Raimundo de Oliveira Borges, Nota de Pesar


Raimundo de Oliveira Borges


Nossos sentimentos de pesar, respeito e saudade, pela partida do grande jurista, advogado, pesquisador, professor e escritor; personalidade ímpar da intelectualidade caririense, aos 102 anos de idade;
 Dr. Raimundo de Oliveira Borges; Presidente do Conselho Superior do ICC - Instituto Cultural do Cariri.

As condolências de todos que fazem a
 SBEC-Sociedade Brasileira de Estudos do Cangaço 
e Cariri Cangaço.

Ângelo Barreto Osmiro
Presidente da SBEC
Manoel Severo 
Curador do Cariri Cangaço

Quem Foi Delmiro Augusto da Cruz Gouveia Por:David Bandeira




Delmiro Gouveia, o coronel dos coronéis


Filho de um caso extraconjugal; Delmiro Augusto da Cruz Gouveia nasceu em Ipu , Ceará, em 5 de junho de 1863; transferiu-se, em 1868, junto com a mãe e a irmã Maria Augusta, para o Estado de Pernambuco. O pai, Delmiro Porfírio de Farias, faleceu em combate na Guerra do Paraguai, em 1867; a mãe, Leonila Flora da Cruz Gouveia, morreu em 1878.


Já no Recife, analfabeto e sem dinheiro, foi atrás dos primeiros trocados em modestos empregos: aprendiz de tipógrafo, bilheteiro, despachante, mascate e, finalmente, comerciante. Empregou-se em firmas do comércio de “courinhos” (pele de bode e cabra), no qual enriqueceria, mas em nenhuma delas conseguiu os objetivos que pretendia; por não se abater com fracassos, identificando oportunidades de negócio e procurando experiências similares, estava sempre disposto a assumir compromissos. Logo, cuidou de realizar vários empreendimentos de vulto, por exemplo, o contrato firmado com o Prefeito de Recife, Coelho Cintra, para a construção de um mercado – algo sem similares até então – no bairro do Derby. Arrematou a maior refinaria da América do Sul, a Usina Beltrão, para refino e embalagem de açúcar, mas, não levando muito a sério o negócio, fechou-lhe as portas pouco tempo depois.



Delmiro e Eulália, filha do Governador Sigismundo Gonçalves


Combate a oligarquia rosista em Pernambuco, logo sofrendo perseguições políticas que lhe prejudicaram os negócios. Impulsivo e temperamental, acometiam-no acessos de ira que faziam dele um homem temido, tendo colecionado, inclusive, agressões contra o vice-presidente da República (Rosa e Silva), ex-sócios, além do rapto da filha do Governador de Pernambuco Sigismundo Gonçalves. Assim, tornando sua permanência no Recife insustentável.


Visando se restabelecer financeiramente, Delmiro sai de Recife rumo a Alagoas, no final de 1902, onde, em companhia dos sócios, oficializa a firma Iona & Cia., antes denominada Iona & Krause, procurando reorganizar em Maceió, meses depois, o comércio de peles. Instalou-se no vilarejo chamado Pedra, pertencente à Matinha de Água Branca. Para tanto, valeu-se da boa acolhida de grandes chefes políticos locais: o Governador Euclides Malta e o coronel Ulisses Luna. Aos poucos, renovava a fortuna.


Tinha mesmo o dom de atrair várias senhoritas, possuiu várias namoradas, inclusive uma linda italiana. Rico, famoso, era natural que assim acontecesse. Todavia, teve seus 3 filhos com a moça que raptara, a bela Carmela Eulina do Amaral Gusmão que o abandonou junto aos filhos tempos depois.Talvez desentendimentos políticos, elevação de alíquotas e carência de uma fiscalização mais rígida levaram-no a solicitar aos empregados de sua firma de “courinhos” que averiguassem a possibilidade de trazer algumas peles, para seu curtume, sem que tivesse de pagar tributos na fronteira dos Estados de Pernambuco e Alagoas. Logo, foi acusado de contrabando pelos idos de 1909/10. No sertão alagoano, construiu a primeira hidrelétrica do Nordeste, chamada Angiquinho; uma das primeiras fábricas de linhas do Brasil, a Fábrica da Pedra, cujos trabalhadores possuíam atendimento médico, moravam na Vila Operária e despendiam serviço com carga horária de 8h diárias, com descanso semanal. Todavia, a condução dos negócios a mão-de-ferro e a disciplina na fábrica considerada rígida foram al guns dos seus registros no mundo das organizações empresariais.



Professor David Bandeira


A uma vida como a sua não podia faltar mistério. Justo no momento em que Delmiro mais crescia nos negócios, para suprir a falta de investimentos na região sertaneja, foi assassinado em seu chalé, na Vila da Pedra, na noite de 10 de outubro de 1917, aos 54 anos de idade, em condições misteriosas, atingido por uma bala no coração. A sua morte, envolta em mistério, assegurou-lhe um lugar no hall dos industriais visionários.
  
David Bandeira


NOTA CARIRI CANGAÇO: O professor David Bandeira é Administrador e autor do livro “Ousadia no Nordeste: a saga empreendedora de Delmiro Gouveia”; é um dos conferencistas do Cariri Cangaço 2010; ao lado da professor Eloisa Farias, desenvolverão o tema: Delmiro o coronel dos coronéis.


Joaquim Pinto Madeira Por: Armando Lopes Rafael



Joaquim Pinto Madeira
Pessoa interessante – e quase desconhecida – esse Joaquim Pinto Madeira! Em 1946, o médico e historiador cratense Irineu Pinheiro escreveu um trabalho sobre Pinto madeira, o malogrado caudilho caririense, nascido em Barbalha – no lugar denominado Silvério – ao sopé da Chapada do Araripe.

