Quanto Custa uma Guerra Por: Manoel Severo


 Coronel Joaquim Santana, da Serra do Mato

Missão Velha, um dos anfitriões do Cariri Cangaço, guarda histórias marcantes relacionadas à época dos coronéis; Róseo Jamacaru, Joaquim Santana, José Dantas, Isaias Arruda, Zé Gonçalves, dentre outros, que se revezavam no poder desde o final do século XIX até as primeiras décadas do século passado, na República Velha. Alguns desses nobres proprietários do poder, mantinham fortes ligações com o Rei do Cangaço, Virgulino Ferreira, entre esses, o coronel Santana da Serra do Mato e o coronel Isaias arruda, célebre por sua participação no episóido do ataque a Mossoró.

O coronel Antônio Róseo  Jamacaru, foi nomeado  em 30 de abril de 1899 e ficou no poder até 02 de novembro de 1902, data em que foi deposto pelas forças dos apaniguados  (cangaceiros)  do  coronel  Antonio  Joaquim  de Santana, segundo notícias fidedignas da época, narrados por pessoas que conviveram com os acontecimentos, o coronel Antonio Róseo, residia no sítio Tapera, senhor de muitos haveres, com muitos legumes e rapaduras armazenadas, os quais foram destruídos pela sanha dos cangaceiros do coronel Santana, que atearam fogo nos quatro cantos da propriedade citada, cujos proprietários para escaparem com vida  tiveram que fugir para localidade Crôa de Frade, do Município de Aracati, de onde eram egressos, dali e de Maranguape. Conta a tradição que todo o gado foi sacrificado e dentro das levadas de água de regadia e nos baixios, corriam mel da rapadura derretida dos armazéns do coronel Antonio Róseo.

Missão Velha, porta de entrada do Cariri Cearense

Abaixo transcrevemos a ATA da Sessão Extraordinária da Câmara Municipal de Missão Velha, com os custos da guerra; logo após a tomada de poder no município pelo coronel Santana, destituindo "à bala" o coronel Róseo Jamacaru.

SESSÃO   EXTRAORDINÁRIA   EM   2  DE  SETEMBRO DE 1903. Presidência do Cap. Sabino de Almeida Pires. Secretário Francisco Pereira dos Santos. Aos dois dias do mês de setembro do ano de mil novecentos e três, nesta Villa de Missão Velha, no Paço da Câmara Municipal as dez horas do dia, presentes os Vereadores Capitão Sabino de Almeida Pires – Presidente, Tenente Coronel José Leite de Oliveira, Major José Homem de Figueiredo, Major João Marinho Falcão e Capitão José Machado Papinha: Aberta a sessão compareceu o Intendente Municipal Tenente Coronel Antonio Joaquim de Santana e disse que havia convocado a presente sessão para o fim de, submeter ao conhecimento desta Câmara a despesa desta Câmara, digo, a despesa  que se autorisada, a contar de novembro do ano findo, quando infelismente começaram os grandes e horrorosos desastres políticos desta Villa, promovidos pelo ex Chefe Antonio Jamacaru, e esta Intendência atendendo as reclamações da população e alarmes que se sentiam as famílias, resolveu augmentar a força municipal,  usando-se do que dispõe o art. 6º do orçamento vigente, contraiu empréstimos na importância de onse contos cento sessenta e nove mil, tresentos  cinqüenta  e nove réis (11:169:359 réis) aos senhores Cândido José de Macedo, Pedro de Figueiredo Rocha Sobrinho, Aurélio Zábulon de Almeida Pires e Fenelon Gonçalves Pitta, sacando letras a seis, douse e desoito mêses, tudo isto para pagamento da mesma força, fardamento, armamento, munição e mais necessários, conforme os documentos que apresenta para serem examinados. Tãobem compareceu Pedro de Figueiredo Rocha Sobrinho, representando os herdeiros do Coronel Antonio Luis Alves Pequeno e disse que trasia ao conhecimento desta Câmara que esta mesma municipalidade era devedora aos mesmos herdeiros da quantia de setecentos e vinte mil réis, proveniente de aluguéis da casa que servia de cadeia desta villa, a contar do ano de 1898 até esta data, ainda compareceu Fenelon Gonçalves Pitta e disse que esta municipalidade tãobem era devedora a firma comercial Sabino de  Almeida  Pires  &  Genro,  a  quantia  de  dusentos  e  seis  mil  tresentos  e quarenta réis (206:340 réis), proveniente de objetos fornecidos pelo ex-Presidente, digo, objetos fornecidos pela ordem do ex-Presidente desta Câmara Antonio Jamacaru, conforme a conta que apresentava para serem examinadas. Tomando a Câmara conhecimento do ex, digo, examinadas. Disse ainda o Intendente Municipal que todas as lutas promovidas em defesa deste município, achavão-se presentemente terminadas, achando-se este mesmo município em paz e harmonia, tendo resolvido despensar o augmento que fisera da força, compondo-se esta somente do numero de  praças  funcionais para o policiamento. Tomando a Câmara conhecimento de tôdo expôsto a constante desta acta, votou por sua maioria unânime, que se efetuasse os pagamentos  retro referidos, isto de conformidade aos rendimentos desta municipalidade, do que para constar lavrei esta acta que vai  assignada pelo Presidente e mais Vereadores. Eu, Francisco Pereira dos Santos, Secretário o escrevi. assinados): Sabino de Almeida Pires. José Leite de Oliveira. João Marinho Falcão. José Homem de Figueiredo. José Machado Papinha. Antonio Joaquim de Sant´Anna.” 

