Nirez o Guardião de Nossa Memória

Nirez por Igor de Melo

Impossível pensar na memória de Fortaleza, capital cearense, sem citar o nome de seu mais fiel e significativo guardião:Miguel Ângelo de Azevedo, ou como todos conhecem: Nirez. Sua paixão por colecionar a memória de seu lugar vem desde os idos de 1950, são mais de meio século de trabalho árduo, porém prazeroso, para hoje se destacar como um verdadeiro Museu de nossa cidade, o Arquivo Nirez.

Na tarde deste último sábado, 25 de março, os salões da Caixa Cultural de Fortaleza recebeu para contar essa historia um descontraído e inspirado Nirez, que para uma platéia atenta que lotou todas as dependências do espaço cultural, puderam aprender e conhecer um pouco mais desse que já consideramos um mito da memória fortalezense.

 Ingrid Rebouças e a Exposição do Arquivo Nirez na Caixa Cultural
Manoel Severo e a lembrança do Cariri Cangaço a Nirez
Paulo Vanderley, Aderbal Nogueira e Manoel Severo

O Arquivo Nirez em exposição na Caixa Cultural tem sua sede na residencia do memorialista em Fortaleza. Ali décadas de historia se acotovelam por entre todos os cantos do local; temos uma das mais importantes discotecas especializadas sobre MPB do Brasil, discos de 78 rpm, literatura preciosa sobre a historia da música; autores, interpretes, grupos; e o maior e mais importante acervo fotografico da cidade de Fortaleza, além de rótulos e cartazes, caixas de fósforo e publicidades dos tempos do "ronca", um acervo espetacular de maos de 140 mil peças.

 Manoel Severo, Ingrid Rebouças e Nirez na Caixa Cultural

A exposição tem a curadoria do próprio Nirez e também de Weaver Lima, a exposição na CAIXA Cultural de Fortaleza traz peças que pela primeira vez estão sendo expostas fora da casa do colecionador. "É uma parte do meu sonho. Eu sempre quis levar toda a população de Fortaleza para conhecer o meu acervo. Como isso não é possível, eu criei várias formas de levar o acervo às pessoas. Pelo programa de rádio, as músicas, e pelas exposições, as imagens. Mantive por muito tempo uma página de jornal, mas aqui na exposição é muito melhor mesmo", deslumbra-se Nirez para o portal G1. Vale a pena visitar.

Manoel Severo, Curador do Cariri Cangaço
Fortaleza, 25 de março de 2017

A Gênese do Bantidismo Rural Por:Jorge Remígio


A gênese do banditismo rural, posteriormente rotulado de cangaço, está na própria estrutura, na formação do Sertão como identidade cultural. O seu povoamento foi forjado na violência, nas disputas e apropriação de um espaço ocupado pelos gentios, os quais já haviam sido tangidos do litoral. O banditismo rural não foi uma exclusividade brasileira. Na história de vários países existiu esse fenômeno. Porém, não específico como o nosso. 

Os primeiros registros sobre esse atavismo social se dá com notícias do salteador José Gomes, apelidado de Cabeleira, que atuou na zona da mata pernambucana. Preso e condenado à forca é executado em 1776 em Recife. Porém, é na região que compreende o Sertão de alguns estados do Nordeste, vale salientar que essa terminologia é recente, que vai proliferar esse tipo de banditismo. 

Em 1850, já se registrava uma inquietação na população rural em relação aos assaltos e violências físicas e patrimoniais de que eram vítimas desses bandos armados de malfeitores. Mas, a década que compreende os anos de 1870 a 1880, destaca-se pelo afloramento de vários bandos armados, agindo principalmente nos Sertões dos Estados de Pernambuco, Ceará e Paraíba. Destaque para os Viriatos, os Meireles, Jesuíno Brilhante, Adolfo Meia Noite, João Calango entre outros menos expressivos. 

Narciso Dias, Netinho Flor e Jorge Remígio em dia de Cariri Cangaço
  
O uso do termo CANGACEIRO, para definir os integrantes desses grupos armados, só ocorrerá no final do século XIX, com o início do cangaço de Antônio Silvino (1875-1944). Portanto, entendo que o cangaceiro foi uma mão de obra atrelada a terra que desgarrou das amarras do latifúndio e passa a exercer uma atividade bandoleira e lucrativa obviamente, porém, de alguma forma, ainda ligado à estrutura coronelística. Uma vez que dependem do apoio estratégico dos donos do poder nos ermos sertões, no suprimento de armas, munição principalmente, coito seguro, víveres etc... 