Pinto Madeira participou, ativamente, no Cariri, dos acontecimentos da Revolução Pernambucana de 1817 e da Confederação do Equador, esta em 1824. Era monarquista convicto, mas, diferente do Brigadeiro Leandro Bezerra Monteiro, Pinto Madeira era rancoroso e vingativo. Esses defeitos lhe acarretaram muitos inimigos.


Derrotados os revolucionários republicanos cratenses de 1817, coube a Pinto Madeira conduzir à prisão, em Fortaleza, os 20 presos políticos, a maioria da família Alencar ou seus agregados. No percurso, consta que esses presos teriam sofrido humilhações da parte do caudilho.




Irineu Pinheiro escreveu: “Nunca perdoaram os Alencares e os liberais cratenses a ação de Joaquim Pinto Madeira naquelas duas agitadas fases da nossa história”. Pinto Madeira era acérrimo inimigo dos republicanos e liberais. Quando da abdicação do Imperador Dom Pedro I ao trono brasileiro – fato ocorrido em 7 de abril de 1831 – Pinto Madeira aliou-se ao atrabiliário Vigário de Jardim, Padre Antônio Manoel de Sousa, julgando que os liberais brasileiros teriam forçado o Imperador a abdicar. Ledo engano, desmentido posteriormente pela história.


Armando Lopes Rafael e Manoel Severo


Os dois organizaram uma milícia, com cerca de dois mil homens, a maioria armada com rudimentares espingardas e invadiram a cidade de Crato para dar cabo das pessoas simpatizantes dos liberais. Na versão dos inimigos de Pinto Madeira, à falta de espingardas, o Padre Antônio Manoel benzia cacetes e os distribuía aos membros da milícia. Daí lhe vem o apelido de “benze - cacete”.
Pinto Madeira entrou triunfalmente em Crato. Mas, não pôde (ou não quis) conter os violentos revoltosos que saquearam o comércio e residências, cometeram assassinatos e queimaram arquivos públicos. A essa invasão seguiram-se as batalhas nas localidades Buriti, Coité, Barbalha, Missão Velha e Icó. Em 05 de junho de 1831 a Câmara de Crato decretou a prisão de Pinto Madeira. Pressionado pelo Governo Imperial o caudilho negociou sua rendição com o famoso General Labatut (Pedro Labatut, mercenário francês que atuava no Brasil desde as lutas pela independencia), em troca da garantia de vida.

O General cumpriu o trato e remeteu Pinto Madeira para Recife. Retornando ao Rio de Janeiro, Labatut não mais acompanhou Pinto Madeira que foi mandado ao Maranhão, onde sofreu muitas torturas. Retornou preso ao Ceará em 1834. Foi escoltado de Fortaleza a Crato, onde – num júri parcial – composto por inimigos seus, Pinto Madeira foi condenado à forca em 26 de novembro daquele ano. Não por crime da sua sedição, mas porque teria, anos antes, ordenado a morte de um parente de um dos jurados. Pinto Madeira tentou usar o direito de apelação, o que lhe era garantido pelas leis vigentes, o que lhe foi negado pelo juiz de forma ilegal.


General Pedro Labatut


Vendo que era o seu fim, alegou sua condição de Coronel pedindo para ser fuzilado ao invés de enforcado. Irineu Pinheiro arremata com maestria: “Morreu virilmente Pinto Madeira. Conta a tradição, ouvida por mim desde criança, que momentos antes do fuzilamento, ofereceu-lhe um lenço para que vedasse os olhos um dos seus mais implacáveis inimigos, José Francisco Pereira Maia. Recusou o condenado a oferta, replicando ter no bolso lenço próprio. Durante anos a fio, fez-lhe promessas o rude povo dos sertões, considerando-o um mártir, isto é um santo”.

Armando Lopes Rafael

Memorial Padre Cícero sediará noite do Cariri Cangaço



Renato Casimiro, Danielle Esmeraldo e Manoel Severo


Quem visita o Juazeiro do Norte, a terra abençoada pela Mãe das Dores e palco da maravilhosa vida e obra de Padre Cícero, não pode deixar de conhecer a Fundação Memorial Padre Cícero, um complexo composto por Museu, Teatro, Auditório e Praça de Eventos, bem em frente a igreja e ao cemitério do Socorro, locais sagrados da terra santa do Juazeiro. Ali na igreja do Socorro se encontra sepultado o corpo do santo Padim.


Estivemos na última semana em visita de trabalho à Fundação Memorial Padre Cícero. Ali fomos recebidos por seu presidente, estimado amigo, professor Renato Casimiro. Quem conhece Casimiro sabe de toda sua fidalguia e elegência, homem de uma cultura ímpar, extremamente zeloso e de uma determinação sem igual, agora; com o desafio de gerir os destinos de tão importante equipamento público,  justamente na época do centenário da terra de Padre Cícero.


Conversa vai e vem; Juazeiro, Beatos, Religiosidade, Floro, Caldeirão, Padre Cícero, SBEC e....claro; Cariri Cangaço. Naquela tarde, tivemos uma alegria dupla; primeiro em compartilhar momentos de agradável descontração ao lado de pessoa do quilate do amigo Casimiro; a outra foi a confirmação de sua participação no Cariri Cangaço 2010, como um de nossos conferencistas. De resto é dizer ao nobre amigo, seja bem vindo a família Cariri Cangaço.O Memorial acolherá uma das noites do evento, quando o anfitrião será o município de Juazeiro do Norte.


Manoel Severo. 


Os Quintos dos Infernos Parte II Por:Rostand Medeiros


As lutas políticas em São Miguel e o cangaceiro Moita Braba

Alguns anos depois da união com a família Carvalho, Manoel Joaquim de Amorim alcança o poder de uma das facções políticas da cidade serrana, o que significava criar ou entrar em confusões, e decide montar uma espécie de guarda para sua proteção. Entre os membros do seu séquito de segurança está um cangaceiro que todos chamam de Moita Braba (7).

