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Não imaginava teimar tanto com “As mentiras e os mistérios de Angico”. Mas, dominado por uma poderosa obsessão, aqui estou, espicaçando muitos de nossos historiadores e pesquisadores, especialmente aqueles tidos e havidos como os mais profundos conhecedores da história cangaceira e em particular a de Virgulino Ferreira – Lampião. O meu maior desejo é ter o prazer de conhecer as opiniões, contra ou a favor, postadas por todos os nossos queridos companheiros, cada um declarando com sinceridade o seu ponto de vista sobre as mentiras e os mistérios de Angico, ou mesmo de sua verdade.
A minha vontade e o meu interesse é fazer com que os vaqueiros da história do cangaço coloquem o seu pensamento em relação a este apaixonante tema. Não me conformo que se deixe perpetuar na saga do grande e genial homem do Riacho São Domingos, tantos labirintos não identificados e aceitos pelos pesquisadores. É por esta razão que aqui estou fazendo chegar aos escravos da vontade de Lampião justamente aquilo de mais estranho e misterioso que possa ter acontecido em Angico.
Sinceramente, ficarei muito feliz e agradecido se os nossos queridos companheiros de caminhadas pelas veredas e bibocas dos cafundós do sertão, bravos rastejadores da jornada heróica de Virgulino Ferreira da Silva, se dignassem em opinar sobre as possíveis mentiras e mistérios de Angico. Cada um dos comentários registrados no blog me encherá de prazer e felicidade. É este o meu desejo. Discutir e, todos nós, juntos, tentar colocar algumas pedrinhas que faltam no tabuleiro da história.
Meus companheiros e amigos, antes de tentar destrinchar o meu pensamento sobre as mentiras e os mistérios de Angico, eu lhes peço, por favor, tenha em mãos o livro “Assim morreu Lampião”, do correto, sincero e o mais profundo conhecedor da história do cangaço, Antonio Amaury Correia de Araújo. Analise com cuidado, paciência e imparcialidade os depoimentos neste livro existente e registre o seu pensamento sobre o assunto.
Os Mestres Antônio Amaury e Alcino Costa; Mentiras e Mistérios de Angico...Também no Cariri Cangaço 2010
Não levarei em consideração o depoimento de Zé Sereno quando ele afirma que a bebida tinha veneno, mesmo tendo Balão em seu testemunho dito que ouvira Zé Sereno dizer que o cinzano, apenas o cinzano, estava envenenado. Como se sabe esta afirmativa do companheiro de Sila caiu num descrédito total. Por qual motivo? Para não contrariar o desejo e a vontade dos vencedores, aqueles que registram a história conforme suas conveniências? Não sei.
Balão ainda diz que matou um soldado quando este batia na cabeça do cangaceiro Mergulhão. A história conta que morreu apenas o soldado Adrião, mas ele estava ao lado de Bezerra e Antônio Jacó quando foi atingido pelas balas do cangaceiro Elétrico. Quem mente. Balão ou a própria história? Uma outra distorção da verdade dos fatos é aquela versão que apareceu dizendo que Pedro de Cândido seguiu da Forquilha até o riacho do Angico amarrado ao corpo de um soldado.
É impossível que alguém acredite que Maria Bonita gritou para Luiz Pedro: - Cumpadi Luiz Pedro, cumpadi Luiz Pedro, ocê num dissi qui quando Lampião morresse ocê morria tamém? Estas palavras de Maria Bonita estão na página 49 do “Assim morreu Lampião”. E os dois tiros e sua morte quando ia apanhar água no poço aconteceram ou não? A Grota de Angico devia chamar-se a Grota da Mentira. Mentiras, mentiras e mais mentiras – e elas são intocáveis. Vamos nos aprofundar sobre os depoimentos estranhos e desencontrados de Abdom, Panta de Godoy, e um trecho do de Balão.
Juliana Ischiara, Alcino Alves Costa e os Mistérios e Mentiras...
1 – Na página 110, do “Assim morreu Lampião” Abdom diz: “O cangaceiro veio i começô a panhá água no cantil quase qui im cima di ondi nóis tava ajoeiado i aí eu atirei”. Continua: “Daí nóis avancemo i caimo im cima du meio di ondi tava Lampião i nóis recuemo pra trais um pouco di Lampião”. “Quando nóis recuemo um pouco nóis si intrincheiremo i mandamo bala nos cangaceiros i o pau quebrô”.
