Lampião o Metamorfo Por:Raul Meneleu

Raul Meneleu e Manoel Severo

Segundo a mitologia, Metamorfos são seres que se transformam no que querem. Começam humanos, mas mais tarde aprendem a mudar sua forma, apenas observando quem querem ser. Metamorfose, também conhecida como transformação, é uma mudança na forma ou no formato de uma pessoa, especialmente uma mudança da forma humana, de forma animal ou uma mudança na forma de aparição de uma pessoa para outra. 

Quando um Metamorfo toma a forma da pessoa que escolheu para se transformar, eles literalmente mudam a sua pele, dentes e unhas. Quando eles mudam para a pessoa que desejaram, eles acessam os pensamentos dessa pessoa que estão imitando. A única coisa que pode matar um Metamorfo é prata, bala ou lâmina no coração.

Todos metamorfos descedem de um Alfa. Existem muitas lendas sobre ele , e sem duvida é o primeiro e o mais poderoso,  capaz de transformar sem de forma imediata sem perda de pele. Seu intelecto , força , resistência e reflexos são bem maiores , sendo que ele tambem tem um vínculo psiquico com todos os seres, sendo capaz ate de sentir sua localização.



Lampião, podemos dizer, que tinha as características de um Ser Metamorfo. Se formos analisar sua vida, podemos encontrar diversos motivos para avaliarmos assim. Até mesmo podemos dizer que ele quando quis morrer, não o fez pelas próprias mãos e sim, pelo raciocínio lógico imposto por ele próprio, para isso. Deixou-se apanhar, relaxando a guarda do grupo, e com cerca de 40 (quarenta) anos, estava farto de viver e planejou sua morte como se planeja algo corriqueiro. Deixou-se abater e como um rei faraônico, levando para a sua sepultura, concubinas e servos seus. Que outra forma podemos explicar Angico?
Sua metamorfose iniciou muito cedo, ainda menino, quando se destacava na escola como um jovem de inteligência maior que a dos outros.

Era muito ágil, dificilmente foi acertado por um tiro ou golpe; poucas vezes o foi. Tinha a capacidade de saber se a pessoa que falava mentia ou tentava o enganar, assim como metamorfos leem a mente de outras pessoas. Era impenetrável mantendo o bloqueio em sua mente contra qualquer um que tentasse decifrar seus pensamentos. Atraia suas vitimas, com ardis e usava seu poder de metamorfose para viajar sem ser notado. Alguns diziam que fazia isso em forma de animal, como uma coruja, um lobo e ate morcegos. Usava óculos sem ter necessidade de lentes corretivas. O jornal O Povo de Fortaleza, de 5 de agosto de 1928, descreve esses óculos "com vidros esfumaçados, engastados em tartaruga e ouro, com o fim de encobrir um extenso leucoma da córnea do olho direito" - tudo bem que fosse isso,  mas podemos pensar que era para esconder as mutações que seus olhos realizavam, deformando-se pavorosamente ao olhar para as pessoas e essas não desmaiassem de pavor. 
Raul Meneleu e João de Sousa Lima
Seu corpo esquelético sofria mutações e deformações, como a cor da pele, pés e mãos. Lampião foi aquele que Elise Grunspan-Jasmin disse que era "guerreiro valoroso, e não um homem alquebrado, que sobrevive apesar dos ferimentos". Temos vários relatos de "repentes" que Lampião tinha, inclusive criar uma mística qualidade de prever algo ou receber avisos de forças estranhas.

Em seu livro, "Lampião: o homem que amava as mulheres : o imaginário do cangaço" Daniel Soares Lins diz que "ao pesquisador do imaginário enveredar tanto no campo dos discursos quanto na estrutura das práticas históricas, buscando encontrar nos "fatos históricos" os "resíduos" colados aos personagens. O sonho, a quimera, a mística, a paixão, o "tempo mágico" e os rituais deveriam ser compreendidos como práticas racionais, respondendo, contudo, a uma outra ordem simbólica, a uma outra organização dos signos e dos imaginários."


Continuando com Daniel Soares Lins, que diz "...em síntese, ao contrário do historiador que não "ama os acontecimentos", o estudioso do imaginário reivindica, de certa maneira, sua vinculação ao campo das temporalidades e dos acontecimentos, da cultura e da subjetividade." Isso é importante na criação do misticismo que envolveu Lampião, pois muitas estórias foram contadas e muitas foram também inventadas, por aqueles que o admiravam.

A esse respeito, o tenente João Gomes de Lira, ex-oficial das Forças Volantes, contou que um colibri um dia se chocou com a aba do chapéu de Lampião que viu nisso um mau presságio e teria dito a seus companheiros que era preciso retroceder. No dia seguinte ele teve a confirmação de que uma Força Volante lhe tinha preparado uma cilada naquele local. Sabendo que se tratava de nazarenos, ele teria feito o seguinte comentário: "Se tivesse passado por lá, teriam acabado comigo" (Pedro Tinoco, "A Superstição Ronda o Cangaço", Jornal do Commercio, 8/7/1997, p. 2).


Numa entrevista que concedeu ao Diário de Pernambuco, João Bezerra (foto acima), o militar que cercou e matou Lampião e Maria Bonita, juntamente com alguns cangaceiros, evoca o recurso aos sonhos, ao sobrenatural e às premonições entre as Forças Volantes antes de iniciar um combate contra Lampião, tanto este lhes parecia ser dotado de uma dimensão sobrenatural. 

"Às vezes, noite alta, ouvia-se um rumor, o chefe da volante percorria os subordinados um a um, no escuro, passando a mão pelo rosto para conhecer seus cabras, temendo pela vida de todos, isolados na caatinga bravia, longe de homens mais humanos. Na perseguição de cangaceiros. rastejavam horas seguidas. arrastando a barriga contra a aspereza da terra, olho atento e ouvido apurado, esperando a qualquer momento o soar da fuzilaria, rezando com medo de ensopar a terra com seu sangue já que a chuva não a queria molhar..." - (Afranio Mello, "Como Correu Sertão a dentro a Noticia da Morte de Lampeão". Diário de Pernambuco 5/8/1938, p. 5). 

Só também um homem que acreditasse no sobrenatural, e usando os desígnios que o destino lhe pusera nas mãos, poderia acabar com Lampião e isso com o consentimento de uma autoridade superior. A única coisa que pode matar um Metamorfo é prata, bala ou lâmina no coração e isso, em sentido figurado, o militar João Bezerra recebeu dessas entidades superiores, quando acabou com Lampião.