Para Luis da Câmara Cascudo ele se chamava Antônio Moita Braba, já Raimundo Nonato informa que ele seria Manuel Joaquim Moita Braba. Mas os dois escritores potiguares concordam que este cangaceiro era perigoso, violento, astuto e valente. Teria nascido na Paraíba, mais precisamente na cidade de Sousa, era mameluco, tinha em torno de trinta anos e desde os dezesseis já era um “homem de armas”, tendo praticado em torno de quinze mortes. Desde o início da década de 1880 circulava entre Sousa, Uiraúna, e as vilas da região do Rio do Peixe, na Paraíba, passando por Luis Gomes, Pau dos Ferros e São Miguel, no Rio Grande do Norte, até o Pereiro e Icó, no Ceará. Sua área de atuação sempre foi pequena, bem como o número de membros do seu bando. Quando uma região estava fe rvilhando de soldados a sua procura, passava a fronteira e buscava esconderijo em outra região. Era sempre protegido pelos poderosos do lugar, trabalhando para quem melhor lhe pagasse, sendo útil para impor a lei dos mais fortes nas épocas eleitorais e assegurando o poder aos seus chefes, entre eles Manoel Joaquim de Amorim. Contudo, nunca foi um vassalo que se prendia exclusivamente a quem lhe pagava, era fiel até o momento em que ele achava que valia a pena ser fiel. (8).


Pesquisador Rostand Medeiros ao lado da Dra. Francisquinha


Apesar da sua “extensa ficha” já ser certamente conhecida das autoridades, somente em 1892, Moita Braba passa a chamar a atenção dos mandatários do governo em Natal. Eram dez da manhã de uma segunda-feira, dia 14 de novembro, quando o rico fazendeiro José Bezerra de Medeiros, conhecido como “Bezerra matuto”, acompanhado de dois advogados e alguns seguranças, chegavam à sede da intendência da vila de São Miguel para participar de uma audiência. Antes de entrar no local estas pessoas são atacados por um grupo de dez homens, mas apenas o fazendeiro é sumariamente alvejado e morto. Os matadores seguiam ordens de Amorim em pessoa, tendo Moita Braba como o segundo em comando (9).
As razões da morte de “Bezerra matuto” são as de sempre; terras, lutas pelo pode r local, demonstrações de força, etc.


O mandante Amorim é pronunciado em março de 1893, mas em flagrante ato de desrespeito a justiça, continua a viver tranquilamente na sua fazenda Quintos, localizada a dezessete quilômetros de São Miguel. Amorim gozava da proteção de políticos do lugar, além de contar com a falta de empenho das autoridades judiciárias de Pau dos Ferros em cumprir com suas obrigações, no caso o juiz Paulino de Araújo Guedes e o delegado de São Miguel e grande “defensor da legalidade”, o controverso alferes Francisco Moreira de Carvalho (10).

“Os Quinto dos infernos”

Entretanto o crime é a gota d’água para o governador potiguar Pedro Velho. Este passa a exigir mais empenho das autoridades para dar um basta à situação de desordem e intranqüilidade na região (11). Somente no fim da tarde de 31 de julho de 1894, oito meses após a morte de “Matuto bezerra”, o alferes Carvalho parte de São Miguel para a fazenda Quintos. Junto à “autoridade” seguem Firmino José Bezerra de Medeiros, conhecido como “Néo Bezerra” e filho de “Bezerra matuto”, além de outros nove homens que “vão cumprir a lei”.

Estas pessoas possuíam um histórico um tanto estranho para a função, entre eles Joaquim Avelino, pronunciado por crime de defloramento, outros tidos como desordeiros e o próprio Moita Braba. Seja por alguma desavença com seu agora “ex-patrão” Amorim, por esperteza, ou outra razão, o certo é que este cangaceiro fez parte do grupo que sitiou a fazenda Quintos e tentou prender seu proprietário. O mais estranho é que o cerco da fazenda Quintos põe lado a lado o filho do assassinado “Bezerra matuto” e alguns membros do mesmo grupo que perpetraram o assassinato do seu pai. Já é noite quando “os homens da lei” cercam a propriedade e intimam o velho Amorim a se entregar. Mesmo cercado ele não se intimida, manda chumbo como resposta a ordem de prisão e o tiroteio est oura, seguindo por toda à noite. Pela manhã outras dezessete pessoas se juntam ao grupo do alferes Carvalho, cresce então o conflito e o cerco à propriedade ganha força. Lá dentro Amorim busca proteger uma filha, uma neta, dois netos, um genro e um empregado. Os homens válidos fazem fogo através das “torneiras” existentes nas paredes (12).

O pipocar das armas ecoa pelas serras, a população da região fica irrequieta para saber o que está acontecendo, é o assunto em voga. Dentro da casa os defensores fazem fogo ao menor sinal do surgimento de algum atacante na sua alça de mira. Amorim possui estoque de munição e mantimentos para lhe assegurar alguns dias de resistência, um túnel oferece acesso à água de um açude próximo. Já os atacantes têm todo tempo do mundo. Atiram em toda casa, nas grossas janelas e portas de madeira. Buscam alvejar algum defensor que se mostre de alguma forma e a troca de ofensas e impropérios é constante.


Casa da Fazenda Quintos


Literalmente a fazenda Quintos se transforma nos “Quintos dos Infernos”.