Os cangaceiros eram salteadores, bandidos rurais sem consciência política e nenhum pensamento de transformação daquela sociedade. Totalmente alheios às contradições sistemáticas. O ingresso de jovens nas hostes cangaceiras, se dava em sua grande maioria, visando uma melhora na vida. Faziam daquela nova atividade, uma “profissão”. No dizer de Maximiliano Campos: “ Viver sem lei e nem rei”


Jorge Remígio, pesquisador
Membro do GPEC, Conselheiro do Cariri Cangaço
João Pessoa, 20 de março de 2017

Serra Grande Desvendada... Lançamento por:Louro Teles


Serra Grande, pedaço de chão encravado no sertão pernambucano de Virgulino Ferreira, serra enigmática com seus mais de 900 metros de altitude situada entre os municípios de Calumbi, Flores e Serra Talhada, no famoso Vale do Pajeú. Serra Grande, palco do maior combate que o cangaço de Lampião protagonizou ao longo de seus 20 anos de reinado.

O pesquisador Lourinaldo Teles, unindo seu talento nato de farejador das caatingas a um senso de determinação impressionante nos traz sua primeira Obra, com um olhar totalmente diferenciado sobre esse que sem duvidas trata-se de um dos episódios mais importantes desta saga nordestina. Calumbi; seu berço e terra natal entra para a historiografia do cangaço como o cenário da maior batalha de todos os tempos, envolvendo cangaceiros e volantes. 

Louro Teles como é mais conhecido o autor, veio ao longo dos anos aprimorando sua capacidade de investigar. Inúmeras entrevistas, checagens, confrontos de informações, vasta documentação, visitas iminentemente técnicas ao cenário de “guerra” unido a uma pesquisa criteriosa à bibliografia sobre o tema, nos permitem agora receber essa obra realmente valiosa sobre Serra Grande, inclusive com o passo a passo da estratégia dos cangaceiros liderados por Virgulino Ferreira da Silva, que impuseram uma derrota impressionante às forças volantes.
Louro Teles nos leva e desvenda Serra Grande...

Os números são impressionantes até para aqueles que são afeitos ao estudo do fenômeno: 10 mortos, 14 feridos, quase 300 militares numa sanha desesperada em busca de dar fim a Virgulino com seus mais de 115 cangaceiros; foram cerca de 3 mil tiros em quase 10 horas de combate naquele longínquo 26 de novembro de 1926.

O combate de Serra Grande vem situar-se entre duas das mais polêmicas passagens da saga do filho de seu Zé Ferreira, vulgo Lampião, a saber; em Março do mesmo ano o rei dos cangaceiros visita Juazeiro do Norte para se integrar às forças dos Batalhões Patrióticos e receber fardamento e armas na Meca de padre Cícero Romão Batista e logo em seguida ao combate que ocorreu em novembro, escreveria a ousada carta ao governador de Pernambuco, Júlio de Melo, sugerindo a divisão do território pernambucano entre os dois.
Manoel Severo e Louro Teles

Outra polêmica acaba nos conduzindo ao grande combate; o que teria realmente acontecido em relação à morte do irmão do cangaceiro mais famoso da história? Antonio Ferreira; irmão de Virgulino e seu braço direito; teria tido sua vida ceifada a partir de um “sucesso” envolvendo Luiz Pedro na fazenda Poço do Ferro, de Ângelo da Gia, em meados de 1926 ou inicio de 1927, mas existem pesquisadores que defendem a hipótese que a morte estaria diretamente ligada a ferimentos recebidos pelo cangaceiro no sangrento combate de Serra Grande, onde está a verdade?

Louro Teles ainda nos traz outro foco na presente obra: A ligação de Lampião com Calumbi. Desde os tempos em que a família Ferreira dedicava-se ao oficio de almocreve. O autor nos apresenta a amizade do rei do cangaço com moradores do lugar, os coiteiros, os amigos, os inimigos, um surpreendente romance e até um suposto filho do rei cego com uma menina chamada Tatu. Estupro, a briga de Lampião com o primeiro prefeito, o processo movido pelo delegado da cidade e a invasão de Calumbi por Lampião e 50 cangaceiros, fazem da obra, o mais autentico registro da passagem de Virgulino Ferreira no antigo distrito de Flores: Calumbi.