A Saga Cangaço é muito rica e enseja inclusive a nós viajarmos nas ondas desse grande mar que se chama imaginação. A clarividência de Lampião, esse seu terceiro olho com sua capacidade de "ver" ou de "sentir" o perigo que o ameaçava, não era a única arma mágica de que dispunha para escapar aos seus inimigos. Lampião teria também o dom da invisibilidade, graças a proteções sobre-naturais, às orações fortes que trazia consigo e que podia invocar em situações extremas. E apenas essas proteções, essas entidades escondidas sobre o manto do destino, poderiam retirar dele e dá-la para outro homem, que pela força de leis que não conhecemos, foi dada ao militar João Bezerra.

Mãos compridas, que semelham garras; os dedos cheios de anéis de brilhantes, falsos e verdadeiros; ao pescoço, vasto e vistoso lenço de cores berrantes, preso no alto por valioso anel de Doutor em Direito; sobre o peito, medalhas do Padre Cícero, escapulários e saquinhos de rezas fortes; chapéu de cangaceiro, tipicamente adornado de correias e metal branco; ensimesmado toda vez que defronta uma turba de curiosos, folgazão quando entre poucos estranhos ou no meio de seus comparsas; não se esquecendo dum guarda-costa vigilante, à direita, sempre que desconhecidos o rodeiam; paletó e camisa de riscado claro, calças de brim escuro; alpercatas reluzentes de ilhoses amarelos; a tiracolo, dois pesados embornais de balas e bugigangas, protegidos por uma coberta e xale finos; tórax guarnecido por três cartucheiras bem providas; ágil como um felino, mas aparentando constante estropiamento e exaustão; às mãos o fuzil e à cinta duas pistolas “Parabelum” e um punhal de setenta e oito centímetros de lâmina: esse era Virgolino Ferreira da Silva – O LAMPIÃO – duende das estradas, assombração das matas e caatingas!

Raul Meneleu Mascarenhas
Pesquisador Aracaju-SE

Pedro Labatut Por:Armando Lopes Rafael

General Pedro Labatut

O general Pedro Labatut  nasceu, em   1768, em Cannes, França,  e faleceu, em 1849, em Salvador,  na  Bahia. Este militar francês participou das Guerras Napoleônicas, entre 1807 e 1814, tendo atuado na Península Ibérica. Labatut combateu também na Guerra da Independência dos Estados Unidos da América, ao lado do Marquês de La Fayette.  Atuou, ainda,  na Colômbia,  ao lado de Simón Bolívar. Finalmente, veio para o nosso país – contratado no posto de brigadeiro pelo imperador Pedro I – dada a  escassez de  oficiais experientes no exército brasileiro recém-organizado e para ajudar na guerra da independência do Brasil. Aqui, Labatut ordenou o Exército Pacificador, que  combateu as tropas leais a Portugal, na Província da  Bahia e lutou na Revolução Farroupilha, já no período regencial.
Em 7 de julho de 1832, a Regência nomeou-o para chefiar uma expedição ao Ceará,  com o objetivo de prender Pinto Madeira e devolver a paz aos habitantes da província. Chegou Labatut ao Ceará, no dia 23 de julho, trazendo 200 homens, quase todos negros. Mas somente em 31 de agosto, veio ele ao teatro da Guerra do Pinto, iniciando sua missão pela Vila de Icó. Encontrou a revolta praticamente encerrada, graças ao empenho do presidente da província, José Mariano de Albuquerque. Em setembro, Labatut já estava no Cariri, fazendo seu quartel no Sítio Correntinho, (localizado este entre Crato e Brejo Grande, segundo Gustavo Barroso, ou no município de Barbalha, propriedade de Pinto Madeira, segundo historiadores caririenses). Dali ele lançou uma  proclamação aos revoltosos convidando-os à rendição, mediante promessa de clemência. Ofereceu garantias a Pinto Madeira e ao padre Antônio Manuel de Souza para estes se entregarem, o que ambos fizeram, em 12 de outubro de 1832, com a promessa de serem enviados ao Rio de Janeiro, onde teriam um julgamento imparcial.


Pedro I
Militar experiente, Labatut logo sentiu o exagero das notícias chegadas à capital do Império sobre a Guerra do Pinto. Acampado no Cariri, constatou ele que Pinto Madeira, mesmo obtendo algumas vitórias, nunca ultrapassou os limites de Icó. A capital da província, os portos cearenses, a rota entre Aracati e Icó nunca saíram das mãos do governador da Província e da Regência. Além do mais, Labatut  não precisou derramar uma gota de sangue cearense, pois a Guerra do Pinto já havia sido vencida pelo governador da província, José Mariano. Tudo isso tranquilizou o general Labatut, pois sua missão não necessitava promover  lutas e sim viabilizar  o apaziguamento da população. 
Foi o que ele fez, tendo oportunidade de cumprir, com isenção,  sua missão. Para evitar que os dois chefes rebeldes fossem massacrados por seus inimigos do Ceará, enviou-os a Recife, sob a guarda de um oficial de sua plena confiança. Em 14 de outubro, Labatut fez um equilibrado e sereno ofício ao Ministro da Guerra da Regência, do qual destacamos os tópicos abaixo:

“(...) Tenho a honrosa satisfação de ver quase concluída a comissão que a Regência do Império, em nome do Imperador, me há encarregado, sem derramar uma só gota de sangue brasileiro. Remeto a V.Excia., por intermédio do presidente de Pernambuco, o ex-coronel Joaquim Pinto Madeira e o vigário de Jardim, Antônio Manoel de Sousa que, sob condição de conservar-lhes as vidas, e remetê-los  para essa Corte, se me vieram apresentar no acampamento de Correntinho, em virtude de minha proclamação de 22 de setembro próximo passado, cuja cópia ofereço a V.Excia. Eles vieram acompanhados de muitas famílias que foram ao seu encontro nos desertos e montanhas por onde passavam. Estes dissidentes, em número de 1.590, prontamente me entregaram as armas da nação que empunhavam. Exmo.Sr., a maior parte das intrigas durante o reinado do terror, que felizmente passou, compeliu estes povos a hostilizarem-se de modo tal que geme o coração mais duro, à vista dos incêndios, mortes arbitrárias e roubos praticados até pelas tropas do presidente desta província (...)
   “Como, pois, poderão ser julgados os réus por juízes inçados da mesma opinião dos partidos que assolam a província? Por isso rogo a V.Excia. se digne de atender ao meu último oficio do Icó, em que, conhecendo cabalmente os males que acabrunham a nova comarca do Crato, eu pedia juízes íntegros, justos e sábios por não haver um só letrado, em toda ela, os de paz e ordinários são mui leigos e pertencem a um e outro partido. (...)
   “Estou pronto a executar as ordens do governo supremo, conservando-os submissos como ora se acham, em vista da brandura com que os tenho tratado, mas necessito de juízes com hei demonstrado. (...) A intriga, desgraçadamente, deu vulto a cousas em que nada ofendiam as leis. É falso, como aqui se dizia, que Joaquim Pinto Madeira proclamara e defendia a restauração e queria reproduzir aqui as cenas sanguinolentas  do S. Domingos francês (referia-se à revolta dos escravos negros no Haiti). O governo mandando juízes letrados imparciais conhecerá a fundo os verdadeiros culpados. O coronel de milícias Agostinho Tomás de Aquino e o tenente  de primeira linha Antônio Cavalcante de Albuquerque (ambos das tropas do presidente da província) cometeram horrorosos atentados contra os direitos civis, vidas e propriedades de seus concidadãos, sem escapar sexo nem idade. Seria um grande benefício para a humanidade atrozmente ofendida, e para a tranquilidade da Província, que V. Excia. os mandasse recolher à Corte e devassar as suas condutas. Fez-se guerra de bárbaros, mataram-se prisioneiros, queimaram-se casas, legumes, mobílias, roubaram-se gados, confiscaram-se os bens dos dissidentes.
“Deus guarde a V.Excia. Sr. brigadeiro Bento Barros Pereira, Ministro da Guerra – Pedro Labatut, general comandante das tropas do Ceará. Crato, 14 de outubro de 1832”.
Como se viu, a carta do general Labatut ao Ministro da Guerra do Brasil constituiu-se numa defesa de Pinto Madeira. Desnecessário detalhar o quanto isso desagradou aos liberais de Crato, ao presidente da Província do Ceará, José Mariano, e ao padre José Martiniano de Alencar, no Rio de Janeiro. Entretanto, os fatos históricos demonstram que foram cruéis tanto as forças legais como as tropas lideradas pelo caudilho do Cariri.
Citações do trabalho “Um general francês em terras do Crato”
FIGUEIREDO FILHO, José de. História do Cariri–Volume III. Edição da Faculdade de Filosofia do Crato, 1966. pags. 34-35.
Texto e Postagem: Armando Lopes Rafael
http://blogdocrato.blogspot.com.br/

O Império dos Rifles

Bárbara de Alencar

Considerado pelo jornal New York Times dos Estados Unidos como a mais longa, sangrenta e famosa luta familiar da América do Sul, a “síndrome de Exu”, “hecatombe de Exu” ou simplesmente “Guerra de Exu”, protagonizada pelas famílias Alencar, Sampaio e Saraiva e seus agregados, surgiu durante as primeiras lutas nativistas no interior do Nordeste em um duelo travado pelo general Sampaio, governador das Armas do Ceará e Bárbara Pereira de Alencar, cognominada heroína da Revolução Pernambucana de 1817. 

Esse histórico pugilato, se estendeu até meados da década de 80, ganhando notoriedade no meio do jornalismo policial mundial, graças à intervenção de Luiz Gonzaga, o mais famoso sanfoneiro do Nordeste, natural de Exu.

Embora seja o 5º livro publicado sobre essa contenda, “Império dos Rifles”, de autoria do escritor Francisco Robério Saraiva Fontes (Bibi), lançado pela Editora Multifocos, do Rio de Janeiro é sem dúvida o mais detalhado, se aproximando nitidamente do que ocorreu no vasto território violento de Exu e fora dele. 


O primeiro livro sobre a “guerra de Exu” é de autoria Dr. Abdias Pires de Almeida, a época juiz de Direito da comarca de Exu e foi publicado em 1951. Aí vieram os seguintes: Almir Arnaldo de Alencar, em 1988; Ronildo Maia Leite em 1997, vencedor do Prêmio Esso de jornalismo e por fim, “Guerra de Exu” do jornalista paulistano Jorge Palermo.


O livro “Império dos Rifles” já comercializado pela Editora Multifocos terá lançamento nacional no próximo dia 30 de Julho no Centro Cultural Miguel Arcanjo no centro histórico de Piranhas no interior de Alagoas no encerramento do Seminário Cariri Cangaço. O livro poderá ser adquirido através do E-mail: imperiodosrifles@yahoo.com.br

Conselho: Agora seremos 30...

Um dos grandes objetivos, senão o primordial, do Cariri Cangaço é sem dúvidas criar ambientes favoráveis e responsáveis para o aprofundamento sério do estudo deste fenômeno que nos é tão caro e que possui inegável força em nosso nordeste: O Cangaço e suas múltiplas naturezas e imensa capilaridade. Temos perseguido com humildade esse caminho; hoje já são somos 16 municípios em 5 estados nordestinos...
Outro grande objetivo; esse verdadeiramente encantador; é o de promover o encontro das pessoas, ah, isso não tem preço...
Quando proclamamos que o Cariri Cangaço é o Lugar Onde o Brasil de Alma Nordestina se Encontra, o fazemos a partir de uma matemática implacável: 14 Grandes Seminários, 4 Grandes Caravanas de Trabalho, mais de 500 pesquisadores de todo o Brasil, mais de 90 conferências, 62 Visitas Técnicas e o numero impressionante de cerca de 35 mil pessoas em todos os eventos... Na verdade você que faz parte da Família Cariri Cangaço em todo o Brasil é o grande responsável por tudo isso. Não sei qual o legado que deixaremos para as gerações que virão, nem sei se possuímos algum mérito, mas se houver ele é inteiramente de todos vocês!
Temos um Conselho Consultivo, que tem um Patrono mais que querido; Alcino Alves Costa; e um time de primeira linha, 25 talentosos e determinados pesquisadores de todo o Brasil que nos ajudam a Sonhar e nos orientam no Realizar. A eles nossa eterna e permanente Gratidão... Mas, a esses 25 se somarão mais 5, o Conselho Cariri Cangaço passará a contar com 30 destacados membros, que seus nomes e suas posses acontecerão no grande Cariri Cangaço Piranhas 2016.
Conselho Cariri Cangaço: Napoleão Tavares Neves, Juliana Pereira, Ivanildo Silveira, Angelo Osmiro, Honorio de Medeiros, Narciso Dias, Sousa Neto, Geraldo Ferraz, Wescley Rodrigues, Ana Lúcia, Kiko Monteiro, João de Sousa Lima, Archimedes Marques, Rostand Medeiros, Aderbal Nogueira, José Cícero, Antônio Vilela, Bosco André, Múcio Procópio, Paulo Gastão, Kydelmir Dantas, Cristina Couto, Jorge Remigio, Professor Pereira e Leandro Cardoso.
A isso chamo Cariri Cangaço ! Avante...
Manoel Severo-Cariri Cangaço

Uma Região e seu Povo Por: Guerhansberger Tayllor


O cangaço caracteriza-se, na história do Nordeste brasileiro, como um dos fenômenos que passou a simbolizar a região e seu povo, deixando profundas marcas na gestada cultura nordestina, no imaginário popular e na memória histórica da região. Abrangendo um período consideravelmente longo, o cangaço tem seus enraizamentos no século XVIII, passando pelo XIX e florescendo com maior notoriedade na primeira metade do século XX. Inúmeros homens e mulheres se notabilizaram nessa forma de vida, surgindo, assim, vários grupos de cangaceiros que varreram o sertão nordestino. 