Acredita-se que Amorim contava com a possibilidade de algum aliado atacar o pessoal do alferes Carvalho pela retaguarda, mas o próprio fato do seu ex-segurança Moita Braba está ao lado dos atacantes, aponta como provavelmente o valente Amorim já não possui o mesmo poder de outrora. O certo é que depois de cinco longos dias após o início do cerco, com a munição escasseando e a tensão no limite, Amorim e outros companheiros fogem pelo dito túnel, alcançando um local onde aparentemente existia um engenho de rapadura e de lá, encobertos pela vegetação, conseguem fugir. Os que permaneceram na casa gritam solicitando garantia de vida ao alferes Carvalho. Este concede o salvo conduto, mas como se acompanhava de homens motivados tanto pela vingança, quanto pelo desejo da rapin agem, a sede da fazenda Quintos é invadida. Objetos são então roubados, baús são arrombados, móveis quebrados e outras coisas destruídas. Até as alimárias existentes na propriedade são utilizadas para o transporte dos produtos do saque e finalmente o grupo de atacantes incendeiam a sede da propriedade. Entre os prisioneiros de destaque estão Ismael José de Carvalho e Olympio Cesário de Moura, respectivamente genro e neto do proprietário dos Quintos.

Amorim busca abrigo em uma fazenda nas imediações do município potiguar de Luís Gomes, provavelmente sob a proteção de algum poderoso do lugar. A população desta cidade limítrofe com a Paraíba fica assustada com a sua presença, este então segue para o estado vizinho e as autoridades desconhecem o seu paradeiro. Firmino Bezerra, um irmão e outros que participaram do cerco, talvez até acompanhado de Moita Braba, partem armados para várias localidades da região com um recado bem claro; aqueles que fornecerem abrigo ao assassino do seu pai e seus asseclas vão ter que enfrentar a fúria de suas armas. A região está vivendo um clima de terror. Vários buscam armas para a defesa de suas propriedades, já outros que vivem mais isolados buscam juntar-se a parentes em sítios mais povoados ou nas pequenas vilas e cidades (13).


Continua...


7 - Sei que no livro “Flor de Romances Trágicos”, de Luís da Câmara Cascudo, no capítulo onde ele comenta sobre a morte deste cangaceiro, ele nomeia este celerado como “Moita Brava”. Entretanto, em janeiro de 2007, quando estive na região buscando garimpar alguma informação sobre estes episódios, mesmo depois de 113 anos, só escutei os moradores locais nomeando-o “Moita Braba” e assim preferi mantê-lo. Ainda durante as pesquisas na região, pude perceber que poucas pessoas conhecem sobre os episódios ocorridos na Fazenda Quintos e sobre a morte de Moita Braba. As informações que consegui, através do relato de poucas pessoas idosas, muito pouco, ou quase nada acrescentaram ao que as antigas fontes escritas me proporcionaram.


8 - As informações mais detalhadas sobre este cangaceiro se encontram nos livros de Nonato, Raimundo. “Os revoltosos em São Miguel (1926)”. Rio de Janeiro, Ed. Pongetti, 1966, págs. 19 e 22 e Cascudo, Luis da Câmara. “Flor de romances trágicos”. Natal, EDURF, 1999, págs. 85 a 90.


9 - Na Mensagem do Presidente da Província do Rio Grande do Norte, Pedro Velho de Albuquerque Maranhão apresenta em 1893, na sua página 4, informa que o tiroteio ocorreu no dia 10 de novembro, uma quinta-feira. Contudo o relatório do então Chefe de Polícia Interino, Olympio Manoel dos Santos Vital, apresentado praticamente um ano depois, na primeira página da edição de “A Republica”, de 10 de novembro de 1894, comenta que a data do incidente foi o dia 14. Em minha opinião sigo o relatório do Chefe de Polícia, pois o mesmo esteve apurando os fatos na região dos conflitos. Já os protetores de “Bezerra matuto”, segundo Nonato, R. Op. Cit., pág 20, eram cangaceiros cearenses do grupo do chefe “Peixoto”.


10 - Nonato, R. Op. Cit., pág 20, informa que Manoel Joaquim de Amorim chegou a ir a julgamento, que o mesmo não resultou em nada. Entretanto, o então Chefe de Polícia Interino, Olympio Manoel dos Santos Vital, em seu relatório ao governador Pedro Velho e apresentado em “A Republica”, de 10 de novembro de 1894, nada comenta sobre este possível julgamento. Igualmente as edições dos jornais editados em Natal na época, tampouco fazem alusão a este fato. Já a pífia atuação das autoridades judiciárias no caso Amorim é igualmente comentada e fortemente criticada no mesmo relatório de Olympio Vital. Na Mensagem que Pedro Velho apresenta em 1893, na relação dos delegados de polícia designados pelo governador Pedro Velho, consta o nome do alferes Carvalho como titular na cidade de São Miguel.


11 - Quase dois meses depois da morte de Moita Braba, quando os ânimos na região estavam mais tranqüilos, os jornais publicam uma nota emitida pelo governador Pedro Velho, informando que desde setembro de 1894, a população da região solicitava um maior empenho por parte do governo para pôr fim ao clima de medo que imperava na vila de São Miguel. A população estava particularmente apreensiva com a “presença de cangaceiros, circulando livremente pelas ruas, em grupos e fortemente armados”. Ver o jornal “A Republica”, edição de 16 de fevereiro de 1895, p. 01.


12 - Na época do tiroteio Amorim já contava com 73 anos. As chamadas “torneiras” eram aberturas feitas, ou “broqueadas” como se dizia, nas paredes das antigas propriedades dos coronéis do sertão, onde se destinava a se obter um campo de visão para parte externa, visando realizar disparos contra os adversários com uma arma de fogo.

13 - Sobre o cerco, a conseqüente depredação da fazenda Quintos e a fuga de Amorim, ver principalmente Nonato, R. Op. Cit., págs. 20 a 23 e o relatório de Olympio Vital publicado em “A Republica” em 10 de novembro de 1894.



Prefeito de Crato recebe Cariri Cangaço



Crato de 1925, óleo sobre tela


O prefeito do município de Crato, Samuel Araripe recebeu na última semana a visita dos Organizadores do Cariri Cangaço; numa demonstração de cordialidade o Curador do Evento Manoel Severo, juntamente com a secretária de cultura Danielle Esmeraldo, foram acompanhados pelo jornalista Plínio Bortolotti.