Louro Teles, João de Sousa Lima, Manoel Severo e Afrânio Gomes

“A maior batalha de Lampião: Serra Grande e a Invasão de Calumbi” é uma dessas obras imprescindíveis não só para os amantes da temática, mas e principalmente para os pesquisadores, pelo conjunto responsável de informações e pela riqueza de detalhes que envolve um dos episódios mais comentados dos vinte anos de reinado de Lampião.

A leitura se torna fácil e extremamente atraente, a linguagem utilizada por Louro Teles nos envolve e nos transporta no tempo e ao lugar. Em determinadas passagens podemos ate crer que a qualquer momento seremos surpreendidos pelos cabras de Virgulino ou mesmo por homens de Quelé ou Mané Neto por entre a caatinga e o relevo de Serra Grande.

Uma obra que veio para ficar, dentre as centenas que já podem ser encontradas na bibliografia cangaceira, na verdade todos estamos de parabéns: O autor Louro Teles, a cidade de Calumbi, a história do cangaço e principalmente os leitores. Boa leitura em breve... 

Prefácio da Obra por:
Manoel Severo Barbosa, Curador do Cariri Cangaço
Diretor da SBEC – Sócio do GECC, GPEC e GFEC


GRANDE LANÇAMENTO
Dia 01 de Abril de 2017
Câmara Municipal de Calumbi
16 horas

Noite de Luxo para a Invasão de Lavras em Livro de Calixto Junior

Assembléia recebe lançamento da Obra de Calixto Junior

O Auditório Murilo Aguiar, na Assembléia Legislativa do Estado do Ceará, recebeu na noite desta quinta-feira, dia 23, o Lançamento do mais novo livro do pesquisador e escritor, professor doutor João Tavares Calixto Junior; " Considerações sobre a Invasão de Lavras em 1910" , numa segunda edição, revisada e ampliada, que nos traz um dos recortes mais importantes e significativos da historiografia do ciclo da velha república e das deposições pela força, que imperavam no sul do estado do Ceará nos primeiros idos do século passado.

Com a brilhante apresentação do poeta e escritor, membro da Academia Cearense de Letras, Dimas Macedo, todos que estiveram presentes ao lançamento puderem perceber a grandiosidade da Obra do professor Calixto Junior, dentro do esforço de recontar de maneira magistral e a partir de um trabalho minucioso de pesquisa cientifica esse que se configura como um dos maiores episódios daquela época, onde despontava o "império do bacamarte": " Essa monarquia, essa república, esse império dos coronéis foi uma instituição constitucional no Ceará, legitimada pela força da politica e em Lavras esse ciclo acontece de uma forma diferente pois os figurões da politica do cariri tentavam depor o coronel Gustavo Augusto Lima  e Gustavo a despeito de ser um politico extraordinário, era filha de Fideralina Augusto Lima, e era o predileto;  e foi aí que a ousadia não conseguiu triunfar. Foi o primeiro episódio do ciclo de deposições pelas armas, no cariri, onde o mandatário não foi deposto pelo ousado e destemido Quinco Vasques...Um episódio extraordinário, que por si só daria um sensacional filme."Reforça Dimas Macedo e conclui:"O professor Calixto Junior rastreou desde os primeiros momentos e os bastidores do antes e as repercussões desse episódio, sem dúvidas, fantástico."


Mesa que presidiu a solenidade e a apresentação do escritor Dimas Macedo 

A mesa da solenidade foi presidida pelo deputado estadual Heitor Ferrer, descendente direto do clã dos Augusto de dona Fideralina de Lavras. "Quando menino pequeno me acostumei a ouvir meu pai contando todos esses episódios com riqueza de detalhes. O professor Calixto Junior está de parabéns e a Assembléia Legislativa do Ceara se sente honrada por acolher esse lançamento" reforça o deputado Heitor Ferrer. Para a Presidente da Academia de Letras de Lavras da Mangabeira, Conselheira Cariri Cangaço, poetisa e escritora Cristina Couto, "uma noite memorável quando novamente o Júnior nos presenteia a todos com um livro fenomenal".