Fruto de uma sociedade patriarcal, patrimonialista e excludente, o cangaço emergiu como uma forma de banditismo rural peculiar e especifica do Nordeste brasileiro, sobretudo entre os anos de 1870 a 1940 . Para Sá (2011), o surgimento do cangaço pode ser associado, de um lado, à própria dinâmica política da sociedade sertaneja, baseada nas contendas entre os coronéis, cuja força militar era recrutada entre sua clientela; e, de outro, à irrupção de primeiros bandos de homens que,debaixo de uma canga 3 de armas, passaram a viver de forma nômade e fora da lei, estando vinculada à calamidade pública marcada pela corrupção do aparelho estatal, bem como de grandes secas, como a de 1877-1879. 

Dentro desse cenário social, político e econômico excludente, caracterizado pela força do poder privado dos grandes proprietários de terras, os coronéis, surgiram vários grupos armados que passaram a ser entendidos pela história como cangaceiros. Com isso, não quero defender a tese empreendida pela historiografia marxista que viu nos cangaceiros uma resistência ao poder dos grandes latifundiários. Quero dizer que esses homens e mulheres eram filhos de um tempo marcado pelas barganhas coronelísticas, que impulsionaram inúmeras disputas familiares pelas rédeas do poder local, estadual e federal. Para isso, os coronéis precisavam ter em suas fileiras homens armados que protegeriam os seus interesses políticos. 



Compreendo o cangaço como um conjunto de vivências complexificadas , atrelado também ao coronelismo, não podendo se entender o primeiro desvinculado do segundo. Ele é muito mais do que a ideia da revolta dos dominados contra os dominantes e das múltiplas interpretações que tentam criar modelos explicativos capazes de trazer de volta aquilo que já não é mais. Cangaceiros e coronéis viviam em constantes pactos e rupturas, marcados por uma relação desigual e interessada. O cangaço poderia ser ao mesmo tempo o terror dos coronéis como a força dos mesmos, tendo em vista que eram os donos do poder quem patrocinavam a máquina de guerra dos cangaceiros. 

Para os cangaceiros, combater um determinado coronel significava perder a sua proteção e ganhar a de outro. Por outro lado, se aliar a um grupo de cangaceiros representaria, para os coronéis, manter o seu mandonismo, ameaçando e intimidando os seus inimigos políticos. O cangaço foi o resultado de uma sociedade sertaneja complexa, de múltiplos interesses, da indústria da seca e da inércia do poder do Estado (que era representado pelos coronéis). Foi dentro desse tempo e espaço, movido pela complexidade das relações humanas, que surgiram os cangaceiros. 

Dentre os quais se destacaram e se perpetuaram na memória social sertaneja, os grupos de João Calangro e Jesuíno Brilhante, no Vale do Cariri, Antônio Silvino, Lampião e Corisco. Mas a história do cangaço não se resume a esses principais chefes de bandos. Foram muitos nordestinos que ingressaram nessa vida. O cangaço foi muito mais que Jesuíno Brilhante, Antônio Silvino, Corisco e Dadá e Lampião e Maria Bonita. Esse fenômeno não pode se limitar à chamada “Marcha do cangaço Lampiônico”. É preciso reconhecer outros sujeitos históricos, mergulhar em outros espaços de vivências, outras memórias. 



Perceber cangaceiros e cangaceiras que foram esquecidos ou secundarizados, diante do rentável empreendimento editorial feito pelos escritores que, incansavelmente, tem escrito sobre os principais chefes de cangaceiros. Foi a partir dessa leva de escritos que Sá (2011) definiu o cangaço como “palimpsesto da cultura brasileira”, no sentido de que esse fenômeno é reescrito indefinidamente, utilizando-se o mesmo material, mediante ajustes, acréscimos, revisões e deslizamentos. Segundo ele: “Cada texto remete a outro e o reinsere dentro de outras épocas e coordenadas com as quais marca sua diferença, mas, ao mesmo tempo, marca uma profunda e inequívoca filiação (SÁ, 2011. p. 15)”. 

Sabendo que o meu texto também se remete e se escreve a partir de outros, proponho compreender construções memorialísticas que abordam outros espaços e vivências do cangaço e que não necessariamente estão vinculadas aos diversos projetos interessados da chamada Rota do Cangaço Lampiônico. Aqui pensarei as múltiplas memórias mobilizadas sobre o cangaceiro paraibano Chico Pereira. Chico Pereira viveu no cangaço entre os anos de 1922-1928. 

Ingressou nesse universo a partir de brigas familiares na região de Sousa, no sertão do estado da Paraíba. Filho de um influente coronel da vila de Nazareth (atual cidade de Nazarezinho), Chico Pereira não pode ser entendido como um homem pobre do campo, mas como um membro de uma influente família que buscava se consolidar na turbulenta política sousense e paraibana. Após matar o assassino (Zé Dias) do seu pai, Chico Pereira buscou o cangaço como refúgio às perseguições movidas pela justiça, que era controlada pelos adversários políticos da sua família e dos correligionários do seu genitor. Durante seis anos no cangaço, atuou, sobretudo, em três estados do Nordeste: Paraíba, Pernambuco e Rio Grande do Norte. 


Esteve presente como líder de grupo no 15 ataque dos cangaceiros a cidade de Sousa no dia 27 de julho de 1924, tendo depois participado, por algum tempo, do grupo de Lampião. Apesar de ter sido um dos cangaceiros mais conhecidos no estado da Paraíba, no período da sua atuação, foi pouco abordado pela historiografia do cangaço. Foi tomado como objeto da escrita da história somente a partir de 1960, quando o seu filho, o sacerdote católico Francisco Pereira Nóbrega, publicou o livro Vingança, não: depoimentos sobre Chico Pereira e cangaceiros do Nordeste. 