Na oportunidade o prefeito Samuel Araripe apresentou o Plano de Trabalho e de Governo, construido por sua equipe, pensando o Crato para os próximos 20 anos; segundo o prefeito "esse não é um Projeto ou Plano de um prefeito ou de uma administração, é um plano do município, que está preocupado na construção de uma cidade cada vez mais saudável, justa e gostosa de se morar".O Plano dentre inúmeras ações, contempla a requalificação do espaço urbano e ambiental, a saneamento básico total do município, a oferta de água e energia em 100% das residencias do Crato, o apoio à cultura, esporte e turismo, e obras de infraestrutura que preparam o município para as próximas décadas.



Prefeito Samuel recebe Manoel Severo e Plínio Bortolotti


Manoel Severo ressaltou o apoio prestado pela prefeitura de Crato, juntamente com a URCA e as outras municipalidades ao Cariri Cangaço; já o prefeito Samuel Araripe confirmou a importância da iniciativa "uma vez que reune no cariri do Ceará, as mais renomadas autoridades da temática no Brasil, e para nós é uma honra muito grande, Crato com certeza mais uma vez estará fortemente apoiando a iniciativa".


Gabriel Barbosa


Procura-se: Recompensa $ 50.000 Réis



Maria Feínha e Virgulim Ferreirinha da Silva

Perigosa dupla de cangaceiros anda atemorizando os sertões , já foram vistos em sete dos nove estados do nordeste, agem normalmente em grupo, mesmo já se tendo notícia que também se apresentam em dupla. A última façanha foi no último mês de janeiro quando de surpresa atacaram prateleiras de supermercado, dilapidando todo um estoque de pizza e chocolates; também foram vistos atemorizando duas sorveterias e tres carrinhos de churros e uma banca de revistinhas.

Essa dupla é o terror dos pipoqueiros e vendedores de picolé. Várias volantes já se encontram em seu encalço, detê-los é uma questão de tempo.Cuidado, são perigosos dilaceradores de juízo de pais e estão recrutando numeroso grupo de rebeldes por onde passam. Uma das exigências de que se tem notícia foi um último bilhete enviado à uma das escolas da região, exigindo aulas somente uma vez por semana e com um agravante: recreio de tres horas. Eles são capazes de qualquer coisa...

Qualquer informação favor comunicar aos apaixonados pais, através de telégrafo ou mesmo através de coiteiros de segurança.

Assinado: Severo e Aderbal

Barbalha acolhe a abertura do Cariri Cangaço 2010





Aconteceu em Barbalha a primeira reunião do Grupo de Trabalho intermunicipal e interinstitucional responsável pela realização do Cariri Cangaço. Na séde da Secretaria de Cultura e Turismo de Barbalha, estiveram reunidos representantes do município de Barbalha, do município de Missão Velha , do ICVC - Instituto Cultural Vale Caririense e do Centro Pró Memória Josafá Magalhães.

Na oportunidade foi sugerido o formato da edição do Cariri Cangaço 2010, que deverá seguir os mesmos padrões do ano de 2009, apenas "teremos as tardes livres" pontua o Coordenador do Evento, Manoel Severo, que confirma, "as visitas técnicas acontecerão pela manhã, seguidas de um almoço/palestra; as tardes serão livres, pensando no descanço de nossos convidados para os embates da noite, quando teremos palestras, conferências e os esperados debates."


Hugo Rodrigues, Manoel Severo, Mabell, Soares Neto e Rodrigo Sampaio

Neste ano a abertura será no município de Barbalha; para o Presidente do ICVC, professor Hugo Rodrigues, "será uma honra Barbalha sediar a abertura do Cariri Cangaço 2010, principalmente no dia do aniversário do município, 17 de agosto". Já o Sub-Secretário de Cultura de Barbalha o músico Soares Neto, "com certeza este ano será ainda mais significativo, até porque o Cariri Cangaço estará envolvendo muitos outros municípios que não estavam presentes em 2009".

A reunião em Barbalha contou com a presença do Coordenador do Seminário, Manoel Severo, do Secretário de Cultura e Turismo do município Dorivan Amaro, do Sub Secretário Soares Neto, do Presidente do ICVC Hugo Rodrigues, do representante do município de Missão Velha Rodrigo Sampaio, além de representantes do Centro Pró Memória Josafá Magalhães.

Gabriel Barbosa.

Juazeiro do Norte realiza reunião para Cariri Cangaço 2010






Os Organizadores do Cariri Cangaço estiveram reunidos mais uma vez em um encontro de trabalho; desta vez o município anfitrião foi Juazeiro do Norte, reunindo representantes das Secretarias de Cultura de Juazeiro e Crato. Com as presenças do Curador do evento, Manoel Severo, das Secretárias de Cultura de Juazeiro do Norte, Glória Tavares e de Crato, Danielle Esmeraldo, contou ainda com a participação dos Assessores, Felipe Caxeta, André de Andrade e Aluízio Filho.

Juazeiro do Norte, juntamente com Crato, Barbalha e Missão Velha é um dos municípios que assinam o empreendimento juntamente com a SBEC, URCA-Universidade Regional do Cariri e os institutos culturais: ICC, ICVC e Pró Memória.


Equipe reunida em Juzeiro do Norte


Secretária Glória Tavares de Juazeiro do Norte


André de Andrade, Glória Tavares e Danielle Esmeraldo

Na pauta do encontro, a sistemática de desenvolvimento das palestras e debates como também a definição da infraestrutura necessária para a edição 2010 do Cariri Cangaço. Para a Secretária Glória Tavares "o Cariri Cangaço já está consolidado, nos resta trabalhar ainda mais para fortalecê-lo e fazer do evento uma referência da Temática, no Brasil." Já Danielle Esmeraldo ressalta o trabalho conjunto de todos os parceiros "nunca tivemos isso no cariri, e a experiência do ano passado mostrou que é o correto; quatro prefeituras, uma universidade, tres institutos culturais, além da SBEC, e tantos outros parceiros construindo um evento que veio para ficar."