 Manoel Severo, Desembargador Lincon, Calixto Junior e deputado Heitor Ferrer
Escritor Calixto Junior apresenta sua obra... 

"Nosso livro retrata um dos momentos mais marcantes do coronelismo do nordeste, talvez os mais importantes e significativos episódios desse ciclo. Começo trazendo desde a deposição do Coronel Honório Augusto Lima em 1907 em Lavras pela própria mãe, dona Fideralina e seu outro filho coronel Gustavo, passando pelo episodio da deposição do coronel Totonho do Monte Alegre em Aurora em 1908, por vários coronéis da região, episódios esses interligados e sem dúvidas configurando-se como os principais motivos da invasão a Lavras por Quinco Vasques dois anos depois, em 1910, aqui retratado." Revela o autor, João Tavares Calixto Junior.

 Antônio Tomaz, Cristina Couto, Calixto Junior, Manoel Severo, 
Professor Rui, Dimas Macedo
 Dimas Macedo e Manoel Severo
 Manoel Severo e Deputado Heitor Ferrer
 Malvinier Macedo e Manoel Severo
 Aderbal Nogueira, Manoel Severo e casal Dimas Macedo
Manoel Severo, Joao de Lemos e Angelo Osmiro
 Manoel Severo e poeta Vicente Furtado
Ingrid Rebouças, Tomaz e Afranio Gomes

"No amanhecer de sete de abril de 1910 o centro da cidade de Lavras da Mangabeira, no Centro-Sul cearense, era invadido por cangaceiros comandados por Joaquim Vasques Landim, o Quinco Vasques. Era político o intento, e como alvo, o mandão provisionado do feudo de Dona Fideralina – o Coronel Gustavo Lima. Não são muitos os relatos literários que atentem com riqueza de detalhes a este objeto, e ao presente trabalho, interessa uma tentativa de interpretação através do comparativo de duas versões díspares, principalmente. Nas páginas de O Rebate, periódico que circulou no Cariri entre julho de 1909 e setembro de 1911, nota-se uma destas versões, assegurada por seu redator principal, o Padre Joaquim de Alencar Peixoto. No jornal, uma série de cinco artigos atribui aos coronéis do Crato, inimigos declarados do Pe. Peixoto, participação crucial no evento. A outra versão apoia-se em autos de inquérito e em depoimentos do próprio Quinco Vasques, assim como de testemunhos e atenta à participação dos deportados de Aurora junto aos inimigos políticos lavrenses, próprios parentes do Cel. Gustavo, a fim de expulsarem-no, à bala, do poder municipal. Este episódio configurou-se como um dos de maior repercussão no cenário coronelístico do Nordeste do Brasil, à época, não só pela tentativa de deposição, propriamente, mas pela audácia na violação da predominância política estabelecida pela matrona Fideralina 
e o clã dos Augustos."   

Dentre os presentes, o Presidente do Instituto dos Advogados do Ceará, João Gonçalves de Lemos, o Presidente do GECC, Ângelo Osmiro, a Presidente da Academia Lavrense de Letras, escritora Cristina Couto, o curador do Cariri Cangaço, Manoel Severo, os pesquisadores Aderbal Nogueira, Tomaz Cisne, Afrânio Gomes, Vicente Furtado, Malvinier Macedo, Professor Rui, Lucia Macedo, Fátima Lemos, dentro muitos outros.

 Antonio Tomaz e Calixto Junior
Ingrid Rebouças, Calixto Junior e Manoel Severo

Cariri Cangaço
Lançamento, Assembléia Legislativa do Ceara
23 de março de 2017

As Mandalas e a Arte do Chapéu de Couro Por:Geziel Moura


Recentemente, participei na qualidade de ouvinte, de palestra proferida na Universidade Federal do Pará, pelo Prof.Dr. Amilcar Martins, pesquisador da Universidade Aberta de Lisboa, e especialista em "Mandalas", assunto que foi tema principal de sua conferência. No final da fala do professor, mostrei a ele, algumas imagens dos florais que ornamentaram, as indumentárias dos cangaceiros, principalmente os chapéus, e perguntei se era possível considerar, tais elementos artísticos, como "Mandalas", no que de pronto me respondeu "Possui elementos de "Mandalas", mas não se caracterizam como elas".