O livro Vingança, não se configurou como um projeto memorialista empreendido por Francisco Pereira Nóbrega, em um esforço de reconstruir a memória do pai cangaceiro, a partir da ótica do seu lugar social de filho e padre. Com vontade de lançar uma verdade histórica que tentou reviver o passado do pai através da sua escrita, o autor de Vingança, não acabou reconstruindo, por meio dos seus interesses, uma memória para Chico Pereira. Essa memória foi trabalhada através de um ensinamento do cristianismo: o ato de perdoar. 

Desse modo, o filho reescreveu a história de um passado marcado pelos crimes do pai, tendo como ponto condutor e sedutor da sua escrita a mensagem do perdão. Dito isso, busco problematizar essa produção memorialista que criou um ponto de partida para se entender a história de Chico Pereira, uma vez que os escritos posteriores (ao livro Vingança, não) sobre esse cangaceiro se sustentaram, em sua ampla maioria, na reprodução do discurso criado por Francisco Pereira Nóbrega. Sendo assim, a história de Chico Pereira passou a ser confundida com a memória construída pelo autor de Vingança, não.

Continua...

Guerhansberger Tayllor
Pesquisador de Lastro, PB
Parte de Monografia:
"Nas Redes das Memórias:As múltiplas faces do Cangaceiro Chico Pereira"

Cangaceira Laura Por:Noádia Costa

Grupo de Moita Braba em Dezembro de 1938, foto: Diário da Noite


Uma grande quantidade de mulheres adentraram as fileiras do Cangaço depois da entrada de Maria Bonita . Algumas foram forçadas a levar essa vida, outras vieram de forma espontânea. Algumas se tornaram bastante conhecidas, outras ainda permanecem de certa forma no anonimato. Hoje iremos conhecer um pouco mais da cangaceira Laura. Natural de Alagoas, Laura Alves era baixa, clara, de cabelos escuros. Antes de entrar para o Cangaço Laura passou por grande decepção amorosa, pois foi abandonada pelo namorado com quem iria se casar. 

A jovem Laura havia se entregado ao mesmo, fato esse que não demorou muito tempo para ser descoberto por sua família. O pai de Laura então achando que a jovem estava desmoralizada e como forma de punição a manteve reclusa dentro da própria residência. A jovem não tinha permissão para sair. Tempos depois a família de Laura foi visitada pelos cangaceiros e a jovem que vivia uma vida de reclusão resolveu acompanhá -los. Se informou com outras mulheres cangaceiras sobre as dificuldades da vida no Cangaço, mesmo ouvindo sobre a fome, perseguições e dificuldades não desistiu. 

E disse que se as outras mulheres conseguiam aguentar ela também aguentaria. A jovem estava realmente disposta a sair da vida de reclusao e monotonia. Escolheu como companheiro Moita Brava, mais de forma decepcionante foi rejeitada pelo mesmo. Porém Laura não desistiu e em seguida conversou com outro cangaceiro solteiro, Manoel dos Santos que tinha como apelido Boa Vista. No Cangaço Laura recebeu o apelido de Doninha. Tinha como principais características sempre estar quieta e calada. Fez parte das entregas juntamente com seu companheiro. Após as entregas houveram notícias que estavam morando no Sul da Bahia. Na foto abaixo vemos Sebastiana, Moita Brava, Boa Vista e Laura durante as entregas em Dezembro de 1938.

Noádia Costa, pesquisadora, Teresina PI
Fonte de pesquisa: Lampião As Mulheres e o Cangaço 
Antônio Amaury

Novo Desafio Cariri Cangaço: Exu !


Quando se fala em Nordeste, em nordestinidade e em seus principais personagens, sem dúvidas temos que nos curvar diante de uma unanimidade: Luiz Gonzaga do Nascimento ou Luiz Lua Gonzaga, o Rei do Baião. 

Pois bem, Luiz Gonzaga o Rei do Baião será o convidado mais que especial no mais novo desafio do Cariri Cangaço: Pernambuco se torna de vez nossa casa, depois da grande realização que foi a edição em Floresta e Nazaré do Pico, em maio de 2016, estamos chegando de uma só vez a Exu, Serrita e Granito. Sejam bem vindos ao Cariri Cangaço Exu.

Por enquanto as equipes de colaboradores já começam a esboçar as linhas principais do esperado evento. "Estamos reunindo esforços para fincar de vez a bandeira do Cariri Cangaço em Pernambuco, desta vez unindo a força de Exu e ainda os município de Serrita e Granito, cada um desses com sua memória e história, pontuada de episódios marcantes como o Fogo da Ipueira dos Xavier, uma das mais famosas resistências a Lampião da historia, e teremos sim como grande convidado especial o maior ícone da cultura de nosso sertão:Luiz Gonzaga"! Reforça Manoel  Severo, curador do Cariri Cangaço.

Eimar Xavier, Manoel Severo e Nemézio Barbosa em visita a Ipueira dos Xavier

As conversas para a realização do Cariri Cangaço Exu-Serrita tiveram seu inicio ainda em 2011 quando o curador do evento esteve em visita a Serrita e à fazenda Ipueira dos Xavier, Manoel Severo ao lado de Nemézio Barbosa foram recebidos por Eimar Xavier, um dos descendentes dos defensores da vila no famoso episodio de fevereiro de 1927 que teve a frente Pedro Xavier. "Para nós da Ipueira dos Xavier será uma grande honra realizar o Cariri Cangaço aqui em Serrita, sem dúvidas o maior evento de cangaço do Brasil" comenta Eimar Xavier.

O tempo passou e mais uma vez o destino foi generoso com o empreendimento. Bibi Saraiva, pesquisador, escritor e memorialista de Exu, Ex-Secretário de Cultura e atualmente Secretário de Obras de Exu, entusiasta da ideia de realizarmos o Cariri Cangaço lá pelos lado pernambucanos da Chapada do Araripe comenta: "Severo vamos sim realizar um grande evento e vamos unir: Exu, Serrita e Granito, neste grande Cariri Cangaço Exu !" 


Dentro do Cariri Cangaço Piranhas 2016, nos próximos dias 28 a 30 de Julho, teremos o lançamento do livro de Bibi Saraiva, sobre o conflito das famílias Saraiva e Alencar em Exu: O Império dos Rifles; além de uma reunião de trabalho quando o Conselho Consultivo Alcino Alves Costa do Cariri Cangaço,  juntamente com a equipe de Exu, definirão os próximos passos para a realização de mais esse empreendimento com a marca Cariri Cangaço.