2 – Agora trechos do depoimento de Panta de Godoy, contidos na página 89 do “Assim morreu Lampião”. “Quando nóis tava subindo i chegando nessas pedra, topemos com um cabra qui tava apanhando água a uma déis braças, mais o menos, di distância”. “Nóis corremo pra dentro, corremo dentro i quando chegamo na frenti um pouquinho topei cum Maria Bonita, que vinha buscar água, com uma bacia de queijo do reino na mão”. E Panta prossegue: “Aí quando avistei cum ela, ela deu meia volta, correu i disse: - Valha-me Nossa Sinhora”! “Aí eu atirei nas costas dela i ela caiu”. “No qui ela caiu ela feiz corcunda e levantou-si i ia saindo i Antonho Ferro gritô: - Cumpadi, sigura a bandida qui ela vai-si imbora”! “Eu dei otro tiro, na barriga dela, assim por ditrais, ela caiu i morreu”. E Maria Bonita ainda teve tempo e se lembrou de chamar por Luís Pedro avisando-o que Lampião estava morto? Você acredita nesta aberração?
3 – Em seu depoimento, à página 111, do “Assim morreu Lampião”, Balão diz:“...Durmimo um pedaço de tempo quando Lampião falô: Zé Sereno. Chama todu mundo aí qui nóis vamu rezá u ofício de Nossa Sinhora”. “O pessoá si levantô si ajoeiô i adispois qui eli acabô di rezá tornô a si deitá”. E ninguém escutou os tiros, quase naquele mesmo instante?
Os nossos companheiros e especiais amigos Aderbal Nogueira e Severo Barbosa tem em DVD um depoimento de Panta de Godoy ele dizendo que do poço onde Amoroso estava enchendo o cantil até a barraca de Lampião tem mais de 50 metros de distância. Esta distância entre o poço e a barraca eu precisava conhecê-la.
Foi o que fiz. Convidei Vicente Rodrigues do Nascimento, aquele rapaz que levou a máquina para Maria Bonita costurar a roupa do sobrinho de Lampião, ainda vivo, e que era neto de dona Guilermina, a mãe de Durval e Pedro de Cândido. Com ele caminhei do poço até a barraca, a distância entre um ponto e outro é de quase 100 metros.
Não desconheço que existem afirmações atestando que a distância não passava de 20 metros. É uma lástima que assim digam, não é verdade. Eu abomino mentiras e jamais iria afirmar algo que não fosse real e verdadeiro. Eu sei, porém não me envergonho e não escondo de minha nenhuma formação escolar, no entanto, mesmo assim, procuro ser consciente naquilo que faço. Assim agindo, não posso deixar de reconhecer que nestes três célebres testemunhos estão documentadas verdadeiras aberrações. Aberrações que me surpreende. Uma delas é saber que pessoas cultas, de uma capacidade e competência muito além da normalidade, acreditam nestes depoimentos que agridem a inteligência humana, e os defende com todo vigor de seu sentimento e de seu espírito.
Juliana, Alcino e Aninha do Ó
É inacreditável que estes historiadores e pesquisadores, homens da mais alta responsabilidade, teimarem em desprezar e até mesmo escarnecer quando se fala das mentiras e mistérios de Angico. Ora, meus companheiros, quem em sã consciência poderá acreditar que após o tiro que Abdom deu em Amoroso, Panta de Godoy dar dois tiros em Maria Bonita e ninguém, nem Lampião, nem os outros cangaceiros e nem os cachorros, ouviram nada?
Como é que se entende Maria Bonita ir descendo o riacho à procura do poço para também apanhar água, acontecer o disparo no cangaceiro, e ela continuar descendo o riacho, caminhando tranquila, sem escutar o estampido? Ainda mais. Balão diz que antes do primeiro tiro, Lampião e os cangaceiros estavam rezando o Ofício de Nossa Senhora e logo após foram novamente se deitar. Aconteceram três tiros; Maria Bonita gritava chamando por Nossa Senhora; Abdom e seus companheiros avançaram e chegaram tão próximo de onde estava Lampião que tiveram que recuar com tempo suficiente para se entrincheirarem e então atirarem em Lampião.

Você acredita nesta versão? Eu não. Qual a pessoa inteligente e imparcial que acredita nestas anomalias que circundam a Grota de Angico? Sinceramente, não posso acreditar que ninguém neste mundo aceite uma distorção histórica de tamanha monta. É por estas e outras fortíssimas razões que este velho Caipira de Poço Redondo, teima com convicção total e absoluta que a Grota de Angico é envolta em mentiras e mistérios. Meus amigos, eu posso garantir, se os depoimentos de Abdom, Panta e Balão forem verdadeiros, a morte de Lampião é tão misteriosa que a nossa pobre mente jamais conseguirá decifrá-la. Mas, por favor, não vamos perpetuar tantas e tantas mentiras e contradições.
A todos vocês o meu muito obrigado pela deferência. Abraços!!!
Alcino Alves Costa,
O Caipira de Poço Redondo
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