Zé Gonçalves de Lucena, Exemplo de Coragem Por:Bosco André

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José Gonçalves de Lucena

O autor destas notas  em conversa com Zé Gonçalves,  dizia sempre, ante as suas narrativas; com riquezas de detalhes; que ele era um pedaço da história da nossa terra.  Num transe doloroso da sua longa vida, quando envolveu-se involuntariamente  em uma briga com a família Maia, de Missão Velha, ligada por laços de parentesco  ao Cel. Chico Romão de Serrita-Pernambuco, e em função dessa briga, chegou a perder dois filhos: Edmilson e o Dr. Esdras; esse, assassinado no dia que se formou em medicina, no Recife. 

Em função dessa desavença, Zé  Gonçalves foi forçado a sair de Missão Velha e como judeu errante, esteve em Fortaleza, no Rio de Janeiro e no Estado de Goiás, onde chegou a adquirir propriedades rurias. Na sua estada no Rio, manteve uma sociedade em uma concessionária de automoveis, revenda Jeep, com um parente da sua esposa, Sr. José Brígido.  Como sempre foi ligado a agricultura, não adaptou-se muito bem no ramo comercial, terminada a sociedade com Zé Brígido, após deixar tudo acertado.

Entretanto, sem o seu conhecimento, ficariam algumas promisórias por ele avalizadas, que acabaram lhes trazendo problemas tempos depois. Estando em Fortaleza, junto com  a  família,  fora surpreendido por um telegrama do seu irmão, Quintino Gonçalves de Lucena, que ficara em Missão Velha, cuidando dos   seu bens; dando ciencia de que fora cientificado de uma penhora pela Justiça em cima de todo o seu patrimônio, decorrente  justamente dos avais concedidos na época do negócio no Rio. A dívida num montante de 240$000,00 (duzentos e quarenta mil contos de reis).  Imediatamente Seu Zé Gonçalves, dirigiu-se ao Banco Frota Gentil em Fortaleza, onde conseguiu aquela dinheirama para ir a Missão Velha pagar a dívida originária daquela sua sociedade no Rio de Janeiro e que nada devia.

Após os devidos acertos, apesar de insistentes pedidos de Dona Senhora, sua esposa, para que não retornasse a Missão Velha, decidiu fazer a viagem. Na manhã que antecedia sua ida a Missão Velha,  estando em casa na Avenida Conselheiro Tristão em Fortaleza, recebeu a visita do Cel. Antonio Leite, seu velho conhecido e natural da Cidade de Milagres e Secretário da Casa Civil do Governo do Estado, a época Dr. Flávio Marcílio, emissário do Governo, pois o Governador , desejava ter uma conversa com o mesmo.

Zé Gonçalves colocou um terno e em companhia do Cel. Antonio Leite, foram ao Palácio do Governo Estadual, ali chegando, segundo palavras textuais do próprio ; já estavam a sua espera, o Governador, o Secretário de Segurança do Estado e o Gal. Expedito Sampaio – Comandante da 10ª  Região Militar. Antes porém, quando a caminho do palácio, o Cel. Antonio Leite, pediu a Zé Gonçalves, “QUE DEIXASSE O GOVERNADOR DIZER O QUE QUIZESSE E NÃO LHE RESPONDESSE NADA”, no que teve o compromisso de Zé Gonçalves, de que nada responderia ao Governador. 

Governador Flávio Marcílio

Ao chegarem ao Palácio, após os cumprimentos de praxe, Zé Gonçalves, foi convidado a sentar-se e o Governador o interpelou  que estava sabendo da sua ida a Missão Velha, naquele dia a noite, no que foi respondido positivamente que sim, foi aí que o Governador pediu que ele não fosse a Missão Velha, pois ali quem mandava era os seus amigos (os Maias), que eram o dono do lugar. Imediatamente, para a surpresa dos presentes, recebeu a negativa de Zé Gonçalves, reafirmando que iria a Missão Velha naquele dia. O Governador insistiu de que Zé Gonçalves não fosse, sem contudo persuadir a Zé Gonçalves do seu intento. Após muita insistência o Governador passou a intimidá-lo, chegando a dizer que se Zé Gonçalves fosse a Missão Velha: “seria morto como um cachorro no meio das ruas de Missão Velha”... Ouvindo a ameaça, Zé Gonçalves retrucou que "não havia poder humano que empatasse dele ir a Missão Velha naquela noite", e completou dirigindo-se à escrivaninha do Governador e de punho em riste, disse: “GOVERNADOR O SENHOR DIZ QUE OS SEUS AMIGOS SÃO OS DONOS DA MISSÃO VELHA, MÁS EU TENHO UM PEDAÇO DELA E COMO EU JÁ DISSE, NÃO HÁ PODER HUMANO QUE EVITE DE EU IR A MISSÃO VELHA  HOJE. AMANHÃ O SENHOR PODE ATÉ RECEBER UM TELEGRAMA, DIZENDO QUE MATARAM  ZÉ GONÇALVES NA MISSÃO VELHA, MAIS O SENHOR FIQUE CERTO QUE EU CHEGO NO INFERNO A CAVALO NO CHEFE DA MISSÃO VELHA”.