Cariri Cangaço

O Crime da Rua da Cruz Por:Jerdivan Nobrega de Araújo


O Crime da Rua da Cruz: O Jury de Maria da Conceição:Cidade de Pombal/PB, 03 de junho de 1883. A defesa da ré Maria da Conceição, no segundo Júri, foi feita por Antônio Gomes de Arruda Barreto.


O Advogado de Maria da Conceição, Antônio Gomes de Arruda Barreto, nasceu em 1856, Pedra Lavrada-PB, e faleceu em 1909 na cidade de João Pessoa-PB. Era filho de Antônio Gomes Barreto e de Ana de Arruda Câmara. Homem inteligente e de caráter nobre, dedicou-se ao magistério, especialmente, à educação dos jovens sertanejos. Em 1875, seguiu para Catolé́ do Rocha, fixando-se lá, onde formou a sua família. Em 1897, fundou o Colégio Sete de Setembro em Brejo do Cruz, primando pela qualidade. O seu Colégio era procurado tanto por alunos paraibanos quanto por aqueles que residiam no vizinho Estado do Rio Grande do Norte. Em decorrência da seca que assolou o Estado, no ano de 1898, Antônio Gomes viu-se obrigado a fechar o seu educandário e emigrar para o Rio Grande do Norte, instalando-se em Mossoró́ , em 1900. Antônio Gomes era autodidata e poliglota. 


Além de professor, era poeta satírico, jornalista polêmico e combativo. Foi advogado e promotor sem ser bacharel. Foi deputado provincial por duas legislaturas (1901/1904 e 1908/1911), faleceu no exercício do mandato. Republicano, ao lado de Epitácio Pessoa, Castro Pinto e Argemiro de Souza, prestou relevantes serviços jornalísticos a sua terra. Foi redator do Jornal O Estado da Paraíba; redator-chefe de O Mossoroense e colaborador de O Combate e O Eco. Também dedicava-se à poesia satírica, arma utilizada para atacar os adversários políticos do seu tempo. Entretanto, segundo Oscar de Castro, seus versos eram cheios de um humor sadio, que não chegavam a provocar ódios ou melindres justificados. Publicou também em O Comércio. Era tenente-coronel da Guarda Nacional, membro do Instituto Histórico e Geográfico Paraibano. Publicou em jornais muitas poesias, usando sempre os pseudônimos Pincelle e F. Santarém. Também escreveu uma gramática latina Da arte latina e Um tratado de Direito, alegações finais.
Jerdivan Nóbrega de Araújo
Pesquisador e Escritor

GECC Convida !


Nesta terça-feira, dia 05 de julho,hoje, reunião do GECC - Grupo de Estudos do Cangaço do Ceará, com a participação especial do 
Professor Hamilton Pereira com uma palestra sobre a História da Estrada de Ferro no Ceará. 

Compareça , às 19 horas na sede da ABO (Associação Brasileira de Odontologia) Rua Gonçalves Ledo, 1630. Bairro Joaquim Távora, Fortaleza-CE.

ANGELO OSMIRO BARRETO
PRESIDENTE

Lampião: A Raposa das Caatingas – imprescindível e indispensável para quem estuda o Nordeste Brasileiro Por:Romero Cardoso


Finalmente atrevi-me terminar de ler o extraordinário livro de autoria do renomado escritor e pesquisador José Bezerra Lima Irmão, intitulado Lampião: A Raposa das Caatingas, pois denso, riquíssimo em informações e bem estruturado em suas abordagens sobre o personagem principal e sobre o nordeste de uma época, perfazendo mais de setecentas páginas bem escritas, setecentas e trinta e seis, para ser mais preciso, consiste-se em verdadeiro desafio concluir sua leitura, tendo em vista a forma envolvente como prende o leitor às minúcias de uma pesquisa séria e compenetrada que levou onze anos para ser concluída, a qual, utilizando metodologia eclética e bem selecionada, tem garantido lugar de destaque entre os grandes clássicos escritos sobre o Lampião, o cangaço e o Nordeste em todos os tempos. 

Concordo, em parte, com o autor quando este defende que a história do nordeste brasileiro resume-se basicamente às figuras de Lampião, Padre Cícero e Antônio Conselheiro. Na minha humilde opinião, creio que faltou inserir o nome do grande evangelizador dos sertões nordestinos – “Coronel” Delmiro Augusto Gouveia Farias da Cruz, para quem trabalharam, exercendo o ofício de almocreve, Lampião e familiares, transportando, assim como diversos anônimos, algodão e outros produtos regionais a fim de contribuir para movimentar a produção da sofisticada fábrica de linhas Estrela da Villa da Pedra, em Alagoas. Esses personagens destacaram-se, no espaço e no tempo, fomentando expressivos momentos da história nacional nos quais suas atuações notabilizaram-se pela atenção despertada além divisas regionais e fronteiras pátrias. 
Manoel Severo e José Bezerra Lima Irmão

A objetividade que embasa o trabalho de fôlego de José Bezerra Lima Irmão é um dos pontos altos da imensa contribuição efetivada pelo responsável escritor e pesquisador, pois conclama que os leitores tirem suas conclusões sobre os assuntos abordados, tornando-os figuras de destaque na leitura da obra. A estrutura didática sobre a qual ergue-se Lampião: A Raposa das Caatingas, em segunda edição, publicada em Salvador (Estado da Bahia) pela JM Gráfica & Editora, no ano de 2014, destaca duzentos e quarenta capítulos, iniciando com A figura de Lampião emoldurada no contexto histórico e no ambiente em que viveu, sendo concluída com importante abordagem sobre a sombra de Lampião, por título Corisco, o último cangaceiro.  

O autor faz questão de frisar que o Lampião enfocado em sua obra não seja visualizado nem como herói e nem como bandido e sim como produto de sua época, um cangaceiro, pois “O Nordeste até quase o meado do século XX era uma terra de cangaceiro. Ser cangaceiro era moda” (LIMA IRMÃO, 2014, p. 17). Um dos grandes momentos da obra, conforme constatei, é a própria valorização do nordeste em seus fundamentos humanos, pois o autor conseguiu compreender a região em seus aspectos mais incisivos, a exemplo da defesa referente à ortopéia popular, ou seja, o linguajar rude do matuto, o qual assinala a forma de falar do povo do sertão, tendo em vista que Lampião e seus cangaceiros falavam e se expressavam como a gente simples da qual faziam parte. 