Minha pergunta, não tinha como objetivo, encontrar pontos de semelhanças entre uma produção artística, proveniente da China e do Japão, para encontrar origem e/ou justificar aquelas que foram fabricadas pelos cangaceiros nordestino, tenho ciência, que o fenômeno do cangaço e suas formas estéticas, não segue uma continuidade de culturas, diferentes ou estranhas, daquelas que os próprios cangaceiros experimentaram e estavam inseridos, ou seja, a cultura nordestina, em última análise. Porém o que eu queria, com a pergunta, pensar pontos de "avizinhamentos", daquela cultura asiática com a cultura do cangaço, sem ter a pretensão, como disse anteriormente, de estabelecer condições, do aparecimento de uma, em função da outra, isto de fato, não existe.



As "Mandalas" assim como os símbolos florais dos cangaceiros, foram/são produzidos a partir de um circulo, e no interior deste aparecem a complexidade de diversas figuras geometricamente exatas, e há certo caráter de expressão artística e religiosa, no intuito de sua fabricação.Temos, portanto, dois elementos a pensar sobre as "Mandalas" e os elementos florais dos cangaceiros: O primeiro é a presença do círculo, em ambas expressões artísticas, que para a cultura asiática significa, concentração de energia e a segunda são as formas geométricas dentro daquele círculo, sendo que na arte dos cangaceiros, tais figuras são mais simples, que nas "Mandalas".

O pesquisador Frederico Pernambucano de Mello que grande contribuição deu para a historiografia do cangaço e a arte dos cangaceiros, manifestou em seu livro "Estrelas de Couros : A Estética do Cangaço, que os símbolos estilizados, nos equipamentos dos cangaceiros, tinham funções ornamentais e principalmente espirituais, que ajudavam na proteção, daí serem colocados na parte frontal e traseira do chapéu, defendendo os males que vem pela frente e pela retaguarda.
Parece-me razoável pensar, que tais símbolos, sempre existiram no cotidiano dos sertanejos, surgem nas fachadas das igrejas, casas e cemitérios, a novidade é que tais símbolos, deixaram a arquitetura e passaram a compor o vestuário do cangaceiro, produzindo a estética do cangaço e do nordeste.
Fotos: Estrela de Couro: A Estética do Cangaço 
Fotos: Geziel Moura
Geziel Moura, pesquisador.

Padre Cícero, Lampião e Coronéis, Novo Livro de Daniel Walker


A vida política de Padre Cícero é tão importante quanto a sua vida religiosa, pois ambas foram polêmicas. Como religioso ele esteve sempre às turras com as autoridades eclesiásticas, que o censuravam por causa da questão do milagre da hóstia; como político ele sempre procurou manter uma conduta de harmonia e paz, embora isso em alguns momentos não tenha sido possível. Na verdade, ele nunca quis ser político, como explicou no seu Testamento. 

Sua opção pelo caminho sinuoso da política se deu de forma circunstancial e isso foi explorado de várias maneiras pelos seus biógrafos, não havendo ainda consenso. Diante do que foi publicado até hoje, dá para perceber que ninguém acredita na explicação dada por ele mesmo. E não poderia ser diferente, pois em se tratando do Padre Cícero tudo é controverso. Sua vida, tão cheia de ambiguidade, jamais deixará de ser dissecada pela caneta dos seus biógrafos, cujos trabalhos já renderam uma bibliografia com mais de 500 títulos. 

Neste trabalho, minha análise da vida política do Padre Cícero está baseada em dois eventos significativos e polêmicos: a outorga da patente de Capitão a Lampião (1926) e o Pacto dos Coronéis (1911). Segundo os pesquisadores, a vida política do Padre Cícero só foi tumultuada porque colada a ela, como uma espécie de alter ego, esteve a figura emblemática do médico baiano adotado pelo Juazeiro, Dr. Floro Bartholomeu da Costa. Este estudo deixa evidente que a vida política de Padre Cícero está intrinsecamente ligada à de Floro, mas realmente era o médico baiano quem de fato articulava ou maquinava tudo com ou sem o consentimento do Padre Cícero. 