À noite, Seu Zé Gonçalves, fazendo-se acompanhar  de Dona Senhora (sua esposa)  e  os  seus filhos (que pediram insistentemente que não fosse àquela viagem, porque era muito perigoso), chegou para a partida na Agência da antiga Expresso Cearense. Naquele momento recebeu novamente a visita do Cel. Antonio Leite acompanhado do Cel. Paulo Pedro, este último, designado pelo Governador do Estado, para acompanhar Zé Gonçalves à Missão Velha: faria a sua guarda pessoal. Zé Gonçalves, ainda perguntou ao Cel. Paulo Pedro, quantos filhos ele tinha e que a empreitada era perigosa e que não havia necessidade da sua ida , pois a briga ali era dele !  Naquele momento Dona Senhora, recomendou e pediu ao Cel. Paulo Pedro, de que logo na entrada de Missão Velha, tinham uma propriedade e descessem na cabeça da ladeira do Tinguizeiro e descessem por dentro do baixio até a casa do irmão de Zé Gonçalves (Quintino) no final da propriedade Santa Maria, a fim de evitar qualquer encontro com os inimigos. 

Viajaram por toda a noite até  o amanhecer do dia, quando chegaram  a  Missão Velha; como o Cel. Paulo Pedro, não conhecia  o ponto indicado por Dona Senhora para a descida antes de Missão Velha, passaram direto chegando a Praça Nossa Senhora de Fátima, já no centro da cidade; o Cel. Paulo Pedro notou que já estavam dentro de Missão Velha, Zé Gonçalves disse ao acompanhante que  só queria uma coisa: "desça com a bagagem e deixe eu descer com as mãos livres". Quando desceram na Praça, Seu Zé Gonçalves de terno, com a mão palmilhada em cima da  "45" avistou de prontidão à sua espera em cima da Praça seus principais inimigos: o Cel. Maia, Lebon, seu irmão, um sobrinho do Cel.  Chico Romão e um desconhecido, que ela achava que fosse o pistoleiro para lhe matar. Descendo Zé Gonçalves, passou entre o Cel. Maia e Seu Lebon, no seu dizer: "rasgando os dois". Depois o próprio me confidenciou: "que ao dar às costas, sentiu a quentura das balas às suas costas", entretanto nada aconteceu e desceu ileso para a sua casa e daí por diante, jamais deixou de andar em Missão Velha, embora resguardado e respeitando os seus inimigos.


Bosco André
Memorialista - Missão Velha
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8 comentários:

Anônimo disse...

Na verdade por muitos anos pôde-se comprovar a grande coragem de seu Zé Gonçalves, desde os tempos em que ele era o homem de confiança de Isaias Arruda, Zé Gonçalves teria sido o homem que alertou o capitão Virgulino sobre o envenenamento na fazenda Ipueiras. parabéns ao historiador Joaõ Bosco André por trazer a baila personagem tão marcante de nossa história.

Ricardo Lima

Anônimo disse...

De acordo com o que se ouve por aí, quem realmente matou os filhos de Zé Gonççalves? Foi a mando de Chico Romão de serrita?

Glauco

Anônimo disse...

Meu caro Glauco: conforme você peguntou,
Edmilson, morreu por ocasião da briga entre ele e Rosalvo Maia, em julho der 1951 e Rosalvo, faleceu meses depois. O Dr. Esdras, foi morto por ocasião da sua formatura como méico, na saída da Faculdade, ao lado da sua noiva, em Apipucos - Recife, por um pistoleiro a mando do Cel. Chico Romão. Abraços: Bosco André.

Anônimo disse...

Senhor Bosco André obrigadão pela resposta. Meu pai era vendedor de estivas e cereais e andava muito no Cariri, fazia a rota entre Porteiras até Milagres e me contava essas histórias.

Glauco

Augusto N. Sampaio Angelim disse...

Amigo blogueiro, inicialmente quero dizer que gostei de seu blog e, com todo respeito, quero acrescentar algumas informações que talvez sirvam. Primeiramente quero lhe dizer que sou neto de Chico Romão, embora isto não represente nenhuma aversão ao entendimento que a família Gonçalves tem da História do assassinato de Esdras. Apenas quero afirmar que, coincidentemente, hoje, tenho em minhas mãos um exemplar da Revista O CRUZEIRO, de fevereiro de 1952 que trata do chamado CRIME DE APIPUCOS, do qual meu avô foi considerado autor intelectual. A reportagem é interessante e talvez fosse bom que o amigo tivesse acesso à mesma. No momento, como lhe disse antes, as informações que desejaria acrescentar é que Esdras formou-se em Odontologia, portanto não era médico e o crime não ocorreu na saída da Faculdade, mas sim no pacato bairro de Apipucos, aonde o mesmo fora se encontrar com a namorada. Estou fazendo a digitalização da matéria e se for de vosso interesse posso remetê-la assim que possível. Um abraço.
Augusto Sampaio Angelim, Juiz de Direito (São Bento do Una/PE)

CARIRI CANGAÇO disse...

Caro Dr. Augusto, muito obrigado por sua atenção e cortesia, além das palavras generosas em relação ao nosso blog. Ficaremos muito gratos se o senhor puder nos mandar a referida reportagem da Cruzeiro que em muito enriquecerá essa revista eletrônica.

Gentileza enviar para:
manoelsevero@bol.com.br

Grato,

SEVERO

Fatima Canejo disse...

Sr. Manoel,
Também sou neta do Coronel Chico Romão e digo que seria de bom tom procurar as informações de fontes mais sérias para publicar em seu blog. Espero que tenha recebido cópia da revista O Cruzeiro para desfazer este mal entendido.
Deixo meu e-mail para que entre em contato comigo e também tenha a chance de conhecer meu mais recente blog sobre a cidade de Serrita.
Abraços,
Fátima Canejo

Anônimo disse...

Na verdade Rosalvo Maia, morreu de gangrena, quando voltava de Recife para Missão Velha, a referida gangrena se deu em virtude de uma facada levado na briga entre os Maias e os Gonçalves, o que se passou depois foi só a lei do Sertão, olho por olho dente por dente.
OTAVIO RUBENS SAMPAIO MAIA