Segundo o Coordenador do evento, e seu Curador, Manoel Severo, as reuniões deverão continuar, "em breve estaremos com a URCA e ainda com o ICC, e logo logo vamos estreitar os laços com muitos outros parceiros, tanto do cariri, como em Fortaleza e até de outros estados".

Gabriel Barbosa.

Os Quintos dos Infernos - Parte I Por:Rostand Medeiros



Rostand Medeiros, Severo e Múcio Procópio

A História do Combate Entre o Cangaceiro Moita Braba e o Alferes Cascudo.

Em 1889, após a proclamação do regime republicano, o Rio Grande do Norte teve aclamado como seu primeiro governador o médico e jornalista Pedro Velho de Albuquerque Maranhão (foto ao lado), onde o mesmo passou apenas 19 dias à frente desta função. Este foi surpreendido com a nomeação do bacharel Adolfo Afonso da Silva Gordo para chefe do executivo potiguar e teve de deixar o governo. Seguiu-se um período de instabilidade política, muito prejudicial ao desenvolvimento do estado. Sucederam a Pedro Velho oito governadores e uma junta governativa durante dois anos e três meses, até que este retorna ao poder, eleito pelo Congresso do Estado em 22 de fevereiro de 1892. Este novo governo representou o fim da instabilidade política, consolidando o regime republicano no Rio Grande do Norte e cr iando as bases para Pedro Velho dar iniciar a atuação da oligarquia Albuquerque Maranhão.


Pedro Velho de Albuquerque Maranhão

Em meio a toda esta efervescência, com esta alternância de lideranças no executivo estadual, alguns setores políticos do Rio Grande do Norte, buscando ampliar, ou ocupar espaços nas cidades do interior, passaram a agir de forma agressiva contra seus adversários na luta pelo poder, chegando a casos de práticas de violências contra seus opositores, a terem sob suas ordens grupos de cangaceiros. Um destes locais foi à cidade de São Miguel.

A conflituosa cidade na serra

A região onde se localiza a cidade potiguar de São Miguel, antigamente conhecida como vila de São Miguel de Pau dos Ferros, está fincada no alto da serra do mesmo nome. A evolução política tem início em junho de 1859, quando a cidade passa a ter um Distrito de Paz, e chega a município com a Lei estadual n° 776, de 11 de dezembro de 1876, desmembrando-se de Pau dos Ferros. A cidade e a região sempre foram marcadas por inúmeros casos que estiveram envoltos em violência e sangue. Na história do lugar não faltaram exemplos de assassinatos por questões políticas, lutas pela posse de terras, uso de pistoleiros abatendo inimigos em tocaias e ataques de cangaceiros. Várias são as razões para explicar a ocorrência de conflitos no alto da serra. Entre estes podemos citar a luta pela posse das terras férteis, que umedecidas pela altitude elevada, facilita o desenvolvimento de uma produção agrícola em épocas de seca e conseqüentemente a ganância dos latifundiários. (1)

Outro ponto a ser levado em consideração está associado à localização geográfica de São Miguel. Estando posicionada entre três estados, esta cidade sempre foi um local de passagem de forasteiros, de boa ou má índole. Para aqueles que tinham contas com a justiça, à região possuía inúmeros locais de difícil acessibilidade, proporcionando a existência de diversos esconderijos naturais. Outro facilitador para ocorrência destes casos está relacionado à distância de quinhentos e trinta e quatro quilômetros que separam esta cidade da capital do estado, Natal, e das autoridades constituídas.


No mapa, o extremo oeste do Rio Grande do Norte

Quem mais se beneficiou com esta situação foram os coronéis locais, que sem maiores esforços, conseguiam contratar farta “mão de obra especializada” composta de homens violentos, que “há muito estavam debaixo do cangaço”. Formando verdadeiras milícias, fortemente armadas, mostrando aos inimigos a força de determinada facção e deixando a população em permanente clima de terror. Várias fontes oficiais teceram comentários sobre os problemas ligados à violência na região. Em 1853, o então Presidente da Província do Rio Grande do Norte, Antônio Francisco Pereira de Carvalho, comenta que “Esta província, confinando com a do Ceará e Paraíba, em longa extensão e lugares, por onde se desfilam algumas serras, é o valhacouto de quantos malfeitores há no seu li mite, principalmente as de Luis Gomes e São Miguel” (2).

Já outro antigo dirigente potiguar, Olynto José Meira, na sua Mensagem de 1863, ao justificar a designação de um delegado para impor a ordem na região, declarou que “a comarca de Pau dos Ferros, limítrofe com as províncias da Paraíba e do Ceará, um dos menos ordeiros, ou talvez o mais turbulento de toda província, aonde desde longa data sei que os furtos de cavalos, as ofensas físicas e os assassinatos tem sido praticados quase em larga escala” (3).

Valentia

A situação em São Miguel e região eram tão peculiares que em algumas ocasiões, os fortes do lugar se sentiam tão poderosos no alto da serra, que chegavam a criar tremendos embaraços para as autoridades constituídas. Como exemplo, podemos comentar sobre a controversa figura de Francisco Moreira de Carvalho, comandante do Partido Conservador em São Miguel. Notícias dão conta que desde 1868, Carvalho havia praticado, ou influenciado os seus correligionários a agir de forma arbitrária e violenta contra os integrantes do Partido Liberal na região. Ele foi julgado e condenado por homicídio, mas devido a sua posição e ligações políticas, estava livre e protegido pelos outros poderosos locais. Em 1874, o então presidente da província, João Capistrano Bandeira de Mello Filho, conhecido como “Doutor Bandeirinha”, ordenou um basta à situação e mandou prender o alferes. Em sua “Fala” a Assembléia Legislativa, o presidente teceu fartos elogios ao 2º sargento José Paz da Silva Banda, pela detenção do alferes (4).