Kydelmir Dantas, Mucio Procópio, Manoel Severo, Romero Cardoso e Antonio Vilela

Mesmo tendo se passado mais de setenta anos de sua possível morte na grota de Angico, ao lado de dez cangaceiros e um praça volante, Lampião suscita polêmicas, dúvidas e incertezas, as quais são analisadas de forma inteligente e bem articuladas por José Bezerra Lima Irmão. Virgulino Ferrreira da Silva integrou um nordeste marcado pela violência, pelo desejo de vingança, tornando-se arquétipo de uma raça altiva e forte, vem sendo estudado há décadas por autores nacionais e por brasilianistas, mas a forma ímpar como foi inserido como personagem principal na pesquisa metódica e compenetrada de José Bezerra Lima Irmão destaca sua importância incontestável na história regional.

*José Romero Araújo Cardoso. Geógrafo. Escritor. Professor-Adjunto IV do Departamento de Geografia da Faculdade de Filosofia e Ciências Sociais da Universidade do Estado do Rio Grande do Norte. Especialista em Geografia e Gestão Territorial e em Organização de Arquivos. Mestre em Desenvolvimento e Meio Ambiente. Sócio da Sociedade Brasileira de Estudos do Cangaço (SBEC) e do Instituto Cultural do Oeste Potiguar (ICO

Opinião Mossoró Por: Oficio das Espinguardas


Pesquisador Geziel Moura, em seu artigo - Mossoró Fabricou o Cangaço... - "No dia em que Mossoró (RN) demarcou, em sua história, como a principal resistência, norte rio-grandense, ao cangaço, tenho uma tese: “A invasão, frustrada, de Lampião a Mossoró, forjaram outras formas de cangaços lampiônico. Nessa direção, a resistência do povo mossoroense, em termos históricos, não foi a primeira imputada, a grupos de pessoas contra Lampião, um bom exemplo, ocorreu em 15 de maio de 1927 no ataque a, então, Vila de Belém do Arrojado, atualmente Uiraúna (PB). Provavelmente, a condição logística e de defesa, para o povo da vila, era mais frágil do que se configurou em Mossoró, e Lampião não conseguiu seus objetivos, naquele pequeno lugar da Paraíba.

Do ponto de vista pecuniário, mesmo sem receber a quantia de 400 contos de réis, Lampião não saiu do “Projeto Mossoró” com os bornais vazios, pois o que ele acumulou, desde sua entrada no Canto do Feijão (PB), até sua retirada para o Ceará, mostrou que neste quesito, a empreitada foi satisfatória.


Narciso Dias, Geziel Moura, Jorge Remígio e Jair Tavares no Cariri Cangaço

A grande perda de Colchete e, principalmente, Jararaca, não se constituiu, em termos práticos, resistência ao avanço do cangaço nordestino, foi mais um companheiro, cuja reposição viria depois.
Assim, penso o acontecimento de 13 de junho de 1927, como ruptura na história, cujos desdobramentos produziram outros modos de visibilidades do cangaço, não que o discurso, sobre este, tenham mudado, porém, tais discursos, produziram elementos diferentes.

Imagens de uma das trincheiras de Mossoró

Após Mossoró, o cerco a Lampião se intensificou, principalmente pelas volantes pernambucanas, cearenses e paraibanas, o que levou o capitão Virgolino, no ano seguinte, a cruzar o rio São Francisco às terras baianas, inaugurando a chamada, segunda fase, cuja arquitetura do movimento, se diversificou e favoreceu o aparecimento de outro cangaço, dentre os quais, a criação dos subgrupos, a divisão de região para as atuações dos subgrupos, a entrada das mulheres no bando, a intensificação da estética e da arte nos trajes e equipamentos dos cangaceiros, mudanças no “Modus operandi”, precisamente, na formação de rede de informantes e coiteiros, além da maneira de angariar valores, para o sustento da tropa.

Pesquisador Chagas Nascimento


Opinião pelo pesquisador potiguar, Chagas Nascimento: "A resistência de Mossoró, para ser melhor compreendida, tem que se ver por inteira, se olharmos só a meia hora do tiroteio, ela é irrisória em comparação com as outras batalhas. Mossoró em 1927, não convivia com a violência tão comum nos sertões, era uma cidade pacata e que vivia do seu comércio e indústria. Após o ataque em maio de 1927 ao município de Apodi-RN, despertou nas autoridades locais, que esta pacata cidade poderia ser alvo de um ataque igual ao que ocorreu em Apodi. Mossoró não tinha mais que meia dúzia de policiais. 


Aqui, não se tinha o costume do uso das armas. Autoridades procuram o governo do estado, e este nega reforçar o policiamento da cidade. O prefeito se reúne a várias pessoas da cidade, e decidem formar uma comissão, para angariar fundos para compra de armas e munições. Conseguem arrecadar Rs 23:000$000 (vinte e três contos de réis), vão a Fortaleza e lá compram 50 armas (entre fuzis e rifles, e aproximadamente 9.000 munições). 

Após as compras, estas armas e munições, são divididas para ficarem sobre a guarda dos responsáveis dos principais pontos a serem defendidos. Quando se soube da vinda de Lampião para esta cidade, ela já estava preparada para resistir. E isso é que é bonito de se ver, uma comunidade se reunir e, combater o bom combate, contra as forças do mau. Não é à toa, que até nos anos 60, esse dia era comemorado em Mossoró, com feriado programa de rádio com uma novelinha dos fatos aqui ocorrido. E até hoje, no mês de junho, as pessoas se emocionam com a apresentação no adro da igreja de São Vicente, um espetáculo rememorando os fatos. "E viva o Chuva de Bala no País de Mossoró!!!".

Rodolpho Fernandes

Acho que Mossoró foi a gota que faltava para Lampião se escafeder da região. O ataque a Mossoró foi planejado em terras cearenses. Logo após o ataque a Mossoró, o próprio governo do estado do Ceará, começou a perseguir o bando sem lhes dar tréguas. Neste caso, se fechava o último reduto que lhe dava guarida. Paraíba já tinha fechado as suas portas desde o ataque a Souza em 1924, Pernambuco fez uma campanha intensa, pós Serra Grande em 1926. Com Eurico de Sousa Leão fustigando a sua polícia para prender cangaceiros e coiteiros. Diante disso, só tinha uma saída: "Atravessar o Velho Chico". Opina Chagas Nascimento.


