatar a verdade histórica. Antônio Xavier descendente do Cel. Pedro Xavier. antoniochurros@hotmail.com

Mendes e Mendes disse...

Amigo Homero Cardoso: É lamentável que a minha Mossoró tão bela e hospitaleira, tenha feito uma morte tão cruel e violenta contra um ser humano. É claro que não devemos elogiar os malfeitores que tiram a tranquilidade de um povo, mas não podemos justiçá-los, uma vez que quem julga é o grande homem do universo, não o homem da terra, que não sabe justiçar ninguém. Eu lendo o seu maravilhoso texto, vi que as suas palavras se assemelham às do escritor e jornalista de Mossoró, Geraldo Maia. Texto seguinte: Diz Geraldo Maia, que no depoimento baseado que Pedro Sílvio de Morais, um dos integrantes da escolta que matou o cangaceiro, fez ao historiador Raimundo Soares de Brito (mossoroense, dizia o depoente: “- Pelas onze e meia horas da noite, de um luar claro e frio, do mês de junho de 1927, uma escolta composta de oficiais, sargentos e praças, conduziu em automóvel o bandido, dizendo que ele ia para Natal. No momento da saída e ao dar entrada no carro, Jararaca disse que tinha deixado as alpargatas na prisão, e pediu ao comandante para mandar buscá-las, pois não queria chegar na capital com os pés descalços. O tenente-comandante então disse que em Natal lhe daria um par de sapatos de verniz. Quando os automóveis pararam no portão do cemitério, Jararaca interrogou: "Mas isto aqui é o caminho de Natal?" Como resistisse descer do automóvel, um soldado, empurrando-o, deu-lhe uma pancada com a coronha do fuzil. No cemitério, mostraram-lhe uma cova aberta lá num canto, e um deles perguntou-lhe: "Sabe para que é isso?". Jararaca respondeu-lhe: "Saber de certeza não sei não. Nas, porém estou calculando. Não é para mim? Agora, isso só se faz porque me vejo nestas circunstâncias, com as mãos inquiridas e desarmadas! Um gosto eu não deixo para vocês: é se gabarem de que eu pedi que não me matassem. Matem! Matem que matam, mas é um homem! Fiquem sabendo que vocês vão matar o homem mais valente que já pisou neste..." Mas o Jararaca não teve tempo de dizer o que queria. Um soldado, por trás dele, deu-lhe um tiro de revólver na cabeça. Ele caiu e foi empurrado com os pés para dentro da cova. Que maldades fizeram com o cangaceiro! Ele era desumano? Era. Mas não deviam ter feito tamanha atrocidade com o rapaz. Dizem que a minha Mossoró foi uma grande heroína. Mas eu peço desculpa aos meus conterrânios. Dessa maneira! Jamais heroína. José Mendes Pereira - Mossoró - Rio Grande do Norte.

Anônimo disse...

Ao ilustre nativo de Mossoró "José Mendes Pereira":
Meu caro, não entendo por que tamanha indignação da vossa parte com o destino do cangaceiro jararaca!!! Um bandido fascínora que adentrou a Mossoró disposto a fazer toda maldade e selvageria possível, e pensar que esse enviado do inferno virou santo e é adorado por muitos (inclusive mossoroenses) que fazem de seu túmulo objeto de adoração e peregrinação para (pasmem) agradecerem graças alcançadas, enquanto o "Verdadeiro Herói da Resistencia de mossoró" o prefeito Cel. Rodolfo Fernandes segue esquecido e tem seu tumulo em total abandono e em ruínas e sua memória quase apagada da história da cidade. Corajoso Cel Rodolfo Fernandes, este sim, deveria ser carinhosamente homenageado pela população de Mossoró. Lamentável a desastrada inversão de valores onde o bravo homem a serviço do bem e da lei é esquecido, e um fascínora, bandido e sanguinário é exaltado como se fosse um santo!!!
Alex Pereira - Historiador

Gustavo Miranda disse...