Manoel Severo.

NOTA CARIRI CANGAÇO: Agradecemos ao confrade João Bosco André a gentileza de nos enviar a ATA da Sessão Extraordinária da Câmara Municipal de Missão Velha, por ocasião da Tomada do poder pelo coronel Joaquim Santana da Serra do Mato, contra o coronel Róseo Jamacaru.     
    

4 comentários:

Anônimo disse...

Não conheço os motivos que levaram o Cel.Joaquim Santana a tomar o poder do Cel. Róseo Jamacaru. Mas me parece absurda a idéia do sujeito apeiar o outro do poder e 10 meses depois, apresentar a conta para o município pagar.
Coisas da República Velha.

Um forte abraço aos confrades.

Assis Nascimento // Mossoró (Rn)

CARIRI CANGAÇO disse...

Coisas do Brasil do começo do século passado, meu caro amigo Assis; e tem mais; segundo informações de memorialistas da própria Missão Velha, logo depois que o Cel. Santana expulsou a família do Cel. Roseo, as propriedades do mesmo, foram vendidas "justamente para pagar as despesas da GUERRA!!!" É mole!

Abração
Manoel Severo

Anônimo disse...

Muito interessante o texto colocado. Neste documento temos números que servem de base de comparação para avaliarmos quanto dinheiro foi mal usado pelos administradores da época. Gastos com equipamentos e pessoal para manter o poder e combater a violência injustificada. Embora não esteja claro por quanto tempo os onze contos tomados por empréstimo iria bancar os custos da tropa, aparentemente 10 meses, comparando esse número com os resgates pedidos por Lampião, que variavam de 1 até 5 contos de Réis, dá a dimensão do desvio dos recursos que deveriam estar financiando a produção. Tomando por base que o aluguel de uma casa que servia de cadeia na cidade de Missão Velha, por cinco anos, custou 700 mil Réis, fica claro que os 11 contos, não eram pouca coisa. Bem como os resgates de Lampião que variavam de acordo com o patrimônio aparente de suas vítimas também eram quantias bem grandes para a época.

Carlos Eduardo Gomes.

CARIRI CANGAÇO disse...

É verdade grande Carlos Eduardo, coisas do Brasil.

Manoel Severo