Mas se Carvalho realmente foi preso, passou pouco tempo, pois durante a grande o período da chamada “seca de 77” (entre os anos de 1876 e 1879), mais precisamente em 27 de janeiro de 1879, vamos encontrá-lo à frente de um grupo de moradores de São Miguel, na cidade de Areia Branca, para reivindicar a entrega de gêneros alimentícios aos flagelados da sua região. Ao chegar à cidade salineira, o líder dos flagelados busca as autoridades, mas os gêneros alimentícios não são entregues. Entretanto ele toma conhecimento que em um depósito de mercadorias do governo havia alimentos em abundância e que certas pessoas estavam desviando o que lhe fora prometido. Liderando um grupo de retirantes, Carvalho incita uma revolta, sendo necessário à vinda de uma força policial com q uarenta militares de Mossoró e dezenas de civis fortemente armados. Houve enfrentamento e derramamento de sangue, deixando um saldo de vinte mortos e inúmeros feridos. Entre as vítimas estava o delegado de Mossoró, Manuel Rodrigues Pessoa, além de alguns soldados e o maior número de vítimas foi registrado no lado dos mais necessitados. O então presidente da Província do Rio Grande do Norte, Eliseu de Souza Martins, enviou para Areia Branca o Chefe de Polícia, Joaquim Tavares da Costa Miranda, com uma tropa formada por cem policiais e assim foi possível controlar a situação.


Se para alguns a figura de Francisco Moreira de Carvalho é de um déspota, autoritário, um marginal que zombava das autoridades com a sua impunidade, para muitos outros ele era tido como um herói. O escritor Raimundo Nonato, sem citar fontes, informa que antes do episódio sangrento em Areia Branca, ainda durante o período da Guerra do Paraguai, Carvalho arregimentou sessenta filhos da serra de São Miguel para combaterem o ditador Solano Lopez. Ele mesmo teria se oferecido para lutar em terras paraguaias e por esta razão recebeu do império o título de “alferes”. Ainda segundo Raimundo Nonato, outra boa ação do alferes Carvalho foi ele ter sido um entusiasta abolicionista na região, apoiando os surtos libertários ocorridos no Ceará e Rio Grande do Norte em 1883 (5).

O alto da serra sempre se caracterizou por produzir valentes, que em situações extremas realizaram ações que marcaram época e chegaram até nossos dias, não como relatos de frios assassinatos, mas quase como lembranças de antigas gestas medievais. É Câmara Cascudo quem comenta, sem especificar a data, nem a razão, que certo pistoleiro de nome José Brasil, matou e esquartejou em vários pedaços José Francisco de Carvalho, o rico proprietário do sítio “Potó” e depois fugiu. O filho do falecido, Antonio Monteiro de Carvalho, sem coragem para perseguir o assassino, utilizou um artifício verdadeiramente interessante para “lavar a honra”. Ele procurou Manoel Joaquim de Amorim para resolver a situação. Amorim, um dos valentes de São Miguel, era apaixonado pela filh a do falecido fazendeiro, mas aparentemente não tinha muitas esperanças de seus desejos de união com a jovem serem realizados. Monteiro de Carvalho sabendo desta situação propôs ao esperançoso Amorim que se este prendesse a João Brasil, teria a honra de desposar sua irmã.

Segundo Cascudo, Amorim saiu então “pelo oco do mundo”, “com uma determinação que impulsiona os apaixonados”. Acabou por prender o assassino, segundo uma versão em Pedras de Fogo, na Paraíba e segundo outra, na cidade pernambucana de Goiana. O certo é que Amorim, coberto com a glória dos valentes, trouxe o matador a São Miguel. Houve festas e danças pela captura do sicário, que assistia a tudo amarrado em um tronco. Com o dia amanhecendo um grupo levou José Brasil para uma pedra chata, perto da capela do padroeiro São Miguel. O assassino então pede um padre para se confessar, mas rispidamente Antonio Carvalho nega, alegando a Brasil que ele “não deu confessor a meu pai!”, e fuzila sumariamente o matador diante de numerosa platéia. A promessa a Amorim é cumprida e este se casa com Anna Fausta de Carvalho (6).

Continua...

1 - O ponto culminante do Rio Grande do Norte, a Serra de São José, com 831 metros de altitude está localizado entre os atuais municípios de Luiz Gomes, São Miguel e Venha Ver. Segundo o Anuário Estatístico do Rio Grande do Norte, edição 2004 e publicado pelo IDEMA - Instituto de Desenvolvimento Econômico e Meio Ambiente do Rio Grande do Norte.


2 - Ver a Mensagem do Presidente da Província do Rio Grande do Norte, Antônio Francisco Pereira de Carvalho, 1853, pág. 04.

3 - Ver a Mensagem do Presidente da Província do Rio Grande do Norte, Olynto José Meira, 1863, págs 58 e 59. Por esta época, o então município de São Miguel tinha a sua comarca baseada no vizinho município de Pau dos Ferros.

4 - Ver a Mensagem do Presidente da Província do Rio Grande do Norte, João Capistrano Bandeira de Mello Filho, 1874, pág. 12. Sobre a passagem do “Doutor Bandeirinha” como chefe do executivo potiguar, ver Cascudo, Luis da Câmara. “História do Rio Grande do Norte”, MEC, 1955, pág.182.