Manoel Severo e Daniel Walker

Foi ele, com habilidade e astúcia, quem colocou Padre Cícero no miolo da política cearense, despertando contra o ingênuo Padre novato em política todo o rancor dos adversários. E como Padre Cícero pagou caro por isso! A vida política do Santo dos Nordestinos é o retrato mais fiel da sua transição de reverendo a lutador, fato notório que se repetiu em mais dois fenômenos igualmente polêmicos: sua participação no movimento de emancipação política de Juazeiro (1911) e na Sedição de 1914. 

Daniel Walker, pesquisador e escritor 
Juazeiro do Norte, Ceará

NOTA:O livro está à venda ao preço de R$ 30,00 com frete grátis. Pedido diretamente ao autor pelo e-mail: professordaniel@hotmail.com.br ou celular/WhatsUpp 98835 6303 Ou no Sebo Alan Poe - Solaris. Rua Av. Padre Cícero, 1227 - Centro, Juazeiro do Norte - CE E ainda: Coelhos Hotel. Rua do Cruzeiro/Praça Padre Cícero. Banca de Revistas de César. Praça Padre Cícero

Cariri Cangaço chega à 18ª edição na cidade de Exu


Reprodução na íntegra de entrevista prestada pelo Curador do Cariri Cangaço, Manoel Severo ao blog paraibano, Festar Muito, ao jornalista José Carlos dos Anjos Wallach.

Uma permanente busca pela história e pelas verdades do cangaço no Brasil. Esse é o fio condutor do Cariri Cangaço, um evento que se realiza anualmente desde 2009, reunindo historiadores, pesquisadores e, em muitos casos, testemunhas da atuação dos cangaceiros no Nordeste.
Ele explica que o Cariri Cangaço é um evento de cunho turístico-cultural e histórico-científico, que reúne os mais destacados pesquisadores e historiadores das temáticas cangaço, coronelismo, misticismo, messianismo e correlatos ao Sertão nordestino. “Em seu oitavo ano, configura-se como o maior e mais respeitado evento do gênero do país”, garante.Manoel Severo Gurgel Barbosa, fundador e curador do Cariri Cangaço, respondeu por email algumas perguntas do blog, contextualizando o evento e dando a exata noção sobre sua dimensão e objetivos.
As discussões de sua programação são conduzidas por personalidades locais, regionais e nacionais. São promovidos debates, palestras, visitas técnicas e acadêmicas, mostras de cinema e vídeo, exposições de arte e feiras literárias.
Itinerante, o Cariri Cangaço já passou por 19 cidades dos Estados de Pernambuco, Paraíba, Ceará, Alagoas e Sergipe desde 2009, quando realizou-se pela primeira vez.

Resultado de um sonho
O evento era um sonho recorrente de Manoel Severo quando garoto: “Desde menino me encantava com as histórias dos cangaceiros, suas sagas, aventuras, e notadamente o bando de Lampião; sem dúvidas o de maior destaque e de maior longevidade dentre todos. A motivação pelo fascínio daquele menino, ainda com seus oito anos de idade, pelo universo do cangaço, talvez se confunda com o fascínio que até hoje o cangaço desperta em todos os amantes e curiosos da temática”, explica o criador do evento.
Já adulto, ele focou a literatura sobre o cangaço e consolidou a paixão pelo tema: “Me dediquei a buscar novas fontes. Participar dos primeiros seminários seria inevitável, e assim aconteceu em Serra Talhada, Mossoró, Paulo Afonso. Nesse vai e vem por entre as terras pisadas por Lampião, acabamos por nos aproximar dos ‘vaqueiros da história’ e a partir dai resolvemos criar o Cariri Cangaço. Desde o primeiro momento recebemos o incondicional apoio da Sociedade Brasileira de Estudos do Cangaço (SBEC), e ainda de várias outras instituições tanto governamentais como não governamentais”, conta.
Hoje o Cariri Cangaço é mantido pelo Instituto Cariri do Brasil, uma entidade cultural de personalidade jurídica, e tem um Conselho Consultivo com 30 membros, pesquisadores das temáticas nordestinas. Também é apoiado pelos principais grupos de estudos do cangaço do brasil (SBEC – GECC – GPEC – GFEC), além de órgãos e instituições dos municípios que sediam o evento.