Neli Conceição, Sálvio Siqueira e Noádia Costa

Opinião do pesquisador Sálvio Siqueira:"Naquele tempo, em toda e qualquer região produtiva, sempre havia seus líderes, coronéis, que sempre usaram de determinadas artinhas para conseguirem consolidarem seus poderes. Esses líderes, além da participação de pessoas locais, tinha alianças com pessoas fora da própria região. Ao mesmo tempo em que uma parte estava 'por cima', a parte que estava 'por baixo', cogitava e elaboravam planos para tomarem o poder. O plano de saquear Mossoró, nunca que estivera nos neurônios de Lampião. Parte dos aliados fora da região, e com isso, pode ter certeza, juntamente aos aliados 'internos', dentro da redondeza, foram os elaboradores do plano.


Vejo Lampião não passar de uma simples marionete nessa empreitada toda. Acredito que tenha sido escolhido pelo seu desempenho mostrado anteriormente. É dessa forma que noto ao analisar o que aconteceu... fazendo uma análise do anterior ao fato propriamente ocorrido. O jogo foi jogado, as fichas foram apostadas e o resultado, para muitos, não fora o imaginado. Mexeram os cordões, jogaram a isca, e ele, o chefe mor do cangaço, engoliu-a com anzol e tudo. Logicamente que isso não retira o mérito dos defensores. Só não acredito em ser totalmente uma região pacata, sem conviver com os problemas que existiram em toda e qualquer região economicamente 'frutífera', gerando cobiças e invejas aos exploradores.



Lampião e bando em Limoeiro do Norte, retornando de Mossoró

Continua Chagas Nascimemto: "Amigo Sálvio,gostaria de ver nomes citados. A história de Mossoró, não consta homens em armas derrubando quem está no poder. Pelo menos pós século XX. Na época do ataque a Mossoró, a família Fernandes é quem mandavam na política local. O chefe da oposição deveria ser o farmacêutico Jerônimo Rosado. Homem honrado e um pacifista, que sempre se preocupou com o bem de Mossoró. Não conheço, na história de Mossoró, este chefe político belicoso, capaz de botar em risco uma cidade inteira em função do poder."

Fala Salvio Siqueira:"Fica difícil de citar nomes que fizeram parte do complô. no entanto, fica fácil chegar-se a essa conclusão quando vemos sérios estudos/pesquisados, como por exemplo citando Sérgio Dantas, quando o mesmo refere: "(...)Lampião tentava demover o régulo cearense da imprudente empresa. Refutava com veemência a proposta de invasão do Estado e, principalmente, a sugestão de assalto a Mossoró. Temia – por vasta experiência – a “grandeza” da cidade salineira. Compreendia difícil subjugá-la.


O cangaceiro Jararaca, testemunha da conversa, lembrou com fidelidade, dias mais tarde, a resistência de Lampião ao assédio ferino do Coronel Arruda: “Lampião nunca tencionara penetrar nesse Estado porque não tinha aqui nenhum inimigo e se por acaso, para evitar qualquer encontro com forças de outros Estados, tivesse que passar por qualquer ponto do Rio Grande do Norte, o faria sem roubar ou ofender qualquer pessoa, desde que não o perseguissem.”

Honório de Medeiros e Manoel Severo

E continua Sálvio Siqueira: "Honório de medeiros nos mostra isso: "Seus projetos grandiosos de ataque à cidade que ele conhecia muito bem, conversados pelo Sertão paraibano, os mesmos projetos que através de Argemiro Liberato chegaram aos ouvidos de Rodolpho Fernandes, finalmente iriam se concretizar(...)". Ainda citando Honório: "(...)Entretanto se essa participação do Coronel foi circunstancial cabe, agora, perguntar o seguinte: o ataque a Apodi e Mossoró, no espaço de trinta e três dias, foi, também, circunstancial ou havia um nexo entre eles, anterior ao próprio ataque?(...)Quanto à existência do nexo existem os seguintes fortes indícios:

A correspondência de Argemiro Liberato avisando previamente do ataque. O aviso do Coronel Chico Pinto ao Coronel Rodolpho Fernandes após a invasão de Apodi e antes de Mossoró; A menção ao projeto do ataque a Mossoró feito por jornal da cidade; A presença, tendo em vista seu passado, nos dois ataques, enquanto protagonista, de Massilon(...) Se decorrente de um planejamento, então como explicar esse liame entre as invasões? Se o há, necessariamente passa pelo único personagem cuja presença nos dois ataques não foi circunstancial: Massilon. Nesse caso somente a história de Massilon anterior aos fatos pode explicar o ataque a Mossoró. Suas relações, seus antecedentes, sua geografia. Esse é o “x” da questão(...)". Finaliza Sálvio Siqueira.


"O ataque a Apodi, pode ter sido por questões políticas. Mas o de Mossoró, não acredito! Só se alguém me provar, com fatos concretos. E até agora, não conheço nenhum. Os que existem, são conjecturas. Baseado nisso, também faço a minha: se em Apodi foi fácil a rapina, por que não tentar o mesmo em Mossoró, só visando lucros ?! Opina o pesquisador mossoroense Chagas Nascimento.

"Eu só posso citar o que está escrito nas entrelinhas dos livros, e, também, fazer as minhas conjecturas, em cima do que elas me revelam. Não quero aqui dizer que o que está escrito seja a verdade propriamente dita, porém, são as únicas fontes de pesquisas que vi. Mas, o caro amigo, que dai é, deve ter suas razões, e certezas, no que cita. No entanto, como o amigo, eu e outra qualquer pessoa, temos o direito e a liberdade de ter-mos nossa autoanálise sobre os fatos, qualquer que sejam, históricos. Isso confirma-se, quando do comentário acima cito "...É dessa forma que noto ao analisar o que aconteceu...", quando referi 'noto', chamei para mim, expus minha opinião, que muito bem pode estar equivocada, respeitando sempre a conclusão das análises dos outros." Conclui Sálvio Siqueira.


Chagas Nascimento: "No dia seguinte ao ataque, a primeira força que chegou a Mossoró, foi a paraibana. O Sr. Jerônimo Rosado recebe um telegrama de João Suassuna:" - Jerônimo Rosado (20) Mossoró. Patos, 15 - Ciente ter prezado amigo telegrafado capital historiando movimento e agradecendo cooperação nossos contingentes. É pena que não acreditasse em tamanha audácia dos bandidos para ter enviado forças há mais tempo. Também fomos surpreendidos, pois do Ceará vinham informações oficiais, de que quadrilheiros não estavam mais na zona do Cariri. Aceite felicitações pela resistência e salvação dessa bela cidade, tão grata recordação para mim. Abraços (a) João Suassuna - Presidente do Estado"


Debate: Mossoró
Fonte: Oficio das Espinguardas
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