Não posso admitir a opinião covarde do aninimato. Sou policial civil no RN e digo com sinceridade. A policia sempre foi e sempre será o órgão repressor gerado das maiores violências. JARARACA FOI ASSASSINADO. ASSIM COMO VALDETÁRIO CARNEIRO. A verdade é que eles foram sem saber os percussores de uma tropa de elite do que hoje poderia ser: A REPÚBLICA INDEPENDENTE DO NORDESTE DO EDUADOR! NORDESTE INDEPENDENTE JÁ! CANGAÇO JUSTIÇEIRO JÁ!
ANÔNIMOS, DEIXEM DE SER COVARDES!!!!

milton disse...

O q fizeram com Jararaca 4 dias após sua prisão, levar o mesmo p,ra ser enterrado sem ser morto ainda, fizessem com todos q pega uma arma e fazer assaltos, essa onda de assaltos hj em dia, q nos tempos de nossos pais ñ havia e no tempo de nossos avós a lua era dos namorados, essa onda acabaria. Mas, acabar como, se o próprio judiciário, a legislação, tá a favor do mesmo por baixo de 7 paredões e 7 camuflagens, e mesmo se fizessem a todos assaltantes igual a Jararaca, muitíssimas pessoas iria ser contra tal medida, e no fim, a própria população sustenta essa onda de assaltos corriqueiro hj em dia e diário a 24 horas por dia. A própria população sustemnta p,ra ser um inferno p,ra ela própria. Tem um porem: essa onda de assalto a mão armada hj em dia, dizer q tem condições de acabar, tem. Se a polícia ñ quisesse combater, o povão de mãos dadas uns aos outros combateria e deixar de custear diária de detento na penitenciária como se fosse hotel e o povão q são uns imbecis, acha q é o governo q tá custeando essa diária.

cardoso veras disse...

Minha bisa dizia! "a iginorança é uam bença" uma frase um pouco modificada devido a sua falta de estudo. Entretanto esse repórter que voz tecla e também policial militar, excluído por duas vezes da PMRN, e que também sou um interessado na história do cangaço, tenho uns por menores a acrescentar: - O pequeno grupo do bando de Lampião, estava aqui com um propósito "Matar o Prefeito Rodolfo Fernandes" mas não matar por matar mas sim, para horam com um contrato feito por uma tradicional família, família essa que até hoje manda e desmanda nessa cidade de Mossoró. Jararaca estava na linha de trem ferido e pediu para um desconhecido que passava ali que, trouxesse um médico e o desconhecido trouxe a volante "Polícia". Jararaca foi preso, contou do contrato de morte do prefeito e os policiais disseram " vamos até o prefeito contar essa historia" era uma delação e o prêmio os senhores já sabem. Espero ter colaborado. Um adendo, a primeira letra da família tradicional é Rosado.

Mendes e Mendes disse...

Grande Gustavo Miranda:

Em meu comentário eu não menosprezo a polícia, e sei o quanto ela é valorosa para uma cidade ou comunidade. O que me refiro é a maneira como foi morto o cangaceiro. Só isso! A polícia tanto militar como civil são de grandes importâncias para manterem a segurança. Nada contra a elas. Repito, apenas falo a maneira como foi assassinado o cangaceiro, vez que ele já se encontrava algemado e preso..

Alexei José disse...

Mas enfim, Jararaca morreu em Natal, executado com um tiro na nuca ou foi enterrado ainda vivo em Mossoró?

Tati And Tuim De jesus disse...

a volante é mais cruel e assassino sanguinario bem mais pior que o cangaceiro,policia assassina do nordeste, se fosse hoje essa volante estaria aprodecendo na cadeia

wilma fernandes disse...

Tbm quero sabe...Jararaca foi enterrado vivo?

Kleber Costa disse...

Rapaz, minha opinião é que Cangaceiro nenhum era bonzinho! deveríamos entender melhor isso. Roubavam, Matavam, Pilhavam, Estupravam e Torturavam de maneira muito comum. Aqui no RN, na própria cidade de Mossoró, no dia de Finados, se visita mais o túmulo de Jararaca do que do saudoso Prefeito Rodolfo Fernandes, homem brioso que defendeu a cidade e sua gente. A questão da violência das Volantes se traduz no trato que os Cangaceiros davam aos Policiais, matando-os de forma impiedosa e cruel, tanto eles como familiares seus. Se criou as chamadas "Dívidas de Sangue", onde uma morte era paga com outra. Devemos lembrar sempre da coragem daqueles que pegaram em armas contra o Banditismo no Nordeste do Cangaço.