5 - Sobre o conflito em Areia Branca ler a Mensagem do Presidente da Província do Rio Grande do Norte, Rodrigo Lobato Marcondes Machado, 1879, pág. 4. Outra fonte é a Dissertação de Mestrado em Meio Ambiente, apresentada pelo Bacharel em História, Francisco José Pereira da Silva, da UERN - Universidade do Estado do Rio Grande do Norte. Sobre a participação de Francisco Moreira de Carvalho na Guerra do Paraguai e no apoio a luta abolicionista na região, ver Nonato, Raimundo. “Os revoltosos em São Miguel (1926)”. Rio de Janeiro, Ed. Pongetti, 1966, págs. 19 e 22.

6 - Ver o jornal “A Republica”, edição de 31 de agosto de 1934, pág. 01. Câmara Cascudo visitou São Miguel no mesmo ano da publicação desta reportagem, quando percorreu várias cidades do interior potiguar, como participante da comitiva do Interventor Mario Câmara, que realizava esta viagem com o intuito de inaugurar obras realizadas em sua gestão. Como resultado desta viagem, Cascudo escreveu o livro “Viajando o Sertão”, mas não comenta nada sobre sua visita a São Miguel. Esta interessante reportagem aponta outras valiosas informações sobre esta cidade serrana.

NOTA DO CARIRI CANGAÇO: Esta postagem estará sendo complementada em breve com as partes II e III, de autoria do confrade pesquisador e escritor Rostand Medeiros, presença também confirmada no Cariri Cangaço 2010.


As Incursões Retóricas de Antônio Conselheiro Por:Barros Alves



Ruínas da Igreja de Canudos


Antônio Vicente Mendes Maciel, o lendário místico quixeramobinense que exerceu sua apocalíptica pregação nos sertões da Bahia, ao contrário do que muitos imaginam, não era um iletrado. O Historiador João Brígido, contemporâneo daquele visionário que inscreveu o nome na história-pátria como Antônio Conselheiro, informa que ele cursara rudimentos de Latim com o Professor Antônio Ferreira Nobre, na terra natal. A formação escolar dele constara também de estudos da Língua Portuguesa, Aritmética, Geografia e Francês.


O Conselheiro, desde jovem propenso ao eremitismo, propensão esta que se exacerbou em razão de desilusão amorosa, era leitor da Bíblia, do "Lunário Perpétuo", das "Horas Marianas" e das "Práticas Mandamentais", livros sacros cuja leitura era piedosamente feita por quase todos os letrados católicos que habitavam os sertões nordestinos no século XIX. De par com essas leituras, durante quatro an os, Antônio Vicente Mendes Maciel acompanhou o Pe. Ibiapina, ex-advogado e orador fluente, que se tornara padre e missionário a construir hospitais, casas de caridade e cemitérios nos mais adustos lugarejos do Nordeste brasileiro. Há de se aceitar que de Ibiapina o futuro "Conselheiro" recebeu profunda influência, tornando-se ele próprio, além de construtor de igrejas e cemitérios, um orador exaltado e convincente, cujo discurso messiânico foi apreendido com fervor por milhares de seguidores.



Casa do Conselheiro em Quixeramobim;  hoje Museu.


Não apenas no púlpito ou em conferências particulares, sabia o Conselheiro admoestar e convencer com autoridade. Ao escrever ele conseguia expressar suas estranhas ideias com clareza e precisão, deixando explícito seu antirrepublicanismo nos "Discursos sobre a República", assim como orientações de caráter anticlerical nas "Prédicas Canudenses". O Conselheiro "escrevia muito", conforme depoimento dado ao historiador José Calasans por Pedro Nolasco, o Pedrã o, um dos pretorianos da guarda pessoal de Antônio Conselheiro. E a escritura dele era "normal, límpida e de pessoa letrada", segundo o testemunho de Gustavo Barroso.


Caído o arraial de Canudos sob o fogo raivoso de 5 mil soldados, foram encontrados dois textos manuscritos assinados pelo "Peregrino" Antônio Vicente Mendes Maciel - ele não se autointitulava "Conselheiro" -, os quais se subordinavam aos seguintes títulos: "Tempestades que se Levantam no Coração de Maria por Ocasião do Mistério da Anunciação" (Belo Monte, 12.01.1897) e "Sobre o Santo Evangelho de Jesus e Apontamentos dos Preceitos da Divina Lei de Nosso Senhor Jesus Cristo". Nesses trabalhos, o Conselheiro apresenta sua cosmovisão do mundo, especialmente no respeitante à Política e à Religião.



Prisioneiros de Canudos



Combatentes do governo e prisioneiro.


Quanto à oratória do místico rebelde, ela era "seca e rígida no que diz respeito ao homem nas suas relações com o sagrado". Na apreciação do Professor Bartolomeu de Sousa Men des, autor de importante obra sobre o tema, foi exatamente esse aspecto real da oratória do Conselheiro "que apavorou as autoridades e os detentores do poder econômico da época, mas por outro lado, atraiu para sua órbita a grande massa da população que vivia subjugada a um sistema oligárquico e perverso". Com efeito, foi graças à sua oratória que o Conselheiro conseguiu transmitir de maneira convincente suas mensagens de justiça e condenação dos desmantelos do mundo, não apenas aos milhares de sertanejos incultos, mas também a algumas personalidades letradas, conseguindo destes um devotamento que persistiu até o último momento, quando Canudos caiu, a 5 de outubro de 1897, 12 dias depois da morte do cenobita revolucionário. Todavia, como bem disse Euclides da Cunha no clássico "Os Sertões": Canudos caiu, mas não se rendeu.



Barros Alves, Angelo Osmiro e Ivanildo Silveira, no Cariri Cangaço 2009


Barros Alves
barrosalvescoisaetal.blogspot.com


NOTA CARIRI CANGAÇO: Em sua edição 2010, o Cariri Cangaço estará promovendo uma conferência sobre Antônio Vicente Mendes Maciel, ou simplesmente Antônio Conselheiro, de Canudos; com o pesquisador e professor Múcio Procópio do Amaral.