Só o debate
Manoel Severo explica que o evento não nasceu com o sentimento de fazer apologia ao cangaço, aos cangaceiros ou à violência, assim como não busca por elementos que endeusem Virgulino Lampião, ou qualquer outro personagem dessa saga nordestina, que classifica como “penosa e cheia de dor”.
O historiador reafirma que o sentimento que move a todos que fazem o Cariri Cangaço é o de criar um ambiente de debate e aprofundamento. Ele considera que o grande legado do evento é trazer luz a muitos dos aspectos desse tema controverso.

A entrevista:
Polêmica virou história
Festar – Qual a definição do Cariri Cangaço sobre a atuação dos cangaceiros no sertão nordestino? Há posicionamentos distintos que apontam os cangaceiros como bandidos comuns, outros que os colocam na condição de integrantes de um movimento que se rebelou contra injustiças dos senhores de posses na região: o que há de verdade nessas duas visões?
Severo – Costumamos dizer que a polêmica entre o caráter do cangaço, ou de Lampião: herói ou bandido, já faz parte de um tempo passado. Atualmente com o desenvolvimento de um novo olhar sobre o cangaço, principalmente com a chegada das universidades, temos a cada dia uma convicção mais lúcida de que Lampião e o Cangaço representam História e dessa forma precisam ser estudados e compreendidos. Certamente existem olhares e definições distintas, mesmo entre os maiores pesquisadores, mas até esses pensamentos distintos e controversos são importantes na direção da busca da verdade histórica.
Festar – E como a Paraíba se insere no mapa do cangaço nordestino?
Severo – Notadamente dentro do que chamamos de “primeiro reinado” de Virgulino Ferreira; entre os anos de 1922 e 1928; o estado da Paraíba veio a se consolidar como um dos cenários mais importantes das ações do bando mais famoso do cangaço. Municípios como Princesa, Sousa, Cajazeiras, enfim, se tornaram protagonistas de ações importantes de Lampião e seu bando. Personagens como coronel Zé Pereira, Marcolino Diniz, Clementino Quelé, Meia Noite, Sabino Gomes, dentre tantos outros confirmam a Paraíba como um dos estados centrais da ação de Virgulino.
Festar – O senhor, como estudioso do tema e pesquisador, vê algum link entre o cangaço vivido no início do século passado e situações vivenciadas hoje nas pequenas cidades do interior nordestino?
Severo – Temos uma tendência natural em estabelecer algum tipo de relação entre a violência da época do cangaço e situações vividas atualmente em alguns rincões de nosso sertão, entretanto, eu particularmente não acho conveniente esse tipo de comparação. Não se pode estabelecer nenhum tipo de similaridade entre o caráter de um fenômeno como o cangaço e a violência de hoje, são situações totalmente distintas, com origens efetivamente distintas e capilaridades também distintas. Não se pode ter uma visão míope sobre as duas coisas.
Festar – O próximo evento do Cariri Cangaço ocorrerá em Exu (PE). O que está programado? Qual a temática dessa vez? Qual a expectativa do número de participantes? Será apresentado lá algum estudo novo sobre o cangaço?
Severo – Sem dúvidas. Exu será nossa 18ª edição, o estado de Pernambuco que já realiza o Cariri Cangaço em Floresta e Nazaré do Pico, consolida sua presença no Cariri Cangaço com Exu e Serrita entre os dias 20 e 23 de julho deste 2017. Estamos trabalhando uma programação que possa contemplar a grandeza histórica e a tradição desses dois municípios. Teremos Conferencias sobre um dos maiores vultos históricos do Brasil, a heroína, filha de Exu, Bárbara de Alencar; sobre um dos mais emblemáticos conflitos familiares do Brasil, envolvendo as famílias Sampaio, Alencar e Saraiva; um momento importante sobre o Fogo da Ipueira dos Xavier, uma das mais importantes resistências a Lampião, acontecida em Serrita, e sem dúvidas estaremos também reunindo os maiores pesquisadores sobre o mais ilustre filho de Exu: Luiz Gonzaga. Realmente um grande inesquecível evento.
(*) Manoel Severo Gurgel Barbosa é fundador e Curador do Cariri Cangaço, Presidente do Conselho Consultivo, Diretor da SBEC – Sociedade Brasileira de Estudos do Cangaço; Diretor do GECC – Grupo de Estudos do Cangaço do Ceará; Sócio Honorário do GPEC e do GFEC.
(José Carlos dos Anjos Wallach)
http://festarmuito.com/cariri-cangaco-chega-a-18a-edicao-na-cidade-de-exu/

Ainda Floresta !!!


Nossa Caravana de Carnaval por terras do Cariri Cangaço além de contemplar o conjunto de reuniões e encontros de trabalho ainda nos permitiu sem dúvidas, rever muitos amigos e estreitar ainda mais os laços de fraternidade que são a marca do Cariri Cangaço. Por onde passamos procuramos consolidar o sentimento de gratidão a todos que nos ajudam a realizar esse empreendimento.

Floresta e a Festa de Carnaval Infantil 
Elane, Manoel Serafim e Ingrid Rebouças
Elane, Ana Gleide, Ingrid e Betinho Numeriano

Em Floresta além de realizarmos uma grande reunião com a presença de pesquisadores, agentes culturais, autoridades municipais, enfim, tivemos a grata oportunidade de participar de desfile de carnaval com o bloco infantil da cidade, uma promoção do Departamento de Cultura de Floresta, à frente o companheiro Vavá e a querida Amélia Araújo. No berço do cangaço as novas gerações celebravam a alegria ao som de marchinhas e muito sambinha no pé, o que nos permitiu revitalizar as forças para continuar a caminhada.

Archimedes Marques, Manoel Serafim, Dadá, Manoel Severo e Elane Marques

Ainda em Floresta a atenção de Maria das Graças Novaes Ferraz, a conhecida Dadá, Gerente Geral do Floresta Hotel na recepção a todos da Caravana e a certeza que o Floresta Hotel é a Casa do Cariri Cangaço em Floresta. “O Floresta Hotel já está reservado por completo para o Cariri Cangaço, todos os nossos quartos já estão bloqueados para o evento, só esperando as ordens de nosso comandante Severo” completa Dadá. Sem dúvidas Floresta mais uma vez estará comprometida em acolher com hospitalidade sem igual aos convidados do Cariri Cangaço.

Zé Emílio, Dilma Marques e a Caravana Cariri Cangaço

Também em Floresta, mais duas visitas vitais. A professora Dilma Marques, Gerente Geral da GRE Sertão do Submédio São Francisco , que contempla os municípios de Floresta, Belém do São Francisco, Carnaubeira da Penha, Itacuruba, Jatobá, Petrolândia e Tacaratu, grande entusiasta do Cariri Cangaço e parceira desde o primeiro momento ainda no planejamento em 2016, novamente confirma a presença forte da GRE no grande Cariri Cangaço Floresta 2017. “Severo pode ficar certo que estaremos juntos novamente neste ano de 2017, vamos reunir todos para aquele almoço sertanejo e um grande forró pé de serra” confirma Dilma Marques.

Manoel Severo, Alaíde Cavalcante, Archimedes e Elane Marques e Manoel Serafim

Não poderíamos sair de Floresta sem visitar uma das famílias mais emblemáticas do ciclo do combate a Virgulino; a família de Neco de Pautilha; nazareno da gota serena; na figura de sua filha, nossa amiga Alaíde Cavalcante, com uma simpatia ímpar e a certeza da presença em mais um Cariri Cangaço Floresta, desta vez entre os dias 12 e 15 de Outubro de 2017.

Carmelita e Marcos de "Carmelita"
Aniversário de Marcos de Carmelita em Floresta
Cariri Cangaço nas escadarias da Igreja do Rosário, visita fundamental 
no Cariri Cangaço Floresta 2017

E por fim nossa estadia ainda coincidiu com o aniversário do pesquisador e escritor Marcos de Carmelita. A casa de sua família esta estrategicamente localizada bem em frente a praça principal de Floresta, de fronte aos tamarineiros e de lado da Igrejinha de Nossa Senhora do Rosário, onde casaram os pais de Virgulino. Ali reunimos os amigos e como não poderia deixar de ser a atenção redobrada da querida Carmelita, mãe de Marcos, uma pessoa excepcional !!!

Manoel Severo, Curador do Cariri Cangaço
27 de Fevereiro de 2017
Floresta, Pernambuco